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14 Abril 2021

 

“Frente ao otimismo informado de Bill Gates, a irritada denúncia de Naomi Klein. Uma combinação necessária da qual especialmente os mais jovens devem beber. Porque deles é o futuro. Nele, ai!, viverão”, escreve José Manuel Sánchez Ron, físico e historiador da ciência espanhol, em artigo publicado por El Cultural, 12-04-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Não sei vocês, amigos leitores, mas eu me encontro constantemente com muitos motivos para alentar o pessimismo, quando não a irritação. A cultura na qual me eduquei e que tentei cultivar não desapareceu, é claro, mas se vê gravemente ameaçada. A ciência e a tecnologia, esses produtos humanos que conseguiram fazer com que a nossa existência e conhecimentos tenham melhorado até limites insondáveis, tornaram-se, em parte, instrumentos que possibilitam o pior da natureza humana.

As chamadas “redes sociais” (talvez seria melhor chamar, parte delas, “redes antissociais”) constituem cenários perfeitos para que proliferem as mentiras e os insultos. A infinita oferta de “informação” – não confundir com “conhecimento” – agarra como pegajosa teia de aranha. E a degradação que o conceito de informação está sofrendo não se limita às redes sociais.

Não é necessário ser muito crítico para perceber o nível geral das informações da televisão pública espanhola. Além de dedicar uma vergonhosa parte de seu tempo a anunciar seus próprios programas, as mil vezes repetidas notícias carecem do mínimo de análise rigorosa. Os meios de comunicação públicos de informação deveriam tentar nos tornar melhores, não mais estúpidos. Não é possível uma democracia sem um jornalismo veraz, informado e independente.

Em semelhante situação, insisto, a partir do que eu percebo, posso compreender manifestações como as que foram realizadas, há muito tempo, por dois físicos que admiro: Albert Einstein e Richard Feynman.

Em um discurso pronunciado em 1919, Einstein resumiu a parte mais profunda, às vezes escondida voluntariamente, de seu pensamento: “Em princípio, acredito com Schopenhauer que uma das mais fortes motivações dos homens para se entregar à arte e a ciência é o anseio de fugir da vida diária, com sua dolorosa dureza e sua horrível monotonia. O desejo de escapar das cadeias com as quais prendem nossos, sempre mutantes, desejos. Uma natureza de índole fina almeja fugir da vida pessoal para se refugiar no mundo da percepção objetiva e o pensamento”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos cientistas não tiveram outro remédio a não ser se envolver na vida, que mostrava naquele momento alguns de seus aspectos mais dramáticos. E, em geral, agiam com boa vontade - às vezes, como havia acontecido na guerra mundial anterior, tomando a iniciativa em ideias de consequência letais -, ainda que as formas como conceitualizavam eram diversas.

No Laboratório de Los Alamos, em pleno desenvolvimento do Projeto Manhattan, que produziu as bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, o genial matemático John von Neumann aconselhou Feynman, um dos melhores físicos da segunda metade do século XX, que “não tinha que se sentir responsável pelo mundo no qual vivia”. E o então jovem físico tentou seguir aquele conselho, desenvolvendo, como explicou em sua autobiografia, “um poderoso sentido de irresponsabilidade social, que fez de mim uma pessoa muito feliz, desde então”.

Em semelhante cenário, dois livros que acabam de ser publicados aliviam algo de meu pesaroso e irritado sentimento. O primeiro, e em minha opinião mais importante, é o do bilionário cofundador da Microsoft, Bill Gates: “Como evitar um desastre climático: As soluções que já temos e as inovações necessárias” (Companhia das Letras). Na realidade, a leitura deste livro produziu em mim sentimentos ambivalentes.

Por um lado, não posso deixar de saudar o otimismo de Gates, que pensa que, embora seja difícil, ainda estamos a tempo para evitar o desastre climático para o qual nos dirigimos. O seu otimismo não é, no entanto, desinformado, nem passivo. A Fundação que lidera junto com sua esposa, Melinda, desenvolve um imenso trabalho em favor dos mais necessitados.

Diríamos que ele mantém os pés no chão, nesta terra que nos acolhe e que possibilitou um comportamento bem diferente do ainda mais rico Elon Musk, fundador, entre outras empresas, do PayPal, que está empenhado em desenvolver a tecnologia aeroespacial para chegar a Marte e tornar acessível o espaço, suponho, ao turismo.

De “Como evitar um desastre climático”, valorizo especialmente as explicações que são oferecidas sobre a origem das emissões de dióxido de carbono, principal causa – no momento, quando o permafrost derreter, emitindo metano, outro galo cantará – do aquecimento global. Tais explicações deveriam ser obrigatórias em colégios e institutos.

O problema é que a análise de Bill Gates mostra com chocante clareza a dificuldade em alcançar um nível zero de emissões. Falamos muito, por exemplo, em usar eletricidade, em vez de combustíveis fósseis, mas lembremos que, atualmente, a geração de eletricidade procede de: 36% da queima de carvão, 23% do gás natural, 10% das centrais nucleares, e só 11% de renováveis e 16% de energia hidráulica.

Existem limites para estas duas últimas fontes: as renováveis, como a solar, requerem baterias melhores para serem armazenadas, e as hidráulicas já são bastante exploradas. Nesta, assim como em outras seções que aborda, Gates deposita sua esperança na pesquisa científica. É óbvio, onde mais, conforme demonstrou, nitidamente, a atual pandemia? Mas também tem seus limites.

Por outro lado, o quebra-cabeças que lucidamente é desenvolvido neste livro permite ver o copo meio cheio, mas também meio vazio. Consideremos, por exemplo, as gigantescas emissões de dióxido de carbono associadas à produção de três materiais onipresentes em nossa civilização: aço, cimento e plástico.

Seremos capazes de cumprir as expectativas de Gates? Em minha opinião, só iremos realmente nos mexer (não com sucedâneos que aparentam ser bons) quando enfrentarmos uma situação de desolação e morte parecida com a provocada pela covid-19.

Aliadas imprescindíveis aos avanços tecnocientíficos são as denúncias e as ações sociais. E, neste ponto, aparece o outro livro ao qual me referia: “On Fire: the (burning) case for a Green New Deal” de Naomi Klein. Frente ao otimismo informado de Gates, a irritada denúncia de Klein. Uma combinação necessária da qual especialmente os mais jovens devem beber. Porque deles é o futuro. Nele, ai!, viverão.

 

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