A chegada do Antropoceno

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10 Março 2021

“O Antropoceno sobreviverá em nosso idioma, sim, mas como testemunho de nosso egoísmo e miséria moral. Porque saber, sabíamos...”, escreve José Manuel Sánchez Ron, físico e historiador da ciência espanhol, em artigo publicado por El Cultural, 08-03-2021. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em certo sentido, metaforicamente, a vida, nossas vidas, são como uma representação de teatro que assistimos. E ainda que sejamos conscientes de que nela ocupamos uma parte como protagonistas, ao mesmo tempo, constatamos que vão desaparecendo personagens que nunca mais voltarão a aparecer. É como se fosse uma corrente que se prolonga em múltiplas direções e na qual, de vez em quando, desaparecem elos que certa vez foram importantes e que agora sobrevivem apenas em nossas lembranças.

No último dia 28 de janeiro, rompeu-se definitivamente um desses elos. Com a idade de 87 anos, faleceu Paul Crutzen, especialista neerlandês em química atmosférica. Não muito antes, no dia 7 de outubro de 2020, havia partido o engenheiro químico mexicano Mario Molina, que eu cheguei a conhecer. Oito anos antes do falecimento deste, havia morrido Sherwood Rowland, químico estadunidense.

Os três foram unidos pelo Prêmio Nobel de Química, que compartilharam em 1995. Na cerimônia de apresentação da premiação, Ingmar Grenthe, da Academia Sueca de Ciências, resumiu suas contribuições: “Passamos a compreender que influenciamos e somos influenciados por nossa biosfera, nossa área vital. Um dos objetivos da ciência é descrever e explicar como isto acontece. Em suas pesquisas sobre as reações químicas que ocorrem na atmosfera terrestre, os laureados com o Prêmio Nobel de Química adotaram esta perspectiva global. Estas incluíram estudar como se forma e decompõe o ozônio e como pode se ver afetado por substâncias químicas existentes na atmosfera, muitas delas são produto de atividades humanas. Em 1970, Crutzen demonstrou que óxidos de nitrogênio, formados durante processos de combustão, poderiam afetar o ritmo de diminuição do ozônio na estratosfera. Em 1974, Mario Molina e Sherwood Rowland demonstraram que compostos de cloro formados pela decomposição fotoquímica de clorofluorcarbonos (CFC ou gases freon) podiam decompor o ozônio estratosférico”.

E continuava explicando que esses óxidos de nitrogênio eram produzidos por aviões supersônicos, motores de veículos ou usinas de combustão, e que gases CFC procediam de condicionadores de ar e de aerossóis (sprays). Tudo isto, combinado com uma “cultura de usar e jogar” – que não nos abandonou –, conduzia para a sempre crescente perda do ozônio atmosférico, composto que é especialmente importante já que absorve a prejudicial radiação ultravioleta procedente do Sol.

Em 1985, ficou demonstrado que aquelas pesquisas transcendiam o meramente acadêmico, quando a equipe dirigida por Joseph Farman detectou sobre a Antártida uma rápida diminuição de ozônio. Pesquisas posteriores demonstraram que este buraco na camada de ozônio era causado, efetivamente, pela presença de átomos de cloro na estratosfera, procedente de CFC. Eram os tristemente famosos “buracos na camada de ozônio”, que fizeram com que, em 1987, a ONU redigisse o denominado Protocolo de Montreal que reivindicava uma redução de 50% nas emissões de CFC até 1999.

E, diante do aumento das evidências, logo se exigiu uma proibição total da produção destes gases, proibição que chegou no dia 1º de janeiro de 1996. Medições posteriores confirmaram que a emissão de CFC praticamente parou. Por isso, não é exagero – ainda que também Crutzen e Molina devam ser incluídos – que no obituário que o The Guardian dedicou a Rowland fosse considerado “o homem que salvou o mundo”.

Mas, hoje, quero lembrar Paul Crutzen, por um neologismo de sua responsabilidade: Antropoceno. Foi em um congresso científico que ocorreu em Cuernavaca, em 2000, dedicado ao estudo de como a Terra opera, entendida como um sistema próprio. Em uma das sessões, algumas vezes, utilizou-se o termo Holoceno para denominar a “época geológica que começou pouco depois da última Era do Gelo, há uns 11.700 anos, e que continua até os dias atuais”.

A contínua utilização deste termo, que englobava tanto o mundo dos primeiros agricultores, como o dominado por elementos como o petróleo e a eletrificação, incomodou Crutzen, que irrompeu: “Parem de falar do Holoceno. Não estamos mais nele”. “Então, em que período estamos, Paul?”, perguntaram. Pensou rapidamente e finalmente sentenciou: “No Antropoceno”.

No dia 21 de maio de 2019, o Grupo de Trabalho sobre o Antropoceno, da Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário, da União Internacional de Ciências Geológicas, votou a favor (29 a 4) de que seja incluído o termo Antropoceno como “unidade formal cronoestratigráfica” para descrever o intervalo de tempo durante o qual as ações humanas tiveram efeitos drásticos sobre a Terra e seus ecossistemas.

Resta ainda a sentença final da Comissão Internacional de Estratigrafia para que “Antropoceno” passe a fazer parte da nomenclatura geológica oficial, mas o termo já está aí e não acredito que nos abandone. José María Merino, por exemplo, acaba de publicar uma coletânea de engenhosos relatos – é literatura, mas também pensamento e crítica social – sob o título de “Noticias del Antropoceno” (Alfaguara), no qual reúne muitas das características deste nosso tempo (e futuro).

No terceiro tomo de seus “Principles of Geology” (1833), Charles Lyell, pai da geologia moderna, propôs dividir o Terciário (agora conhecido como “Era Cenozoica”, que abrange 66 milhões de anos até a atualidade) em três séries: Eoceno (do grego eos, aurora, começo, e kainós, recente). Era uma terminologia que honrava o conhecimento geológico, mas também a antiga tradição linguística grega. O Antropoceno sobreviverá em nosso idioma, sim, mas como testemunho de nosso egoísmo e miséria moral. Porque saber, sabíamos...

 

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