Fratelli tutti: um guia para a leitura da encíclica do Papa Francisco. Artigo de Antonio Spadaro

Papa Francisco assina a nova encíclica no túmulo de São Francisco de Assis | Foto: Vatican Media

05 Outubro 2020

Dentro de alguns dias chegará às livrarias uma edição da encíclica Fratelli tutti com um amplo comentário do diretor da revista La Civiltà Cattolica, Pe. Antonio Spadaro.

O sítio da revista, 04-10-2020, antecipou uma síntese do artigo. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A oito anos da sua eleição, o Papa Francisco escreve uma nova encíclica, que representa o ponto de confluência de uma ampla parte do seu magistério (cf. Fratelli tutti, 5) [1]. A fraternidade foi o primeiro tema ao qual Francisco fez referência dando início ao seu pontificado, quando inclinou a cabeça diante das pessoas reunidas na Praça São Pedro. Lá, ele definiu a relação bispo-povo como “caminho de fraternidade” e expressou este desejo: “Rezemos sempre por nós, uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade” [2].

O título é uma citação direta das “Admoestações” de São Francisco: Fratelli tutti [Todos Irmãos]. E indica uma fraternidade que se estende não só aos seres humanos, mas imediatamente também à terra, em plena sintonia com a outra encíclica do pontífice, a Laudato si’ [3].

 

Fraternidade e amizade social

 

A Fratelli tutti conjuga, ao mesmo tempo, a fraternidade e a amizade social. Esse é o núcleo central do texto e do seu significado. O realismo que atravessa as páginas dilui todo romantismo vazio, sempre à espreita quando se trata de fraternidade. A fraternidade não é apenas uma emoção, ou um sentimento, ou uma ideia – por mais nobre que seja – para Francisco, mas sim um fato que, depois, implica também a saída, a ação (e a liberdade): “De quem eu me faço irmão?”.

A fraternidade assim entendida inverte a lógica do apocalipse hoje predominante; uma lógica que luta contra o mundo porque crê que ele é o oposto de Deus, ou seja, um ídolo, e portanto deve ser destruído o mais rápido possível para acelerar o fim do tempo. Diante do abismo do apocalipse, não há mais irmãos: apenas apóstatas ou “mártires” em uma corrida “contra” o tempo. Não somos militantes ou apóstatas, mas irmãos todos.

A fraternidade não queima o tempo, nem cega os olhos e os ânimos. Em vez disso, ocupa o tempo, requer tempo. O do litígio e o da reconciliação. A fraternidade “perde” tempo. O apocalipse o queima. A fraternidade requer o tempo do tédio. O ódio é pura excitação. A fraternidade é aquilo que permite que os iguais sejam pessoas diferentes. O ódio elimina o diferente. A fraternidade salva o tempo da política, da mediação, do encontro, da construção da sociedade civil, do cuidado. O fundamentalismo o anula em um videogame.

É por isso que, no dia 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, Francisco, o papa, e Aḥmad al-Tayyeb, o grão-imã de al- Azhar, assinaram um histórico documento sobre a fraternidade. Os dois líderes se reconheceram como irmãos e, juntos, tentaram olhar para o mundo de hoje. E o que entenderam? Que a única verdadeira alternativa que desafia e detém a solução apocalíptica é a fraternidade.

É preciso redescobrir essa poderosa palavra evangélica, retomada no lema da Revolução Francesa, mas que a ordem pós-revolucionária abandonou depois, até o seu apagamento do léxico político-econômico. E nós o substituímos por aquela mais fraca da “solidariedade”, que, na Fratelli tutti, se repete 22 vezes (contra 44 de “fraternidade”).

Francisco escreveu em uma das suas mensagens: “Enquanto a solidariedade é o princípio de planejamento social que permite que os desiguais se tornem iguais, a fraternidade é aquilo que permite que os iguais sejam pessoas diferentes” [4].

O reconhecimento da fraternidade muda a perspectiva, a inverte e se torna uma forte mensagem de valor político: todos somos irmãos e, portanto, todos somos cidadãos com direitos e deveres iguais, sob cuja sombra todos gozam da justiça.

A fraternidade, além disso, é a base sólida para viver a “amizade social”. O Papa Francisco em 2015, falando em Havana, lembrou que uma vez havia visitado uma área muito pobre de Buenos Aires. O pároco do bairro apresentou-o a um grupo de jovens que estavam construindo algumas casas: “Este é o arquiteto, é judeu; este é comunista; este é católico praticante; este é…”. O papa comentou: “Eram todos diferentes, mas todos estavam trabalhando juntos pelo bem comum”. Francisco chama essa atitude de “amizade social”, que sabe conjugar os direitos com a responsabilidade pelo bem comum, as diversidades com o reconhecimento de uma fraternidade radical.

 

Uma fraternidade sem fronteiras

 

A Fratelli tutti se abre com a evocação de uma fraternidade aberta, que permite que cada pessoa seja reconhecida , valorizada e amada para além da proximidade física, para além do lugar do universo onde nasceu ou onde vive. A fidelidade ao Senhor é sempre proporcional ao amor pelos irmãos. E essa proporção é um critério fundamental dessa encíclica: não se pode dizer que se ama a Deus se não se ama o irmão. “De fato, quem não ama o próprio irmão a quem vê, não pode amar a Deus que não vê” (1Jo 4,20) [5].

Desde as primeiras frases, destaca-se como Francisco de Assis estendeu a fraternidade não apenas aos seres humanos – e em particular aos abandonados, aos doentes, aos descartados, aos últimos, indo além das distâncias de origem, nacionalidade, cor ou religião – mas também ao sol, ao mar e ao vento (cf. nn. 1-3). O olhar, portanto, é global, universal. E assim é o fôlego das páginas do Papa Francisco.

Essa encíclica não podia permanecer alheia à pandemia da Covid-19, que eclodiu inesperadamente. Para além das várias respostas dadas pelos diversos países – escreve o papa –, veio à tona a incapacidade de agir em conjunto, embora possamos nos orgulhar de estar hiperconectados. Escreve Francisco: “Oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’” (n. 35).

 

O cisma entre indivíduo e comunidade

 

O primeiro passo que Francisco dá é o de compilar uma fenomenologia das tendências do mundo atual que são desfavoráveis ao desenvolvimento da fraternidade universal. O ponto de partida das análises de Bergoglio é frequentemente – senão sempre – aquele que ele aprendeu com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, que convidava a rezar imaginando como Deus vê o mundo [6].

O pontífice observa o mundo e tem a impressão geral de que está se desenvolvendo um verdadeiro cisma entre o indivíduo e a comunidade humana (cf. n. 30). Um mundo que não aprendeu nada com as tragédias do século XX, sem senso da história (cf. n. 13). Parece haver um retrocesso: os conflitos, os nacionalismos, o senso social perdido (cfr. n. 11), e o bem comum parece ser o menos comum dos bens.

Nesse mundo globalizado, estamos sozinhos, e prevalece o indivíduo sobre a dimensão comunitária da existência (cf. n. 12). As pessoas desempenham o papel de consumidores ou de espectadores, e os mais fortes são favorecidos.

E assim Francisco monta as peças do quebra-cabeça que ilustra os dramas do nosso tempo.

A primeira peça diz respeito à política. Nesse contexto dramático, as grandes palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade perdem a plenitude do seu significado, e se tornam liquefeitas a consciência histórica, o pensamento crítico, a luta pela justiça e os caminhos da integração (cf. n. 14 e 110). E é duríssimo o julgamento sobre a política pelo modo como às vezes ela está reduzida hoje: “A política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efêmeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro” (n. 15).

A segunda peça é a cultura do descarte. A política reduzida a marketing favorece o fosso global e da cultura do qual é fruto (cf. n. 19-20).

O quadro continua com a inserção de uma reflexão sobre os direitos humanos, cujo respeito é um pré-requisito para o desenvolvimento social e econômico de um país (cf. n. 22).

A quarta peça é o importante parágrafo dedicado às migrações. Se deve ser reafirmado o direito a não emigrar, também é verdade que uma mentalidade xenófoba esquece que os migrantes devem ser protagonistas do seu próprio resgate. E com força afirma: “É inaceitável que os cristãos partilhem esta mentalidade e estas atitudes” (n. 39).

Depois, há a quinta peça: os riscos que a própria comunicação hoje levanta. Com a conexão digital, as distâncias se encurtam, mas se desenvolvem atitudes de fechamento e de intolerância, que alimentam o “espetáculo” encenado pelos movimentos de ódio. Em vez disso, precisamos de “gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana” (n. 43).

O pontífice, no entanto, não se limita a fornecer uma descrição asséptica da realidade e do drama do nosso tempo. A sua leitura está imersa em um espírito de participação e de fé. A visão do papa, embora atenta à dimensão sócio-política e cultural, é radicalmente teológica. A redução ao individualismo que aqui emerge é fruto do pecado.

 

Um estranho na rua

 

Apesar das densas sombras descritas nas páginas dessa encíclica, Francisco pretende fazer ecoar muitos percursos de esperança, que nos falam de uma sede de plenitude, de um desejo de tocar aquilo que preenche o coração e eleva o espírito para as grandes coisas (cf. n. 54-55).

Na tentativa de buscar uma luz, e antes de indicar algumas linhas de ação, Francisco propõe dedicar um capítulo à parábola do Bom Samaritano. A escuta da Palavra de Deus é uma passagem fundamental para julgar evangelicamente o drama do nosso tempo e encontrar saídas. Assim, o Bom Samaritano se torna um modelo social e civil (cf. n. 66).

A inclusão ou a exclusão dos feridos à beira da estrada define todos os projetos econômicos, políticos, sociais e religiosos. O Santo Padre, de fato, não se detém no nível das escolhas individuais, mas projeta essas duas opções ao nível das políticas dos Estados. No entanto, volta sempre ao nível pessoal por temor de que nos sintamos desresponsabilizados.

 

Pensar e gerar um mundo hospitaleiro: uma visão inclusiva

 

O terceiro passo do itinerário que Francisco nos faz dar é aquele que poderíamos definir com o pontífice como o “além”, isto é, a necessidade de ir além de si mesmo. Se o drama descrito no primeiro capítulo era o da solidão do homem consumidor encerrado no seu individualismo e na passividade do espectador, é preciso encontrar uma saída.

E o primeiro fato é que ninguém pode experimentar o valor da vida sem rostos concretos para amar. Aqui está um segredo da autêntica existência humana (cf. n. 86). O amor cria laços e expande a existência. Mas essa “saída” de si não se reduz a uma relação com um pequeno grupo, ou a laços familiares: é impossível entender a si mesmo sem um tecido de relações mais amplo com outros que nos enriquecem (cf. n. 88-91).

Esse amor que é abertura ao “além” e “hospitalidade” é o fundamento da ação que permite estabelecer a amizade social e a fraternidade. Amizade social e fraternidade não excluem, mas incluem. Independem dos traços físicos e morais ou, como escreve o papa, das etnias, das sociedades e das culturas (cf. n. 95). A tensão é para uma “comunhão universal” (n. 95), para “uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros” (n. 96). Essa abertura é geográfica, mas mais ainda existencial.

No entanto, o próprio pontífice percebe, nesse ponto, o risco de um mal-entendido, o do falso universalismo de quem não ama o próprio povo. Também é forte o risco de um universalismo autoritário e abstrato, que visa a homogeneizar, uniformizar, dominar. A proteção das diferenças é o critério da verdadeira fraternidade que não homologa, mas acolhe e faz convergir as diversidades, valorizando-as. Somos irmãos porque, ao mesmo tempo, somos iguais e diferentes: “É preciso se libertar da obrigação de ser iguais” [7].

 

A importância do multilateralismo

 

O papa pede uma mudança de perspectiva radical não só em nível interpessoal ou estatal, mas também nas relações internacionais: a da certeza da destinação comum dos bens da terra.

Essa perspectiva muda o panorama, e “podemos dizer que cada país é também do estrangeiro, já que os bens de um território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha de outro lugar” (n. 124).

Além disso – continua o pontífice –, isso pressupõe outro modo de entender as relações internacionais. É claríssimo, portanto, o apelo à importância do multilateralismo, com uma verdadeira condenação de uma abordagem bilateral em que países poderosos e grandes empresas preferem negociar com outros países menores ou pobres: para obter deles maiores lucros (cf. n. 153). A chave é “nos sabermos responsáveis pela fragilidade dos outros na procura de um destino comum” (n. 115). Cuidar da fragilidade é um ponto-chave dessa encíclica.

 

Um coração aberto ao mundo inteiro

 

Francisco também fala dos desafios a serem enfrentados para que a fraternidade não permaneça somente como uma abstração, mas ganhe corpo.

O primeiro é o das migrações, a ser desenvolvido em torno de quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Com efeito, não se trata de “impor do alto programas assistenciais, mas de percorrer unidos um caminho através destas quatro ações” (n. 129).

Francisco oferece indicações muito precisas (cf. n. 130). Mas, em particular, detém-se sobre o tema da cidadania, assim como havia sido abordado no Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e Convivência Comum, assinado em Abu Dhabi. Falar em “cidadania” afasta a ideia de “minoria”, que carrega consigo as sementes do tribalismo e da hostilidade, e que vê no rosto do outro a máscara do inimigo. A abordagem de Francisco é subversiva com respeito às teologias políticas apocalípticas que vão se espalhando.

Por outro lado, o papa evidencia o fato de que a chegada de pessoas que provêm de um contexto vital e cultural diferente se transforma em um dom para quem as acolhe: é um encontro entre pessoas e culturas que constitui uma oportunidade de enriquecimento e de desenvolvimento. E isso pode ocorrer se se permite que o outro seja ele mesmo.

O critério guia do discurso é sempre o mesmo: fazer crescer a consciência de que ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva. Toda atitude de “esterilização” e isolacionismo é um obstáculo ao enriquecimento próprio do encontro.

 

Populismo e liberalismo

 

Francisco continua o seu discurso com um capítulo dedicado à melhor política, aquela posta a serviço do verdadeiro bem comum (cf. n. 154). E aqui aborda de frente a questão do confronto entre populismo e liberalismo, que podem usar os frágeis, o “povo”, de maneira demagógica. Francisco pretende esclarecer imediatamente um mal-entendido, usando uma ampla citação da entrevista que nos concedeu para a publicação dos seus escritos como arcebispo de Buenos Aires. Nós a relatamos na íntegra, porque é central para o discurso.

“Povo não é uma categoria lógica, nem uma categoria mística, no sentido de que tudo o que faz o povo é bom, ou no sentido de que o povo seja uma entidade angelical. É uma categoria mítica. (...) Quando explicas o que é um povo, recorres a categorias lógicas porque precisas de o descrever: é verdade, elas são necessárias. Mas, deste modo, não consegues explicar o sentido de pertença a um povo; a palavra povo tem algo mais que não se pode explicar logicamente. Pertencer a um povo é fazer parte de uma identidade comum, formada por vínculos sociais e culturais. E isto não é algo de automático; muito pelo contrário: é um processo lento e difícil... rumo a um projeto comum” (n. 158) [8].

Consequentemente, essa categoria mítica pode indicar uma liderança capaz de se sintonizar com o povo, com a sua dinâmica cultural e as grandes tendências de uma sociedade a serviço do bem comum; ou pode indicar uma degeneração quando se muda na habilidade de atrair consensos para o sucesso eleitoral e para instrumentalizar ideologicamente a cultura do povo, a serviço do próprio projeto pessoal (cf. n. 159).

Porém, não é preciso sequer enfatizar a categoria mítica de povo como se ela fosse uma expressão romântica e, portanto, como tal, rejeitada em favor de discursos mais concretos, institucionais, ligados à organização social, à ciência e às instituições da sociedade civil.

O que une ambas as dimensões, a mítica e a institucional, é a caridade, que implica um caminho de transformação da história que incorpora tudo: instituições, direito, técnica, experiência, contribuições profissionais, análise científica, procedimentos administrativos. O amor ao próximo, de fato, é realista.

Portanto, é necessário fazer crescer tanto a espiritualidade da fraternidade quanto a organização mais eficiente para resolver os problemas: as duas coisas absolutamente não se opõem. E isso sem imaginar que existe uma receita econômica que possa ser aplicada igualmente a todos: até a ciência mais rigorosa pode propor caminhos e soluções diferentes (cf. n. 164-165).

 

Os movimentos populares e as instituições internacionais

 

Nesse contexto, Francisco fala tanto dos movimentos populares quanto das instituições internacionais. Parecem dois níveis opostos e divergentes de organização, mas, no fim, são convergentes na sua virtuosidade, pois valorizam o local, os primeiros, e global, os segundos, e sempre sob a insígnia do multilateralismo.

Os movimentos populares “reúnem desempregados, trabalhadores precários e informais e tantos outros que não entram facilmente nos canais já estabelecidos” (n. 169). Com esses movimentos, supera-se “a ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres, e muito menos inserida num projeto que reúna os povos” (ibid).

Depois, Francisco se detém sobre as instituições internacionais, hoje enfraquecidas, sobretudo porque a dimensão econômico-financeira, com características transnacionais, tende a predominar sobre a política. Entre elas, a Organização das Nações Unidas, que deve ser reformada para evitar que seja deslegitimada e para que “seja possível uma real concretização do conceito de família de nações” (n. 173). Ela tem como tarefa a promoção da soberania do direito, porque a justiça é “um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal” (ibid.).

 

A melhor política não está submetida à economia

 

Francisco, então, se detém longamente sobre a política. Várias vezes o pontífice lamentou como ela está submetida à economia, e esta, ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pelo contrário, é a política que deve ter uma visão ampla para que a economia seja integrada em um projeto político, social, cultural e popular que tenda ao bem comum (cf. n. 177 e 17).

Fraternidade e amizade social não são utopias abstratas. Exigem decisão e a capacidade de encontrar caminhos que assegurem a sua real possibilidade, envolvendo também as ciências sociais. E esse é um “exercício alto da caridade” (n. 180).

O amor, portanto, se expressa não só em relações face a face, mas também nas relações sociais, econômicas e políticas, buscando construir comunidades nos diversos níveis da vida social. Trata-se daquilo que Francisco chama de amor social (cf. n. 186). Essa caridade política pressupõe o amadurecimento de um senso social em virtude do qual “cada um é plenamente pessoa quando pertence a um povo e, vice-versa, não há um verdadeiro povo sem referência ao rosto de cada pessoa” (n. 182). Em suma: povo e pessoa são termos correlatos.

O amor social e a caridade política expressam-se também na plena abertura ao debate e ao diálogo com todos, até mesmo com os adversários políticos, pelo bem comum, para tornar possível a convergência pelo menos sobre alguns temas. Não é preciso temer o conflito gerado pelas diferenças, até porque “a uniformidade gera asfixia e neutraliza-nos culturalmente” (n. 191).

E é possível viver isso se o político não deixar de se considerar um ser humano, chamado a viver o amor nas suas relações interpessoais cotidianas (cf. n. 193) e se souber viver, sim, a ternura. Esse vínculo entre política e ternura parece inédito, mas é realmente eficaz, porque a ternura é “o amor que se torna próximo e concreto” (n. 194). Em meio à atividade política, os mais frágeis devem provocar ternura e têm o “‘direito’ de arrebatar a nossa alma, o nosso coração” (ibid.).

 

Diálogo e cultura do encontro

 

Francisco resume alguns verbos usados nessa encíclica em uma única palavra: diálogo. “Em uma sociedade pluralista”, escreve o pontífice, “o diálogo é o caminho mais adequado para se chegar a reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o consenso ocasional” (n. 211).

Mais uma vez, expressa-se uma visão peculiar da amizade social, feita a partir do constante encontro das diferenças. O papa observa que este é o tempo do diálogo. Todos trocam mensagens nas mídias sociais, por exemplo, graças à rede. No entanto, muitas vezes o diálogo se confunde com uma febril troca de opiniões, que, na realidade, é um monólogo no qual predomina a agressividade. Ele também observa com precisão que esse é o estilo que parece prevalecer no contexto político, que, por sua vez, tem um reflexo direto na vida cotidiana das pessoas (cf. 200-202).

“O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos” (n. 203) [9]. Essa é a dinâmica da fraternidade, afinal, o seu caráter existencial, que “ajuda a relativizar as ideias, pelo menos no sentido de não se resignar ao fato de que um conflito decorrente de uma disparidade de pontos de vista e de opiniões prevaleça definitivamente sobre a fraternidade” [10].

Diálogo absolutamente não significa relativismo, que fique claro. Como já havia escrito na encíclica Laudato si’, Francisco afirma que, se o que importa não são as verdades objetivas nem os princípios estabelecidos, mas sim a satisfação das próprias aspirações e das necessidades imediatas, então as leis serão entendidas apenas como imposições arbitrárias e obstáculos a serem evitados. A busca dos valores mais altos sempre se impõe (cf. nn. 206-210).

O encontro e o diálogo tornam-se assim uma “cultura do encontro”, que significa a paixão de um povo em querer projetar algo que envolva a todos; e que não é um bem em si, mas é um modo de fazer o bem comum (cf. nn. 216-221).

 

Percursos de um novo encontro: conflito e reconciliação

 

Francisco, então, dirige um apelo a lançar sólidas bases para o encontro e para iniciar processos de cura. O encontro não pode se fundamentar em diplomacias vazias, discursos duplos, dissimulações, formalismo... É somente a partir da verdade dos fatos que pode nascer o esforço de se compreender reciprocamente e de encontrar uma síntese para o bem de todos (cf. nn. 225-226).

O papa considera que a verdadeira reconciliação não foge do conflito, mas é obtida no conflito, superando-o através do diálogo e da negociação transparente, sincera e paciente (cf. n. 244). Por outro lado, o perdão não tem nada a ver com renunciar aos próprios direitos diante de um poderoso corrupto, de um criminoso ou de alguém que degrada a nossa dignidade. É preciso defender fortemente os próprios direitos e proteger a própria dignidade (cf. n. 241).

Acima de tudo, não se deve perder a memória dos grandes crimes da história: “Hoje é fácil cair na tentação de virar a página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para a frente. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança” (n. 249).

 

Guerra e pena de morte

 

Nesse quadro, Francisco examina duas situações extremas que podem se apresentar como soluções em circunstâncias dramáticas: a guerra e a pena de morte. O pontífice é claríssimo ao tratar os dois casos.

Em relação à guerra, ele afirma que infelizmente não é um fantasma do passado, mas uma ameaça constante. Portanto, deve ficar claro que “a guerra é a negação de todos os direitos e uma agressão dramática ao meio ambiente” (n. 257).

Ele também aborda a posição do Catecismo da Igreja Católica, onde se contempla a possibilidade de uma legítima defesa por meio da força militar, com o pressuposto de demonstrar que existem algumas rigorosas condições de legitimidade moral. No entanto – escreve Francisco – facilmente caímos em uma interpretação ampla demais desse direito.

Hoje, de fato, com o desenvolvimento das armas nucleares, químicas e biológicas, “conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes”. Portanto – e eis a conclusão do papa – “já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra” (n. 258).

A resposta à ameaça das armas nucleares e a todas as formas de destruição em massa deve ser coletiva e concertada, com base na confiança recíproca. E – propõe o pontífice – “com o dinheiro usado em armas e em outras despesas militares, constituamos um Fundo mundial, para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres, a fim de que os seus habitantes não recorram a soluções violentas ou enganadoras, nem precisem de abandonar os seus países à procura de uma vida mais digna” (n. 262).

A respeito da pena de morte, Francisco retoma o pensamento de João Paulo II, que afirmou de maneira clara na encíclica Evangelium vitae (n. 56) que ela é inadequada no plano moral e não é mais necessária no plano penal. Francisco também se refere a autores como Lactâncio, Papa Nicolau I ou Santo Agostinho, que, desde os primeiros séculos da Igreja, se mostravam contrários a essa pena. E afirma com clareza que “a pena de morte é inadmissível” (n. 263), e que a Igreja se compromete com determinação a propor que ela seja abolida em todo o mundo. E o julgamento também se estende à prisão perpétua, que “é uma pena de morte escondida” (n. 268).

 

As religiões a serviço da fraternidade no mundo

 

A última parte dessa encíclica é dedicada às religiões e ao seu papel ao serviço da fraternidade. As religiões acumulam séculos de experiência e de sabedoria, e, portanto, devem participar do debate público, assim como da política ou da ciência (cf. n. 275).

Por isso, a Igreja não relega sua missão à esfera privada. “É verdade”, especifica, “que os ministros da religião não devem fazer política partidária, própria dos leigos, mas mesmo eles não podem renunciar à dimensão política da existência” (n. 276). A Igreja, portanto, tem um papel público que também contribui para a fraternidade universal (cf. ibid.).

A fonte da dignidade humana e da fraternidade para os cristãos, em particular, está no Evangelho de Jesus Cristo, do qual brota, tanto para o pensamento quanto para a ação pastoral, a importância fundamental da relação, do encontro, da comunhão universal com a humanidade inteira (cf. n. 277). A Igreja, “com o poder do Ressuscitado, quer dar à luz um mundo novo, onde todos sejamos irmãos, onde haja lugar para cada descartado das nossas sociedades, onde resplandeçam a justiça e a paz” (n. 278).

 

Um apelo à paz e à fraternidade

 

A Fratelli tutti se conclui com um apelo e duas orações que explicitam o seu sentido e os seus destinatários.

Na realidade, o apelo é uma ampla citação do já citado documento assinado pelo papa e pelo Grão-Imã Aḥmad al-Tayyeb em Abu Dhabi, e diz respeito precisamente à convicção de que “as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião” (n. 285).

Entre as outras referências oferecidas no texto, notamos que o papa quis recordar em particular o Bem-aventurado Charles de Foucauld, que “queria ser ‘o irmão universal’. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos” (n. 287). Para Francisco, a fraternidade é o espaço próprio do Reino de Deus, no qual o Espírito Santo pode vir, habitar e agir [11].

 

“Assim reinará Filadélfia, cidade dos irmãos”

 

Depois de ter percorrido a Fratelli tutti, tentando enfatizar os seus temas fundamentais, gostaria de concluir citando um escritor argentino, Leopoldo Marechal, muito apreciado pelo Papa Francisco, de quem ele me havia falado quando o entrevistei em 2013.

Marechal descreveu a “cidade dos irmãos, Filadélfia” na sua obra-prima “Adán Buenosayres”, obra que narra um périplo simbólico de três dias do poeta Adán dentro da geografia de uma Buenos Aires metafísica. Reconhece-se em particular a influência de Dante no sétimo livro do romance, intitulado “Viaje a la Oscura Ciudad de Cacodelphia”, evidente paródia do Inferno.

Mas passemos para Filadélfia, que – escreve Marechal – “levantará suas cúpulas e torres sob um céu tão resplandecente quanto a cara de uma criança. Como a rosa entre as flores, como o pintassilgo entre os pássaros, como o ouro entre os metais, assim reinará Filadélfia, a cidade dos irmãos, entre as urbes deste mundo. Uma multidão pacífica e regozijada frequentará as suas ruas: o cego abrirá seus olhos à luz, o que negou afirmará o que negava, o desterrado pisará a terra do seu nascimento e o maldito se verá livre no fim...” [12].

Como a rosa entre as flores, assim reinará a “cidade dos irmãos” entre as metrópoles do mundo, escreve Marechal. E Francisco, com essa encíclica, aponta diretamente para a vinda do “Reino de Deus”, como rezamos no Pai-Nosso, oração que nos vê a todos irmãos, por sermos filhos de um único Pai.

O sentido do Reino de Deus é a capacidade dos cristãos de colocar a boa notícia do Evangelho à disposição de toda a humanidade, de todos os homens e mulheres, sem distinção alguma, como recurso de salvação e plenitude. Nesse caso, o evangelho da fraternidade.

 

Notas:

[1] Daqui em diante, quando houver referência à encíclica, entre parênteses, será omitido o título e usado apenas o número do parágrafo. Cf. também o volume “Fratellanza”, Roma, La Civiltà Cattolica, 2020. Acesse aqui.  

[2] Francisco, Primeira saudação do Santo Padre, 13 de março de 2013.

[3] Surgiram algumas polêmicas sobre o uso da palavra “irmãos” no masculino, como se o papa quisesse excluir a referência ao feminino. Claramente, o título da encíclica é uma citação franciscana e, portanto, é e deve permanecer como tal. Mas isso não tem nenhum caráter exclusivo. Certamente, deve-se notar que, recentemente, na França, o Alto Conselho para a Igualdade entre as Mulheres e os Homens (HCE), em vista da anunciada revisão da Constituição, propôs substituir, no lema nacional da República, a palavra fraternité por adelphité, palavra que deriva do grego e significa “fraternidade”, mas desprovida da conotação masculina, própria do termo anterior. Outros, para evitar o neologismo, propõem simplesmente solidarité . Mas veremos mais adiante a fraqueza dessa escolha, especialmente à luz do pensamento de Francisco. Cf. J. L. Narvaja, “Libertà, uguaglianza, fraternità”, in Civ. Catt., 2018, II, 394-399.

[4] Francisco, Mensagem à Prof.ª Margaret Archer, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, 24 de abril de 2017.

[5] O tema atravessa o pontificado de Francisco e, portanto, também o seu magistério. Bastaria lembrar aqui algumas breves passagens de maneira exemplar. Francisco escreveu na sua exortação Amoris Laetitia: “Deus confiou à família o projeto de tornar ‘doméstico’ o mundo, de modo que todos cheguem a sentir cada ser humano como um irmão” (n. 183). E na Gaudete et exultate: “No meio da densa selva de preceitos e prescrições, Jesus abre uma brecha que permite vislumbrar dois rostos: o do Pai e o do irmão. Não nos dá mais duas fórmulas ou dois preceitos; entrega-nos dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflete em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus” (n. 61). Na Christus vivit: “Correi ‘atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre’” (n. 299). Na encíclica Laudato si’, o tema volta com frequência. Por exemplo: “São Boaventura, seu discípulo, contava que ele [Francisco], ‘enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs’” (n. 11).

[6] Cf. Inácio de Loyola s., Exercícios espirituais, nn. 103-106.

[7] Francisco, exortação apostólica Amoris laetitia, n. 139

[8] A. Spadaro, “Le orme di un pastore. Una conversazione con Papa Francesco”, in J. M. Bergoglio/Papa Francesco, Nei tuoi occhi è la mia parola. Omelie e discorsi di Buenos Aires 1999-2013, Milão: Rizzoli, 2016, XVI.

[9] Cf. Inácio de Loyola s., Exercícios espirituais, n. 22

[10] D. Fares, “La fratellanza umana. Il suo valore trascendentale e programmatico nell’itinerario di papa francesco”, in Civ. Catt., 2019, III, 119.

[11] Cf. D. Fares, “La fratellanza umana”, cit., 122.

[12] L. Marechal, Adàn Buenosayres, Florença: Vallecchi, 2010, 342 s.

 

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