Fratelli tutti: na primeira pessoa do plural. Artigo de Marcello Neri

Foto: Vatican Media

05 Outubro 2020

"Torna-se clara não só a coerência geral do papado de Francisco, que não pode ser reduzida a episódios esporádicos sem conexão entre si, mas também sua metodologia: não há grande projeto ideológico a ser realizado a qualquer custo, mas uma narrativa aberta tecida no enredo da realidade do viver do mundo e da Igreja nele", escreve o teólogo e padre italiano Marcello Neri, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, em artigo publicado em Settimana News, 04-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Oito capítulos densos, articulados em torno da imagem evangélica do Bom Samaritano, que recolhem e sistematizam os temas centrais que Francisco disseminou ao longo de seus oito anos de Ministério petrino – relançando-os com decisão e urgência na perspectiva do sonho de uma humanidade que se declina na primeira pessoa do plural, sem qualquer exclusão. Essa poderia ser, em extrema síntese, a explicação imediata da nova encíclica social que o Papa Francisco assinou ontem em Assis.

Inserida na esteira da história mais do que centenária do cuidado eclesial pela dimensão social da existência humana e pela presença nela do germe fecundo da fé católica, Fratelli tutti introduz essa tradição nos territórios ainda incertos e conflitantes de um fim da modernidade agora realizado em todos os seus aspectos.

Confirmando a toda a humanidade que a Igreja não desiste de navegar com ela em mares abertos e ainda inexplorados. Mesmo quando isso requer a mudança de um léxico que já se tornou familiar, sobre o qual foi possível contar por mais de um século.

 

Após a modernidade

O desaparecimento da clássica racionalidade política moderna, aliada à imperiosa hegemonia das potencias tecno-financeiras, com a consequente extinção do chamado "estado de bem-estar social" e a produção sistêmica de desigualdades e injustiças em nível global e local, objetivamente solicitava à Igreja Católica o esforço de uma reconfiguração do que até antes desta encíclica se chamava de doutrina social da Igreja.

Um termo que, de fato, não aparece no texto Fratelli tutti de Francisco – e isso não por alergia pessoal do atual pontífice a tudo o que cheira a doutrinário. Não aparece porque o sistema de referência que permitia sua articulação implodiu, desintegrando-se em uma torrente de fragmentos disjuntos que parecem impossíveis de governar.

A encíclica assume, cordialmente e com coragem, o desafio de propor uma nova arquitetura do mundo e das relações humanas, superando a inércia cínica que afirma a impossibilidade de qualquer ordenamento alternativo ao que hoje prevalece: “Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade (...) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos!” (§ 8).

O paradigma moderno parece ter se resolvido em um individualismo consumista que mede tudo e toda relação a partir das vantagens que pode obter exclusivamente para si, pondo em risco os laços fundamentais que unem a sociedade humana e gerando conflitos direcionados que são instrumentalizados “pela economia global para impor um modelo cultural único. (…) Estamos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou espectadores” (§ 12).

Mas essa condição não é inelutável, pode-se sonhar com alternativas concretas – feitas de gestos e práticas, mais que de teorias: “existe a gratuidade. É a capacidade de fazer algumas coisas, pelo simples fato de serem são boas, sem olhar a êxitos nem esperar receber imediatamente algo em troca” (§ 139).

 

Práticas de justiça e amabilidade

O ordenamento ordem global em que vivemos atualmente se subverte e transforma justamente por meio de práticas de viver, articuladas em torno do comum que todos compartilhamos: “A verdadeira qualidade dos diferentes países do mundo mede-se por esta capacidade de pensar não só como país, mas também como família humana; e isto comprova-se sobretudo nos períodos críticos. Os nacionalismos fechados manifestam, em última análise, esta incapacidade de gratuidade, a errada persuasão de que podem desenvolver-se à margem da ruína dos outros e que, fechando-se aos demais, estarão mais protegidos” (§ 141).

Do tesouro da sabedoria cristã podem-se tirar as disposições fundamentais capazes de construir uma convivência humana verdadeiramente fraterna entre os muitos: “São Paulo designa um fruto do Espírito Santo com a palavra grega chrestotes (Gal 5, 22), que expressa um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta. (...) amabilidade no trato, cuidado para não magoar com as palavras ou os gestos, tentativa de aliviar o peso dos outros. (...) A amabilidade é uma libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída que ignora que os outros também têm direito de ser felizes.”(§ 223-224)

O deslocamento da sensibilidade social da Igreja da doutrina para as práticas/estilos de vida leva a uma correspondente centralização da ética na dimensão plural e coletiva.

 

Ethos e instituições comuns

A arquitetura do mundo é redesenhada fazendo convergir as disposições de ação em sujeitos plurais que as reúnem tornando-as coesas em um esforço unitário: é o plano das instituições e da política. Trata-se de “pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destrutivos do império do dinheiro (...). A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem”(§ 116).

Nesses movimentos, o Papa Francisco vê aquelas organizações políticas e civis capazes de assumir a dimensão poliédrica da sociedade, que é aquela que consegue dar conta ao mesmo tempo das diferenças não homologadas e achatadas sobre um único indistinto, por um lado, e de um comum senso de pertença sempre aberto à dinâmica de novas sínteses possibilitadas pela multiplicidade que a atravessa, pelo outro.

E é nesse plano que relança, mais uma vez, sua concepção de “povo” – fazendo-a entrar em uma dialética crítica tanto com os populismos contemporâneos quanto com a pretensão oligárquica de grupos elitários restritos: “a pretensão de introduzir o populismo como chave de leitura da realidade social contém outro ponto fraco: ignora a legitimidade da noção de povo. (...) Para afirmar que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos, necessita-se do termo ‘povo’. (…) Os grupos populistas fechados deformam a palavra ‘povo’, porque aquilo de que falam não é um verdadeiro povo. De fato, a categoria ‘povo’ é aberta. Um povo vivo, dinâmico e com futuro é aquele que permanece constantemente aberto a novas sínteses assumindo em si o que é diverso.”(§ 157-160).

A prioridade da realidade sobre a ideia, sobre a noção abstrata, deve, portanto, ser reconhecida também no plano das instituições internacionais, que só poderão ser eficazes em nível global se efetivamente arraigadas na consciência de "povos" abertos, capazes de se enriquecer e se desenvolver através da síntese que assumem a variegada pluralidade do nosso mundo e das nossas sociedades contemporâneas: "Precisamos que um ordenamento jurídico, político e econômico mundial ‘incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos’" (§ 138).

 

O que resta da modernidade

Esta encíclica, que traz o cuidado da fé pela dimensão social da existência humana, é também aquela que recolhe com maior persuasão os melhores resultados da modernidade ocidental.

A começar pela inspiração inter-religiosa inédita do próprio texto: “se na redação da Laudato si’ tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus ‘criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos’. Não se tratou de mero ato diplomático, mas duma reflexão feita em diálogo e dum compromisso conjunto. Esta encíclica reúne e desenvolve grandes temas expostos naquele documento que assinamos juntos. E aqui, na minha linguagem própria, acolhi também numerosas cartas e documentos com reflexões que recebi de tantas pessoas e grupos de todo o mundo.”(§ 5).

Nessa perspectiva, torna-se clara não só a coerência geral do papado de Francisco, que não pode ser reduzida a episódios esporádicos sem conexão entre si, mas também sua metodologia: não há grande projeto ideológico a ser realizado a qualquer custo, mas uma narrativa aberta tecida no enredo da realidade do viver do mundo e da Igreja nele.

As rejeições, as interrupções, as retomadas são o bom preço a pagar por essa aderência à realidade das coisas e das pessoas que distingue o ministério de Francisco. E é nessa perspectiva que se insere o empenho decisivo que Francisco assume em nome das religiões para contribuir para a realização de um dos pontos principais do sonho da modernidade, aquele da fraternidade.

“As várias religiões, ao partir do reconhecimento do valor de cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus, oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade. (...) Com efeito, a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade. Nesta linha, quero lembrar um texto memorável (de Bento XVI, ndr): Se não existe uma verdade transcendente, na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade, então não há qualquer princípio seguro que garanta relações justas entre os homens.” (§ 271-273).

A inversão religiosa do cânone moderno de liberdade, igualdade e fraternidade, não tem nenhum sabor de hostilidade e distanciamento, mas aspira a sua efetiva realização nos dias atuais de nosso mundo: “A fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática duma certa equidade. Embora sejam condições que a tornam possível, não bastam para que surja como resultado necessário a fraternidade. Esta tem algo de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade. Que sucede quando não há a fraternidade conscientemente cultivada, quando não há uma vontade política de fraternidade, traduzida numa educação para a fraternidade, o diálogo, a descoberta da reciprocidade e enriquecimento mútuo como valores? Sucede que a liberdade se atenua, predominando assim uma condição de solidão, de pura autonomia para pertencer a alguém ou a alguma coisa, ou apenas para possuir e desfrutar. (...) Tampouco se alcança a igualdade definindo, abstratamente, que ‘todos os seres humanos são iguais’, mas resulta do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade.” (§ 103-104).

Da herança moderna a encíclica recolhe também um relançamento apaixonado da consciência histórica, base imprescindível para uma busca partilhada e reconciliada da verdade: “Os que se defrontaram duramente falam a partir da verdade, nua e crua. Precisam de aprender a cultivar uma memória penitencial, capaz de assumir o passado para libertar o futuro das próprias insatisfações, confusões ou projeções. Só da verdade histórica dos fatos poderá nascer o esforço perseverante e duradouro para se compreenderem mutuamente e tentar uma nova síntese para o bem de todos.”(§ 226).

A partir disso, torna-se possível uma configuração não meramente procedural da coexistência humana com vistas à construção de uma fraternidade efetiva em nível global, para ir além daquelas simples "conversas" que se reduzem a "meras negociações para que cada um possa agarrar todo o poder e as maiores vantagens possíveis”: “Os heróis do futuro serão aqueles que souberem quebrar esta lógica morbosa e, ultrapassando as conveniências pessoais, decidam sustentar respeitosamente uma palavra densa de verdade. Queira Deus que estes heróis se estejam gerando silenciosamente no coração da nossa sociedade” (§ 202).

Se forem lidas com atenção as passagens sobre o multilateralismo, direito internacional, papel da Organização das Nações Unidas, dignidade humana como originária e inalienável para cada pessoa, independentemente de qualquer determinação geográfica, étnica, linguística e cultural, poderá se encontrar mais uma confirmação de uma encíclica que se encarrega de transportar os melhores frutos da modernidade ocidental para a "nova época" que estamos vivendo – em um diálogo aberto com outras culturas, com uma disposição de aprender que se torna garantia de renúncia a qualquer monopólio global da verdade "uma vez que os princípios morais fundamentais e universalmente válidos podem dar lugar a várias normativas práticas" (§ 214).

Nessa mesma direção se move também o universalismo concreto (da destinação dos bens às práticas do amor) que permeia todo o texto da encíclica: “há um aspecto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial: a capacidade diária de alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim. (…) O amor que se estende para além das fronteiras está na base daquilo que chamamos de ‘amizade social’ em cada cidade e em cada país” (§ 97,99).

 

Pandora

A encíclica, Francisco observa, teria sido escrita da mesma maneira, mas a pandemia de Covid-19 certamente acelerou sua redação como uma correspondência urgente à realidade e tornou-a dramaticamente plausível em sua proposta – sonho e realidade se abraçaram entre si por um momento, cabe a nós decidir se devemos viver de ilusões ou escrever juntos uma nova página da história.

“O mundo avançava implacavelmente para uma economia que, utilizando os progressos tecnológicos, procurava reduzir os ‘custos humanos’; e alguns pretendiam fazer-nos crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo. Mas, o golpe duro e inesperado desta pandemia fora de controle obrigou, por força, a pensar nos seres humanos, em todos, mais do que nos benefícios de alguns. Hoje podemos reconhecer que alimentamo-nos com sonhos de esplendor e grandeza, e acabamos por comer distração, fechamento e solidão; empanturramo-nos de conexões, e perdemos o gosto da fraternidade. (...) A tribulação, a incerteza, o medo e a consciência dos próprios limites, que a pandemia despertou, fazem ressoar o apelo a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e sobretudo o sentido da nossa existência” (§ 33).

Ressoa como algo do mito da Caixa de Pandora no corpo dessa encíclica: uma curiosidade não temperada pode desencadear a força do mal no mundo, tornando a terra inabitável e desumana. Pela narrativa, sabemos que a "esperança" não teve tempo de sair da caixa antes de Pandora a fechasse, e assim as trevas se espalharam sobre as obras do ser humano e a terra tornou-se um deserto inóspito. Mas então Pandora reabriu a caixa, e a "esperança" também se espalhou sobre a terra e começou a circular entre os homens e as mulheres.

Fratelli tutti, é como essa segunda abertura do vaso, a esperança como sonho realista de um mundo diferente: “apesar destas sombras densas que não se devem ignorar, nas próximas páginas desejo dar voz a tantos percursos de esperança. Com efeito, Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade. A recente pandemia permitiu-nos recuperar e valorizar tantos companheiros e companheiras de viagem que, no medo, reagiram dando a própria vida. Fomos capazes de reconhecer como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns que, sem dúvida, escreveram os acontecimentos decisivos da nossa história compartilhada: (...), que compreenderam que ninguém se salva sozinho. (...) A esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!”(§ 54-55).

 

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