Papa Francisco faz crítica suave à revolução socialista de Cuba

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22 Setembro 2015

Os pontífices normalmente não transitam pela ironia, mas o Papa Francisco disponibilizou uma grande dose no domingo, ao celebrar uma missa católica na Praça da Revolução de Havana, um espaço sinônimo de um Partido Comunista que, até recentemente, proibia os crentes religiosos e que continua sendo dominado por imagens de heróis revolucionários como Che Guevara.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 20-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nesse dia, no entanto, um enorme banner de Jesus Cristo também pairava sobre a praça com o lema: "Vinde a mim".

O pontífice foi recebido por milhares de cubanos entusiastas, alguns católicos praticantes, mas muitos simplesmente ansiosos para saudar o homem que desempenhou um papel fundamental em dezembro de 2014 para normalizar as relações com os Estados Unidos.

Francisco está visitando Cuba antes de uma viagem entre os dias 22 e 27 de setembro aos Estados Unidos, que irá levá-lo a Washington, Nova York, e Filadélfia.

Ele abriu a sua parada em Cuba no sábado prometendo promover a "cooperação e a amizade" e, no domingo, ele fugiu do protocolo ao abraçar a nação-ilha chamando-a de "nossa ilha" e elogiando o seu famoso "gosto pela festa" e pelas "coisas bonitas".

Depois da missa de domingo, Francisco teve um encontro privado com o ex-líder cubano Fidel Castro, 89 anos, que o Vaticano descreveu como "íntimo e familiar", e no fim do dia se encontrou com o seu irmão, o presidente cubano Raúl Castro, no palácio presidencial.

No entanto, para aqueles com ouvidos para ouvir, no entanto, houve algumas farpas naquilo que Francisco tinha a dizer.

De forma gentil, mas inequivocamente, Francisco lançou uma crítica à Revolução Cubana no domingo – incluindo a sua propensão ao excesso ideológico e o sofrimento que ela impôs ao longo das décadas contra dissidentes e crentes religiosos.

Na sua homilia, Francisco chamou os crentes em Cuba a desempenharem o seu papel nas transformações que o país está vivendo, dizendo que ser cristão implica "servir a dignidade de seus irmãos, lutar pela dignidade de seus irmãos e viver para a dignidade de seus irmãos".

Lutar pela justiça, é claro, era o argumento central dos revolucionários de Cuba. Francisco, no entanto, fez uma clara distinção entre um modelo cristão de serviço e o que ele descreveu como "serviço que se serve".

"Há uma forma de exercer o serviço que tem como interesse beneficiar os 'meus', em nome do 'nosso'", disse o papa. Os cubanos, criados em décadas de retórica sobre a luta revolucionária em nome do "povo", certamente ouviram ecos dessa linguagem nos comentário do papa.

"Esse serviço sempre deixa de fora os 'teus', gerando uma dinâmica de exclusão", advertiu o papa.

Francisco também repreendeu uma tendência de vigiar outros, que muitos cubanos puderam ouvir como uma referência indireta aos longos anos de estreita vigilância de potenciais dissidentes e contrarrevolucionários.

Deve-se cuidar dos outros por amor, disse o papa, "sem olhar de lado para ver o que o vizinho faz ou deixar de fazer", disse, e também sem um "olhar julgador".

De forma mais crítica, Francisco insistiu que o serviço genuíno nunca se enraíza na ideologia partidária.

"O serviço nunca é ideológico, já que não se serve a ideias, mas se serve a pessoas", afirmou.

Embora a liberdade religiosa não tenha sido até agora um grande tema da viagem do papa a Cuba, ele usou o seu discurso no aeroporto de Havana no sábado para pedir que a Igreja tenha "a liberdade, os meios e o espaço necessário para levar o anúncio do Reino até as periferias existenciais da sociedade".

A palavra "meios" provavelmente era, em parte, uma referência às tensões sobre o retorno das propriedades da Igreja expropriadas depois da Revolução Cubana.

Em uma conversa extemporânea com padres, religiosos e religiosas, e seminaristas no domingo à noite, dentre outras coisas, Francisco criticou o aborto de crianças que os testes de pré-natal indicam como portadoras de doenças degenerativas. Esse também era um distanciamento da ortodoxia política em Cuba, um dos poucos países latino-americanos onde o aborto é legal e está disponível mediante solicitação.

Na verdade, Francisco evitou o confronto direto com os governantes de Cuba, expressando respeito a ambos os Castro.

No entanto, um dissidente anti-Castro também relatou que ela tinha sido convidada para saudar Francisco no sábado à noite, mas foi detida antes que pudesse chegar à residência onde o pontífice está hospedado.

Um porta-voz do Vaticano não negou o fato, apenas insistindo que nenhum "encontro" formal estava agendado.

Durante a missa do domingo de manhã, outro dissidente se aproximou de Francisco no papamóvel e pediu uma bênção, que o pontífice parecia estar em processo de conceder, quando o jovem foi afastado pelos agentes de segurança, enquanto gritava "Abaixo Fidel!".

Em antecipação dos acontecimentos de domingo, ao menos uma "socialista de carteirinha" pode ter percebido o que estava por vir.

Aleida Guevara, filha de Che, recusou um convite do Partido Comunista para participar da missa papal, dizendo que fazer isso seria "hipócrita".

No fim, talvez o que Francisco esteja tentando realizar no país é investir algum capital político que ele acumulou para ajudar a fiar as negociações de Cuba com os Estados Unidos.

Se assim for, a sua mensagem se resume a isto: "Sim, vocês têm um amigo em Roma, mas esse amigo também pode ser crítico".

Daqui para frente, a questão é quão estreitamente as autoridades cubanas podem estar inclinadas a ouvir essa crítica.

Por enquanto, Francisco pode contar com ao menos uma pequena vitória: Em resposta a um pedido vaticano, as autoridades cubanas concordaram em fornecer acesso Wi-Fi ilimitado, uma raridade nessa nação insular, durante um encontro papal com os jovens cubanos no domingo à noite, de modo que eles pudessem postar pensamentos e reações instantâneos nas mídias sociais.

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