“A pandemia acabou com 25 anos de progresso em 25 semanas”, constata Bill Gates

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16 Setembro 2020

Na segunda-feira, 14 de setembro, a Fundação Gates publicou o relatório anual “Goalkeepers”, pensado para medir o progresso global dos objetivos de desenvolvimento, incluindo a redução da pobreza, o aumento do acesso à água potável, à saúde e às vacinas, assim como mais de uma dezena de outras medidas. Mas, neste ano, praticamente não houve progressos a relatar. Exceto pela diminuição no número de fumantes, durante a pandemia o mundo “regrediu” em cada medida do seu próprio bem-estar.

A reportagem é de Hilary Brueck, publicada por Business Insider, 15-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Durante décadas, as pessoas de todo o mundo se tornaram mais ricas e mais saudáveis. A quantidade de pessoas que vivem com menos de 1,90 dólares por dia tem diminuído lenta mas constantemente, ano após ano. Até agora.

O ano de 2020 e a eclosão da doença infecciosa global que veio com ele foram um duro golpe nas pessoas de todo o mundo – tanto nas suas carteiras, quanto na saúde coletiva. A pandemia está aprofundando o fosso entre ricos e pobres em praticamente todas as nações, como não se observava há décadas.

“Este ano é diferente, é único”, disse Bill Gates durante uma videoconferência com jornalistas, que antecipava a publicação do relatório “Goalkeepers 2020”, da Fundação Bill e Melinda Gates. “A pandemia da Covid-19 não apenas parou o progresso, mas também o puxou para trás.”

Essa é uma mudança sem precedentes na história de mais de 20 anos da fundação de mais de 50 bilhões de dólares. O seu relatório “Goalkeepers”, instituído em 2017, visa a fornecer um olhar anual sobre os progressos em todo o mundo nos indicadores de pobreza, saúde e bem-estar, higiene, educação e outros objetivos de desenvolvimento sustentável.

“Cada um dos objetivos estava indo na direção certa”, disse Gates na videoconferência, que substituiu aquele que era um evento presencial normalmente repleto de estrelas. “A pandemia piorou a desigualdade em quase todos os aspectos.”

Neste ano, não há praticamente nenhum progresso a ser compartilhado (exceto alguma melhoria nas taxas de diminuição do número de fumantes em todo o mundo).

“Temos que enfrentar a realidade atual com franqueza”, diz o relatório. “Nós regressamos.”

Eis algumas das principais reações adversas relatadas:

A última vez que tantos países se encontraram ao mesmo tempo em recessão foi em 1870

O Banco Mundial estimou que, pela primeira vez desde 1998, as taxas de pobreza devem aumentar dramaticamente em todo o mundo, “enquanto a economia global entra em recessão”.

Assim será o declínio do PIB de acordo com uma projeção do Fundo Monetário Internacional em comparação com a recessão de 2008:

(Foto: Business Insider)

Em termos de perda do PIB, “esta é a pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, observa o relatório, indicando que a queda do PIB é o dobro em comparação com a recessão de 2008.

“A última vez que tantos países estiveram em recessão ao mesmo tempo foi em 1870, literalmente duas vidas atrás”, acrescenta o relatório.

A quantidade de pessoas que vivem com menos de 1,90 dólares por dia, o indicador internacional da extrema pobreza, está aumentando com a propagação do vírus.

A pobreza global está crescendo pela primeira vez em 20 anos

“Temos 37 milhões de pessoas a mais na extrema pobreza”, disse Gates. “E isso depois de 20 anos em que esse número foi diminuindo.”

(Foto: Business Insider)

A recessão não se limita às nações pobres. Nos países ricos, como os EUA, os aumentos de renda já eram irregulares nos últimos anos, com os ricos enriquecendo muito mais rápido do que qualquer outra pessoa.

Agora, essa lacuna piorou gravemente.

De acordo com o US Census Bureau, em agosto, quase um em cada três estadunidenses teve problemas para pagar seus boletos por causa da pandemia, um problema que afeta desproporcionalmente negros e latinos.

25 anos de progressos nas vacinas foram varridos em 25 semanas

A pandemia também fez com que muito mais crianças não recebessem doses de vacinas que salvam vidas.

De acordo com o Institute for Health Metrics and Evaluation (o parceiro de dados da Fundação Gates), 25 anos de progressos para conseguir vacinar o mundo contra as doenças mortais foram simplesmente varridos em 25 semanas durante a pandemia.

Eis um exemplo de como a cobertura de vacinação caiu para níveis não observados desde os anos 1990, que mostra a cobertura mundial da vacina contra difteria, tétano, pertussis (DTP):

(Foto: Business Insider)

O tétano, que às vezes se pega pisando em pregos, é uma das infecções que a imunidade de rebanho não consegue impedir, já que se pode contrair a doença facilmente entrando em contato com solo, poeira e esterco infectados.

Essa é uma das razões pelas quais é fundamental que todos tenham acesso a vacinas preventivas essenciais como a DTP, que evita milhões de mortes todos os anos.

Meninas que abandonaram a escola durante a pandemia podem nunca mais voltar

Sem dúvida, não deixar as crianças irem à escola durante a pandemia salvou algumas vidas, mas também deixou muitos alunos para trás, e o relatório “Goalkeepers prevê que alguns alunos nunca vão recuperar o que perderam.

Prevê-se que a porcentagem de estudantes que aprenderão a ler, por exemplo, deverá despencar:

(Foto: Business Insider)

Ficar em casa sem ir à escola também pode ser arriscado, pondo principalmente as meninas em sério risco de abusos físicos e sexuais (como documentado durante a epidemia de Ebola na África ocidental). Muitas poderão nunca mais voltar para as aulas após a pandemia por vários motivos, incluindo gravidez e falta de tempo para as tarefas enquanto estavam de quarentena em casa.

Para melhorar todas essas e outras questões, “a primeira coisa a fazer é parar a pandemia”, disse Gates.

Uma das melhores maneiras de melhorar rapidamente a situação é criar uma vacina segura, eficaz e acessível a todos.

O desenvolvimento da vacina contra o coronavírus é a única área, disse Gates, em que os EUA merecem aplausos pela sua reação ao coronavírus.

A nação apoiou a pesquisa e o desenvolvimento de muitas das principais vacinas candidatas e, como disse Gates anteriormente ao Business Insider, “em algum lugar nesse conjunto de vacinas haverá alguma muito eficaz e muito segura”.

Porém, o sucesso dos programas realizados nos EUA não é garantido. De acordo com o relatório “Goalkeepers , “a probabilidade de sucesso é de 7% nos estágios iniciais e de 17% depois que as candidatas passem pelos testes em humanos”.

Muitas das mais de 175 vacinas candidatas testadas em todo o mundo não funcionarão, e essa é uma das razões pelas quais mais de 170 nações (começando pelos EUA) assinaram o COVAX, um acordo internacional para que os países desenvolvam e enviem vacinas para todo o mundo.

De acordo com Gates, há razões muito “diretas” e “egoístas” pelas quais todas as nações deveriam querer investir em tal colaboração e apoiar a construção de fábricas para a produção de vacinas em todo o mundo.

“É realmente muito difícil criar uma barreira perfeita entre o seu país e o resto do mundo”, disse ele.

Mas criar um mundo em que a maioria das pessoas foi vacinada contra o vírus “nos permite voltar ao normal”, acrescentou.

De acordo com os modelos da Northeastern University citados no relatório “Goalkeepers”, se 50 das nações mais ricas do mundo (incluindo os EUA) se apropriassem dos primeiros 2 milhões de doses da vacina, acumulando-as para a sua própria população, então “quase o dobro de pessoas poderia morrer de Covid-19”.

(Foto: Business Insider)

Gates diz que é hora de aumentar a “generosidade” nos EUA e gastar mais para instalar fábricas para a produção de vacinas em todo o mundo. É um impulso para colocar a nação novamente em seu lugar, historicamente falando, como líder global da saúde – graças a governos tanto republicanos quanto democratas.

“Eu estou preocupado que alguns doadores, em termos de qualidade ou de quantidade da sua ajuda, não estejam fazendo disso uma prioridade, como antes”, disse Gates. “Não deveria ser apenas uma questão de os países ricos vencerem uma guerra de lances de ofertas, mas sim de fazer com que a equidade tenha peso.”

Sua melhor hipótese é de que pode levar “de dois a três anos” para que os objetivos de desenvolvimento global voltem aos trilhos.

“Realmente acreditamos que vamos superar este momento”, afirma.

 

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