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02 Abril 2020

“Estamos diante de uma mudança de paradigma social, temos diante de nós a possibilidade de protagonizar uma revolução pacífica, civilizada, que deveria começar com a educação, algo que os ilustrados já sabiam no século XVIII. Uma formação para a cidadania, não para preparar elementos da força trabalhista. Um movimento em que os cientistas e intelectuais, junto com outros líderes sociais, tenham verdadeiro protagonismo. Uma corrente articulada pela racionalidade, mas que não esquece as necessidades de cada um de seus membros, construída sobre um conhecimento verdadeiramente holístico”, escreve David Barrado Navascués, do Centro de Astrobiologia, vinculado ao Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial INTA e Conselho Superior de Investigações CientíficasCSIC, Espanha, em artigo publicado por Público, 01-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A humanidade se encontra em um ponto de inflexão, exacerbado pela pandemia COVID-19. Esta experiência coletiva deve servir para provocar uma reflexão global sobre o nosso futuro e nos conduzir a uma sociedade do conhecimento, mantendo sempre uma perspectiva empática sobre as necessidades de todos.

“Aquele que não conhece sua história está condenado a repeti-la”. Esta frase anônima, atribuída, entre outros, a Napoleão Bonaparte, nos ensina que para nos preparar para o futuro é indispensável também olhar para o nosso passado e ter presente as lições aprendidas.

A atual crise de saúde gerada pela pandemia COVID-19, produzida pelo vírus SARS-CoV-2, não é a primeira, nem, infelizmente, será a última a ser enfrentada pela humanidade. As doenças, de fato, foram potentes alavancas de mudança histórica, por ter a capacidade de mudar uma sociedade, sobretudo quando foram combinadas com outros elementos perturbadores.

Alguns poucos exemplos bastam para ilustrar tais processos: a epidemia durante a Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, no século V antes da era comum, a peste do século XIV da era comum, que mudou a estrutura socioeconômica da Europa; ou a varíola e outras doenças na expansão europeia na América e em outros continentes (Diamond, 2005). Para os envolvidos, tanto as estruturas políticas como os indivíduos, a mudança foi dramática e deixou múltiplos danos, mas também abriu novas oportunidades.

Uma peste é uma tragédia humana, mas também proporciona a possibilidade de refletir sobre suas origens, suas implicações e a necessidade de medidas corretivas. Além disso, também permite pensar na realização de mudanças de maior alcance, repetindo as perenes perguntas: Quem somos? Para onde vamos?

A sociedade que vem

A humanidade está, possivelmente, em seu melhor momento. Nunca tantos seres humanos foram tão felizes e saudáveis. No entanto, numerosos problemas continuam presentes e a sociedade global já estava em uma profunda mudança, acelerada e desigual, antes do surgimento da pandemia COVID-19.

A implantação de novas tecnologias e os desafios que nos trazem, como é o caso da inteligência artificial e a computação quântica, a manipulação genética, ou a possibilidade de se criar uma nova espécie não completamente orgânica, de ciborgues, junto com os problemas gerados por tecnologias obsoletas, a existência de armas nucleares e as atuais necessidades energéticas, onde se destaca a mudança climática e suas destrutivas consequências, já eram suficientes desafios para a humanidade.

O amanhã já está aqui em forma de tsunami

Agora, uma nova pandemia ganha primazia e relega o restante das dificuldades a um indefinido “amanhã”. Mas em muitas ocasiões esquecemos que o amanhã já está aqui, e que, ainda que o ignoremos, suas consequências já estão ocorrendo sobre nós como um tsunami.

O confinamento de mais de um terço da humanidade está forçando a repensar as relações sociais e a maneira como trabalhamos. Felizmente, a internet, um bem global, respondeu adequadamente às exigências de tráfego e as redes sociais estão contribuindo para a manutenção dos necessários nexos sociais.

A curto prazo, poderíamos ver mudanças significativas: a maneira como nos cumprimentamos, evitando o contato direto, a universalização do teletrabalho, mostrado agora como factível em grande escala, e o acesso a produtos culturais online. De fato, conhecidas pinacotecas criaram percursos virtuais e grandes orquestras, óperas e companhias de teatro democratizaram o acesso a alguns produtos que antes, por vezes, só eram acessíveis a determinadas minorias. Em relação às relações sociais, a solidariedade voltou a se manifestar, especificamente os laços intergeracionais.

A médio e longo prazo, abrem-se múltiplas incógnitas. Nesse sentido, o teletrabalho poderia mudar o conceito de cidade, promovendo uma maior descentralização e evitando a necessidade de grandes redes urbanas, descongestionando o trânsito e reduzindo a poluição. As relações internacionais deverão ser reexaminadas e a União Europeia deverá se redefinir: espaço econômico ou verdadeiramente cidadão? De qualquer modo, também pode ter um impacto em nosso modelo social e político, e no papel de cada cidadão. Temos, agora, mais do que nunca, a oportunidade de questionarmos quem somos e que tipo de sociedade queremos.

As grandes perguntas e a Geração 2020/COVID

Cada sociedade é uma rede de inter-relações extraordinariamente complexas. O século XXI está se caracterizando por uma globalização praticamente completa e por um acesso à informação quase sem restrições, junto com a presença de fake news e de influencers, que em muitas ocasiões se tornam virais e sepultam as fontes fidedignas sob camadas de trivialidades, mentiras e tergiversações.

Contudo, se fosse perguntado à imensa maioria o que espera, sua resposta incluiria termos como “felicidade”, “liberdade”, “bem-estar”, “saúde”, “segurança”. Possivelmente, a prioridade dependeria do momento em que a questão fosse formulada. O vírus SARS-CoV-2 certamente está contribuindo para alterar essa ordem. Está em nossas mãos articular uma resposta adequada.

A pandemia atual (e outras que possam nos golpear no futuro) já é uma experiência traumática para milhares de milhões de seres humanos. Junto com as duas guerras mundiais, possivelmente seja o evento que mais está marcando uma população global. Neste caso, combatemos não contra nós mesmos, mas contra um inimigo invisível. Todos pagaremos um alto preço, econômico, mas sobretudo humano. É, portanto, uma experiência que une a todos nós.

Para a população mais jovem, as consequências podem ser ainda mais significativas. De fato, assim como a perda de Cuba, Filipinas e Porto Rico marcou a sociedade espanhola e impulsionou a Geração de 98, a atual crise poderá propiciar o surgimento da Geração 2020 ou Geração COVID: os adolescentes e pós-adolescentes atuais que estejam neste transe, junto com a mudança climática, seu leitmotiv. Eventualmente, reivindicarão respostas e responsabilidades.

Uma nova cidadania, uma nova liderança social?

A crise econômica de 2008 levou ao surgimento de vários movimentos cidadãos, tais como o 15M na Espanha e Occupy Wall Street nos Estados Unidos. Mais recentemente, grupos populistas e extremistas surgiram ou se viram reforçados em muitas partes do mundo.

A pandemia COVID-19 possivelmente terá consequências análogas, tanto por sua dimensão social, como pela mais que possível grande crise econômica. Mas, além disso, produzirá um questionamento dos atuais líderes políticos em todo o mundo. Estamos, pois, em um ponto de inflexão e a balança pode pender para qualquer lado. Corresponde a nós proporcionar o estímulo adequado.

Os problemas de uma sociedade moderna não estão na política, nem na classe política, mas em sua maneira de conduzi-la e no número e papel de agentes que participam dela.

A crise do coronavírus também acarretará uma perda de confiança, acrescida à anterior, nos responsáveis por diferentes governos. Implicará, portanto, uma mudança de uns por outros, independentemente de sua sigla?

Não deveria ser assim. Estamos diante de uma mudança de paradigma social, temos diante de nós a possibilidade de protagonizar uma revolução pacífica, civilizada, que deveria começar com a educação, algo que os ilustrados já sabiam no século XVIII. Uma formação para a cidadania, não para preparar elementos da força trabalhista. Um movimento em que os cientistas e intelectuais, junto com outros líderes sociais, tenham verdadeiro protagonismo. Uma corrente articulada pela racionalidade, mas que não esquece as necessidades de cada um de seus membros, construída sobre um conhecimento verdadeiramente holístico, não sobre tecnicismos de hiperespecialistas, por mais necessários que sejam. Temos, pois, a oportunidade de criar um mundo melhor, um mundo racional, um mundo para as pessoas.

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