“Uma pandemia serve para desenvolver nacionalismos agressivos”. Entrevista com Nicolas Lebourg

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21 Agosto 2020

A pandemia de Covid-19 é uma oportunidade para que os populismos reciclem seus velhos conceitos de “localismo” e “nacionalismo”. Nem o vírus, o aquecimento global ou a ideia de uma “nova normalidade” devem ser interpretados, inevitavelmente, como promotores de um mundo mais social e ecológico.

A irrupção do coronavírus, concordam vários historiadores e filósofos do momento, atua como um acelerador das tensões políticas globais preexistentes, um fenômeno em moda na reflexão durante este período de reclusão pela quarentena.

A inclinação do voto a favor dos partidos populistas, a globalização do nacionalismo e um agravamento dos processos de radicalização violentos são algumas das advertências do historiador e pesquisador francês do Centro de Estudos Políticos da Europa Latina, da Universidade de Montpellier, e uma das figuras mais consultadas na Europa sobre as extremas direitas. Nicolas Lebourg conversa com Infobae, em Paris.

A entrevista é de Juan Dillon, publicada por Infobae, 15-08-2020. A tradução é do Cepat.

“Se as eleições europeias de 2019 não foram em absoluto um tsunami populista a respeito do qual alguns haviam sonhado ou tido pesadelos, a pandemia atual parece capaz de ao menos poder reter a lealdade dos clientes adquiridos pela extrema direita e agravar os processos de radicalização violenta”, pensa o historiador que costuma ser frequente protagonista das crônicas de análise apresentadas nos principais meios de comunicação europeus.

A crise tem efeitos diversos, em nichos sociais distintos. Alguns, de extrema direita, esperam que uma crise sanitária como a atual justifique propostas localistas em nome da ecologia e da soberania industrial. O discurso se tornou tão comum que, como no caso do adotado por Marine Le Pen, na França, fez ressurgir este tema durante o episódio da quarentena. Uma ideia que postula que “o melhor pode surgir do drama”. Para a referência francesa da ultradireita, “seria necessário mudar um modelo econômico ultraliberal que nos empobrece”, para erigir “localismos”. No caso da direita radical, segue uma política agrícola nacionalista: localismo, aqui, significa “enraizamento”, e se opõe à “ideologia nômade” da economia globalizada.

Eis a entrevista.

Qual é a sua opinião a respeito do impacto da pandemia no desenvolvimento dos acontecimentos políticos mundiais?

Esta é uma pergunta difícil para um historiador, na medida em que se desenvolva uma tragédia. Na história, os massacres, como pode ser uma pandemia, podem ter efeitos surpreendentes. Na história, a tragédia tem efeitos complexos. Dito isto, o próprio princípio do desenvolvimento de uma pandemia transnacional pode servir para o desenvolvimento de nacionalismos agressivos, tanto em nível de ideias, como pelo colapso econômico, que lhes servirá em sua sociologia eleitoral.

Concorda, então, com muitos outros historiadores e analistas, de que o vírus pode ser um acelerador dos conflitos preexistentes?

Obviamente, isto não abranda o aumento das tensões entre Washington e Pequim, por exemplo. Em 2006, após o episódio da gripe aviária, o Banco Mundial realizou uma simulação sobre a economia do momento e calculou que uma pandemia global poderia representar um crash com uma diminuição de 3 a 4,8% do Produto Interno Bruto mundial. Se temos as consequências do colapso socioeconômico, as tensões no fornecimento, é claro, ainda estamos acrescentando consequências lamentáveis à pandemia com esta aceleração dos conflitos. Dito isto, tudo se acelera: a pandemia trouxe um salto da União Europeia para uma forma mais federal do que qualquer um poderia imaginar, há um ano. É todo o equilíbrio de poder que se movimenta, não só os aspectos negativos.

Você menciona como foi significativo o acordo de resgate europeu. Qual é a sua avaliação, inclusive com as tensões que vieram para a sua aprovação, acerca do alcance do que foi aprovado?

A força do acordo europeu está em ter conseguido ser apoiado por governos espanhóis e portugueses francamente esquerdistas, assim como pelos países mais direitistas da Europa. Em certo ponto, o ambiente onde foram alcançados acordos estava cercado por certa paranoia nacionalista, que continua. No entanto, a pandemia conseguiu fazer com que os europeus voltem à mesa de debate.

Não obstante, considera que se observa uma radicalização dos conflitos, inclusive certo apogeu de grupos violentos. Um exemplo: jovens em Stuttgart [Alemanha] que destruíram comércios em uma manifestação e feriram pelo menos 19 policiais. Há explosões de violência social?

Em 2019, na Europa, houve três vezes mais atos violentos da extrema direita que da extrema esquerda, segundo a Europol. Entre os fatos mais chamativos, podemos citar o assassinato de um prefeito na Alemanha e a prisão de uma célula armada neonazista italiana que possuía um míssil do Catar. A Alemanha é um caso concreto, com 13.000 radicais violentos de direita estimados pela polícia, frente a somente 1.000, na França, e 600, na Inglaterra, segundo os serviços destes países. A violência política está aumentando na Europa, ainda que a maior parte dos atos violentos continue sendo o problema dos jihadistas.

Desde a simultaneidade entre a crise dos refugiados e os ataques jihadistas de 2015, o ponto essencial sobre a violência de direita é a harmonização europeia da vitimologia. Nos diferentes países, a violência se dirige geralmente a migrantes e ativistas de esquerda. A crise dos refugiados é interpretada como uma jihad para conduzir a uma ação de “reconquista”.

Vamos para a América Latina. Existe alguma semelhança com os fenômenos da direita na América Latina, do Brasil, com Bolsonaro? Até mesmo certo alerta em relação a um fracasso de um governo de marca “populista”, como o de Alberto Fernández, na Argentina, que possa dar espaço ao surgimento de um processo de ultradireita.

Desconfio das comparações políticas entre os populismos sul-americanos e europeus porque as sociedades são muito diferentes. Dito isto, o que observamos globalmente é que este movimento de ultradireita, ultranacionalistas, é consequência da transformação do mundo aberto simbolicamente pelo primeiro choque petroleiro, em 1973.

Trata-se do desmantelamento do estado de bem-estar e do humanismo igualitário, ligado a uma etnicização das questões e representações sociais, em benefício de um aumento do estado penal e da segurança. A globalização econômica que começou no século XIX. A globalização se acelerou consideravelmente, mas desde o início provocou reações autoritárias e nacionalistas.

A “neosupremacia” branca

Para Lebourg, as decepções políticas conduzem à “tentação terrorista” dos movimentos radicais de extrema direita.

Especialista em extrema direita, amplia o trabalho que vem realizando, desde 2015, como parte do programa sobre a história do fascismo da Universidade George Washington, onde expõe que certo êxito dos partidos legalistas de extrema direita pode levar a alguns de seus militantes a considerar que a passagem à violência se torna a única opção racional para obter a proeminência que aspiram.

Em seu livro “Os nazistas sobreviveram”, disse que todos os elementos estão presentes, hoje, para que se libere a dinâmica violenta da extrema direita. Como seria o nazismo hoje?

A ideia da raça branca não foi uma ideia nazista. Os nazistas acreditavam em um sistema hierárquico mais complexo. Mas esse radicalismo se transformou em uma afirmação do orgulho da raça branca: orgulho, não supremacia. Esta afirmação branca retoma os temas da conspiração judaica mundial de que, por trás da globalização, buscaria destruir biológica e culturalmente os europeus.

Esta é uma ideia que é possível encontrar entre os assassinatos-atentados na mesquita de Christchurch, na Nova Zelândia, ou na sinagoga de Pittsburgh, nos Estados Unidos. A ideia de um “mundo branco” em guerra mostra como o que está na base do nacionalismo se tornou um fenômeno transnacional, de fato, no marco da globalização, uma adaptação das mitologias raciais, primeiro nacional, depois continental, para tomar um espaço global.

Um esclarecimento. A Argentina tem em sua história laços com o nazismo, hierarcas...

Inclusive, na imprensa nazista, era possível ler artigos que falavam de muitas formas sobre os nacionalistas argentinos! A CIA estimou que 7.000 alemães emigraram para a Argentina, justamente após o fim da guerra. Não só muitos nazistas e seus colaboradores fascistas em toda a Europa fugiram para lá, como também alguns movimentos neonazistas europeus obtiveram fundos do país.

Finalmente, Le Pen, na França, e Abascal, na Espanha. Possuem chances de ser governos? O que acredita que acontecerá na Alemanha, após Merkel?

Estes são casos muito diferentes. Vox representa um empoderamento da ala dura do direitista Partido Popular. Diante dos escândalos de corrupção e o problema catalão, o PP lançou a carta da radicalização, ao explicar que era o único que salvou uma Espanha em perigo de morte. Como resultado, não havia nenhum partido extremista de direita na Espanha, surgiu o Vox. É como o presidente francês de direita Nicolas Sarkozy. Como a Frente Nacional francesa havia se fragilizado muito, explicou que o Islã era um perigo mortal para a França. Assumem ideias radicalizadas.

O problema com os extremos na Europa é que se tornaram muito poderosos no setor dos homens com pouca formação, as classes trabalhadoras do setor privado. Trata-se de uma minoria de bloqueio muito grande, mas que na maior parte do tempo ainda não conseguem vencer eleições decisivas. Ainda há pessoas mais velhas em melhor situação econômica que se abstêm. Justamente após os atentados de 13 de novembro de 2015, que foram um trauma absoluto, houve eleições regionais. Marine Le Pen obteve 41% dos votos, no primeiro turno, quando havia muitos outros candidatos, mas, mesmo assim, no segundo turno, na disputa, só aumentou dois pontos e perdeu.

Em resumo, para Lebourg, as crises sociais e políticas que atualmente se entrelaçam com a crise de saúde só podem “contribuir para esta simbiose de sentimentos de degradação pessoal e nacional, que contribui para a dinâmica da proliferação agressiva de uma ultradireita ou modelos populistas nacionalistas”.

 

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