“O capitalismo não é uma religião. Os shoppings são totalmente o contrário de um templo”. Entrevista com Byung-Chul Han

Fonte: Pexels

21 Mai 2020

O filósofo alemão vivo mais lido em todo o mundo é coreano. Byung-Chul Han (Seul, 1959), professor na Universidade das Artes de Berlim, passou a ser conhecido em todo o mundo, há 10 anos, com “A sociedade do cansaço”. Desde então, publicou mais de uma dezena de ensaios formalmente semelhantes – muito breves e com uma escrita clara e direta –, desenvolvendo uma peculiar crítica comunitarista a diferentes aspectos do capitalismo contemporâneo. Seu último trabalho é “La desaparición de los rituales” (Herder, 2020). Esta entrevista foi realizada por e-mail.

 

A entrevista é de César Rondueles, publicada por El País, 17-05-2020. A tradução é do Cepat.

 

 

Eis a entrevista.

 

Em seu livro, você define os rituais como ações simbólicas que geram uma comunidade sem necessidade de comunicação. Ao contrário, segundo expõe, nas sociedades atuais, prevalece muito mais a comunicação sem comunidade. Como imagina essa “comunidade-sem-comunicação” perdida? Os exemplos que você apresenta pertencem ao passado ou a pequenos povoados camponeses e insiste em que a causa dessa destruição comunitária é o neoliberalismo. Houve outras épocas do capitalismo mais abertas aos rituais? A modernidade e a comunidade são incompatíveis ou a incompatibilidade se dá exclusivamente entre capitalismo e comunidade?

“O desaparecimento dos rituais”, ressalta sobretudo que, na atualidade, a comunidade está desaparecendo. A hipercomunicação, consequência da digitalização, nos permite estar cada vez mais interconectados, mas a interconexão não traz consigo maior vínculo, nem proximidade. As redes sociais também acabam com a dimensão social ao colocar o ego no centro. Apesar da hipercomunicação digital, em nossa sociedade a solidão e o isolamento aumentam.

Hoje, somos continuamente convidados a comunicar nossas opiniões, necessidades, desejos e preferências, inclusive para que contemos nossa vida. Cada um produz e representa a si mesmo. Todo mundo pratica o culto, a adoração do eu. Por isso, digo que os rituais produzem uma comunidade sem comunicação. Ao contrário, hoje prevalece a comunicação sem comunidade. Cada vez celebramos menos festas comunitárias. Cada um celebra somente a si mesmo.

Deveríamos nos libertar da ideia de que a origem de todo prazer é um desejo satisfeito. Só a sociedade de consumo orienta-se para a satisfação de desejos. As festas não têm a ver com o desejo individual. No jogo coletivo não se procura satisfazer seu próprio desejo. Antes, entrega-se à paixão pelas regras. Não estou dizendo que tenhamos que voltar ao passado. Pelo contrário. Defendo que temos que inventar novas formas de ação e jogo coletivo que se realizem para além do ego, o desejo e o consumo, e criem comunidade. Meu livro se encaminha para a sociedade que vem.

 

Esquecemos que a comunidade é fonte de felicidade. Também definimos a liberdade de um ponto de vista individual. Freiheit, a palavra alemã para “liberdade”, significa na origem “estar com amigos”. “Liberdade” e “amigo” têm uma etimologia comum. A liberdade é a manifestação de uma relação plena. Portanto, também deveríamos redefinir a liberdade a partir da comunidade.

 

Sua descrição de nosso mundo como crescentemente distante dos rituais se opõe àqueles que veem o capitalismo como uma sociedade hiper-ritualizada. Desse ponto de vista, que você critica, o consumo teria uma forte dimensão ritual e inclusive religiosa: os supermercados ou os estádios seriam nossos templos. Por que considera incorreto interpretar as práticas capitalistas ou burocráticas como formas secularizadas de rituais religiosos?

 

Rejeito a tese de que o capitalismo é uma religião. Os centros comerciais são totalmente o contrário de um templo. Nos centros comerciais, e no capitalismo em geral, domina uma atenção particular. Tudo gira em torno do ego. Segundo Malebranche, a atenção é a oração natural da alma. Nos templos, encontramos uma forma totalmente diferente de atenção. Presta-se atenção nas coisas que não podem ser alcançadas com o ego. Os rituais me distanciam de meu ego. O consumo reforça a obsessão a ele. Não sou crente, mas gosto de participar de celebrações religiosas, católicas, é claro. Quando me deixo embriagar com os cânticos, a música do órgão e o aroma do incenso, eu me esqueço de mim, de meu ego, e experimento uma bela sensação de comunidade.

Em meu livro, cito um apontamento de Peter Handke: “Com a ajuda da missa, os padres aprendem a tratar bem as coisas: a maneira delicada de sustentar o cálice e as hóstias, a limpeza tranquila das taças, a maneira como viram as páginas do livro e o resultado desse belo modo de tratar as coisas: uma alegria que dá asas ao coração”. Hoje em dia, damos um uso muito diferente para as coisas. Nós as esgotamos, consumimos e destruímos. Nos rituais, nós as tratamos de uma maneira totalmente diferente, com cuidado, como se fossem amigas. As coisas ritualizadas também podem criar comunidade. Os rituais possuem um fator de repetição, mas é uma repetição animada e vivificadora. Não tem nada a ver com a repetição burocrática-automática.

Hoje em dia, procuramos constantemente novos estímulos, emoções e experiências, e esquecemos a arte da repetição. O novo se trivializa rapidamente e se torna rotina. É uma mercadoria que se consome e volta a inflamar o desejo de algo novo. Para escapar da rotina, do vazio, consumimos ainda mais novos estímulos, novas emoções e experiências. A sensação de vazio é precisamente a que ativa a comunicação e o consumo. A “vida intensa” que atua como reivindicação do neoliberalismo não é senão consumo intenso. Existem formas de repetição que criam autêntica intensidade. Encanta-me Bach. Já toquei mais de 10.000 vezes as árias das “Variações Goldberg”, e cada vez experimento uma felicidade. Pessoalmente, não preciso de nada novo. Encantam-me as repetições, os rituais da repetição.

 

Uma tese muito sugestiva de seu livro é que os rituais permitem que os valores de uma comunidade sejam assimilados corporalmente. Parece-me uma ideia próxima daquela que dizia Pascal: “Se não acredita, ajoelhe-se, aja como se acreditasse e a crença chegará por si só”. Você expõe que, ao contrário, vivemos em uma sociedade das paixões marcada pelo culto narcisista à autenticidade, onde a única coisa que conta é a sinceridade de nossas emoções.

 

Os rituais ancoram a comunidade no corpo. Sentimos fisicamente a comunidade. Justamente na crise do coronavírus, em que tudo se desenvolve pelos meios digitais, sentimos muita falta da proximidade física. Todos nós estamos mais ou menos conectados digitalmente, mas falta a proximidade física, a comunidade palpável fisicamente. O corpo que treinamos sozinhos, na academia, não tem essa dimensão de comunidade. Também na sexualidade, na qual a única coisa que importa é o rendimento, o corpo é, de certo modo, algo solitário.

 

Nos rituais, o corpo é o cenário no qual se inscrevem os segredos, as divindades e os sonhos. O neoliberalismo produz uma cultura da autenticidade que coloca o ego no centro. A cultura da autenticidade vai de mãos dadas com a desconfiança em relação às formas de interação ritualizadas. Só as emoções espontâneas, ou seja, os estados subjetivos, são autênticas. O comportamento formalizado é rejeitado como falta de autenticidade ou como externo. Um exemplo é a cortesia. Em meu livro, argumento contra a cultura da autenticidade, que conduz ao embrutecimento da sociedade, e em favor das formas belas.

 

Não avalia que os partidários da nova direita radical poderiam se sentir identificados com sua reivindicação dos rituais e da comunidade? Qual a diferença entre seu próprio comunitarismo e o da ultradireita emergente?

A comunidade não se define necessariamente pela exclusão do outro. Também pode ser muito hospitaleira. A comunidade na qual as direitas se atrelam está vazia de conteúdo. Por isso, encontra seu sentido na negação do outro, do estrangeiro. É dominada pelo medo e o ressentimento.

 

No prefácio, disse muito explicitamente que este não é um livro nostálgico, mas muitas vezes faz comparações com o passado muito desfavoráveis para o nosso presente. No capítulo dedicado à guerra, por exemplo, defende os antigos valores guerreiros, idealizando a guerra antiga. Ao longo da história, encontramos uma ampla série de genocídios. A matança indiscriminada não é exatamente uma invenção capitalista.

 

Só gostaria de destacar que a cultura humana está se desritualizando cada vez mais e a conversão da produção e do rendimento em valores absolutos está acabando com os rituais. Por exemplo, a pornografia aniquila os rituais de sedução. Nas ordens de cavalaria europeias o objetivo principal não era matar o adversário. A honra e o valor também eram importantes.

 

Na guerra com drones, ao contrário, o fundamental é matar o inimigo, que é tratado como um criminoso. Após a missão, entrega-se solenemente aos pilotos dos drones um “cartão de pontuação” que certifica quantas pessoas mataram. Também quando se trata de matar, o que mais conta é o rendimento. Em minha opinião, isto é perverso e obsceno. Não pretendia dizer que as guerras do passado fossem melhores que as atuais. Pelo contrário, o que queria destacar é que hoje em dia tudo se tornou uma questão de rendimento e produção. Não só na guerra, mas também no amor e na sexualidade.

 

Em seu ensaio, relaciona o auge do “big data” com uma guinada em nossa concepção do conhecimento, que cada vez mais entendemos como algo produzido maquinalmente. Chega a falar em um “giro dataísta”análogo ao “giro antropológico”do Iluminismo. É o dataísmo a conclusão de um caminho irreversível que já estava antecipado nas origens da modernidade?

O dataísmo é uma forma pornográfica de conhecimento que anula o pensamento. Não existe um pensamento baseado nos dados. A única coisa que se baseia nos dados é o cálculo. O pensamento é erótico. Heidegger o compara com o Eros. O bater das asas do deus Eros o acariciava cada vez que dava um passo significativo no pensamento e se atrevia a se aventurar em um terreno inexplorado. A transparência também é pornográfica. Peter Handke disse em uma de suas anotações: “Quem disse que o mundo já está descoberto?”. O mundo é mais profundo do que pensamos.

 

A pandemia da covid-19 está tendo um enorme impacto, não apenas em termos sanitários e econômicos, também em nossa subjetividade compartilhada. Em apenas alguns dias, a noção de “biopolítica” se tornou muito intuitiva. Em que medida acredita que a comunicação-sem-comunidade, que você diagnostica em nossas sociedades, está afetando a maneira como estamos vivendo a epidemia?

 

A crise do coronavírus acabou totalmente com os rituais. Nem sequer está permitido dar as mãos. A distância social destrói qualquer proximidade física. A pandemia deu lugar a uma sociedade da quarentena na qual se perde toda a experiência comunitária. Como estamos interconectados digitalmente, seguimos nos comunicando, mas sem qualquer experiência comunitária que nos faça felizes. O vírus isola as pessoas. Agrava a solidão e o isolamento que, de qualquer modo, dominam nossa sociedade. Os coreanos chamam de “corona blues” a depressão por conta da pandemia. O vírus consuma o desaparecimento dos rituais. Não considero difícil imaginar que, depois da pandemia, os redescubramos.

 

Acredita que a pandemia constitui um marco histórico similar à crise de 2008, que se traduzirá em transformações políticas profundas? Que mudanças sociais acredita que experimentaremos com base no coronavírus?

 

Como consequência da pandemia, caminhamos para um regime de vigilância biopolítica. O vírus deixou descoberto um ponto muito vulnerável do capitalismo. No melhor dos casos, impõe-se a ideia de que a biopolítica digital, que torna o indivíduo e seu corpo objeto de vigilância, é o suficiente para tornar o capitalismo invulnerável ao vírus. No entanto, o regime de vigilância biopolítica significa o fim do liberalismo.

Nesse caso, o liberalismo não terá sido mais que um breve episódio. Mas eu não acredito que a vigilância biopolítica vá derrotar o vírus. O patógeno será mais forte. Segundo o paleontólogo Andrew Knoll, o ser humano é somente a cereja da evolução. O verdadeiro bolo é composto por bactérias e vírus que ameaçam atravessar qualquer superfície frágil, e inclusive reconquistá-la, a qualquer momento. A pandemia é a consequência do investimento brutal do ser humano em um delicado ecossistema. Os efeitos da mudança climática serão mais devastadores que a pandemia. A violência que o ser humano exerce contra a natureza está se voltando contra ele com mais força. Nisso consiste a dialética do Antropoceno: na chamada Era do Ser Humano, o ser humano está mais ameaçado que nunca.

 

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