“A necropolítica é gerir a vida utilizando a morte e a doença para se empoderar”. Entrevista com Francis García Collado

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30 Julho 2020

A Europa geriu a pandemia pior que a Ásia, porque a enfrentou com os instrumentos do século XIX: confinamentos e fronteiras. Os asiáticos, ao contrário, souberam a evitar com os do século XXI: algoritmos e testes. Aqui, além disso, ainda sofremos a necropolítica da recessão e seus cortes em saúde, as decisões que os governos tomaram conscientes de que custariam vidas.

Francis García Collado, filósofo, presenteia-me com seu “El virus como filosofia. La filosofía como vírus”, escrito em coautoria com Andityas Soares de Moura Costa Matos, e o retribuo com meu Homo rebellis, onde se explica, seguindo a Cell, que nossa consciência nos foi inoculada por um vírus. E que os asiáticos são mais gregários e disciplinados que nós, desde o berço: individualizam-se – possuem sua primeira memória - aos cinco anos, nós, aos três. O futuro é uma rede e a Ásia o está tecendo antes e melhor.

A entrevista é de Lluís Amiguet, publicada por La Vanguardia, 29-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Qual é a filosofia do vírus?

Os vírus existem antes que os humanos, mas só são questão de Estado a partir de 1942...

Por acaso, antes as pandemias não dizimavam nações?

Claro, mas os estados só se consideram responsáveis pela saúde de seus cidadãos quando o Reino Unido adota, naquele ano, o Plano Beveridge, que inclui os serviços de saúde.

O seguro-doença também é instituído na Espanha naquele: em 1942.

E é uma data central para os vírus, porque o Estado moderno passa, então, de apenas responsável de que não matassem os cidadãos a se responsabilizar também por sua saúde.

E isso tem um custo enorme.

Não só econômico. Também em nossas liberdades. Em troca de garantir a saúde, o Estado se arroga a capacidade de a vigiar e tutelar, que é o que faz agora.

Foucault falava em biopolítica.

E os estados, assim, também vigiam a saúde mental, ou seja, nossas mentes.

A psiquiatria mal exercida se torna um modo de eliminar a diversidade política.

Foi assim no franquismo. Agora, eu diria que fomos inclusive além da biopolítica e vivemos em uma bioarzquia: do alemão arz (médico), um Estado medicalizado.

Os gregos faziam uma distinção entre bios, a vida humana, e zoé, a existência animal.

Nós, pessoas livres, as vivemos ao mesmo tempo, mas se os estados abusam de seu poder, com a desculpa da pandemia, acabaremos renunciando a bios para viver só como zoé. Por medo de perder a existência, renunciamos a vida.

Não seria o caso de buscar a saúde, sem renunciar o que torna a vida desejável?

Sim, mas isso não é possível se entronizamos o critério médico como se a medicina fosse uma ciência.

E não é?

É claro que não. A medicina é uma técnica que aplica critérios científicos e é, portanto, infelizmente, inexata.

É o que vamos comprovando, sim. Mas sem medicina, o que nos restaria?

O perigo é que a bioarzquia não aceite seus limites e não admita sua ignorância.

Temos o direito de saber que não sabem? Não sabem pelo menos mais do que nós?

Somos ou ao menos deveríamos ser maduros o suficiente para admitir que os médicos só são profissionais que tentam lutar contra a doença com abnegação, mas também que esta é desconhecida e que não há nenhuma fórmula matemática infalível para a derrotar.

E não fazemos isso?

Em quatro dias, por exemplo, o critério sanitário passou de duvidar da máscara a impor sob pena de multa.

O que aconteceu?

O político se apropria de forma oportunista da razão farmacêutica para se empoderar. E o poder econômico espera a utilizar também para aumentar lucros.

Mas todos, como disse Tusquets, sairemos desta mais tolos e mais pobres?

A grande arma do neoliberalismo foi o terror ao desemprego que lhe permitia controlar a sociedade. Hoje, o fator de controle é o vírus.

Não copiamos o paradigma chinês de confinamento total diante do vírus?

Nós, europeus, tentamos gerir o vírus com ferramentas do século XIX: fronteiras estatais e confinamentos massivos. Ao contrário, os países asiáticos mais avançados, como explica Byung-Chul Han, enfrentaram a pandemia com ferramentas do século XXI: algoritmos, aplicativos, testes massivos...

A Ásia não impôs, assim, uma ditadura do algoritmo?

Por trás da brincadeira de que o vírus é o 5G chinês, há uma parte de verdade. O Ocidente ainda atua como na guerra fria, mas a China há tempo está nos vencendo. E começa pelo controle absoluto que Pequim conseguiu impor sobre os próprios chineses.

Mas o marco de confinar a todos e não só os grupos de risco é chinês.

O que se tentou impor é o vírus como política que dita como temos que nos comportar, mesmo mudando o critério médico. E esse ethos decide nossa obediência futura e uma nova forma de viver.

Não influencia nessa pacata aceitação o envelhecimento de nossa população?

Nossos idosos ergueram o sistema de saúde e agora foram 75% dos mortos pelo vírus. Isso é necropolítica.

Defina necropolítica.

Não encaminhar os anciãos das residências para hospitais, que não existam respiradores, que existam mortos por cortes orçamentários que precarizaram nossa resposta à pandemia. A necropolítica são decisões tomadas por políticos conscientes de que gerarão mortes, mas as tomam.

Por exemplo.

Em seu momento, sabiam que quando se faz cortes no sistema de saúde e na vigilância epidemiológica, acaba ocorrendo o que aconteceu. A necropolítica é gerir a vida utilizando a morte e a doença para se empoderar. E agora os farma-estados se consolidarão com contratos do século para as vacinas.

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