A virada digital do populismo: a cauda longa de uma transição profunda e complexa. Entrevista especial com Letícia Cesarino

Pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina analisa como funciona a rede de apoio bolsonarista e propõe a renda básica universal como alternativa a uma nova agenda de esquerda

Foto: PxHere

Por: João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado | 27 Julho 2020

Não é de hoje que o populismo tem sido uma categoria sociológica usada para descrever e pensar governos com forte apelo popular, como o nome sugere. No entanto, retomar essa chave de interpretação em perspectiva com a digitalização e algoritmização de várias dimensões da vida traz outros contornos para as análises. “A teoria do populismo não está superada – ela apenas tem sido, na minha opinião, utilizada de forma obsoleta para descrever o que ocorreria na esfera da política, sendo que hoje a digitalização já colapsou completamente a diferença entre a política e outras esferas sociais: entretenimento, marketing, religião, parentesco, empreendedorismo, vida privada”, descreve a professora e pesquisadora Letícia Cesarino, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Em sua pesquisa, Letícia investigou as funções dos discursos favoráveis a Bolsonaro, principalmente no WhatsApp, e chegou a quatro grandes eixos que formam a estrutura argumentativa de sua base de apoio. “Produzir uma fronteira antagonística amigo-inimigo; produzir equivalência entre líder e povo; sustentar a mobilização por meio de ameaças iminentes; e construir um canal de comunicação exclusivo, atacando os concorrentes, como a universidade, especialistas, jornalismo profissional e formadores de opinião como a classe artística ‘liberal’”, aponta.

Neste contexto, as instituições de Estado, que garantem um certo equilíbrio entre os poderes e servem, ao menos em tese, para impedir a tirania de um governante, aparecem como inimigas do povo e cuja corrida meritocrática parece ser a única alternativa, deixando os “perdedores” à própria sorte. “Contra esse pano de fundo, o projeto da renda básica universal parece fazer sentido enquanto um potencial primeiro passo para a renovação da agenda da esquerda num mundo onde o neoliberalismo é, hoje, o ar que respiramos, e onde a inclusão plena pelo trabalho formal deixou de ser uma perspectiva viável”, propõe.

Todo este cenário revela a profundidade e complexidade da transição que estamos vivendo. “Períodos de transição desse tipo costumam ser longos e instáveis, até que uma nova normatividade se estabilize – incomensurável com, mas ao mesmo tempo englobando, a anterior (para colocar nos termos de Kuhn). O importante para nós, no momento atual, é garantir que as mudanças infraestruturais não tragam ruptura institucional – que a animosidade e balcanização que vemos nas redes não transborde para o mundo off-line”, analisa.

Letícia Cesarino (Foto: Reprodução ComCiência)

Letícia Cesarino é professora no Departamento de Antropologia e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, mestrado em Antropologia pela Universidade de Brasília - UNB, e doutorado em Antropologia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, realizado com bolsa de doutorado pleno da CAPES/Fundação Fulbright.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Qual sua leitura acerca da Teoria do Populismo, de Ernesto Laclau?

Letícia Cesarino – Na última década, o termo populismo se difundiu muito na esfera pública após a ascensão ao poder de lideranças com estilo político muito parecido, como Narendra Modi na Índia, Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil. Hoje, há um certo refluxo na popularidade do conceito – outros vêm tomando seu lugar, como ‘democracias iliberais’ ou ‘aspirantes a fascismo’. Eu ainda acho o termo útil. Primeiro, porque diz algo sobre a política do ponto de vista das pessoas comuns. Segundo, porque é fértil para compreender os efeitos da digitalização da política hoje. Mas eu o utilizo num sentido bem particular, que é uma leitura ‘cibernética’ do livro de 2005 de Ernesto Laclau, A Razão Populista (São Paulo: Três Estrelas, 2013).

Ali, Laclau apresentou uma teoria estrutural do populismo que buscou ‘reduzir’ toda a gama de expressões históricas e geográficas do fenômeno a um denominador comum. Esse denominador comum não pode estar, obviamente, na conjuntura – Laclau o encontrou no que ele chamou, seguindo [Martin] Heidegger, [Carl] Schmitt e outros, de ‘ontologia’ do político. Para isso, ele mobilizou um amplo arsenal de autores – da linguística estrutural à psicanálise lacaniana, de [Antonio] Gramsci a [Ludwig] Wittgenstein – que operam num plano analítico similar ao das teorias de sistemas e de parte da teoria antropológica clássica, que eu também busco articular em minhas análises. Neste sentido específico, acho a teoria do populismo bastante útil para compreender aspectos emergentes da digitalização da política hoje, pois as mediações digitais são, também elas, cibernéticas, sistêmicas e infraestruturais.

IHU On-Line – Na sua gênese, o Populismo de Laclau pode ser compreendido como algo que emerge do povo (da vontade popular). Nesse sentido, o Populismo é uma perspectiva ainda válida e o que estaria superado são as interpretações, tanto à direita ou esquerda, acerca dele? Por quê?

Letícia Cesarino – Se levarmos a sério o caráter ontológico, estrutural da política populista, é algo que sempre vai existir em maior ou menor grau, pois indica um dos polos constitutivos das democracias liberais modernas (e que eu, como antropóloga, correlaciono, no limite, com padrões mais gerais das sociedades humanas). Do ponto de vista de Laclau, o populismo não se liga de modo intrínseco a nenhum segmento específico do espectro político: é uma forma de mobilização, de construção da identidade de ‘povo’ que pode aparecer nas épocas e lugares os mais variados. Hoje, a meu ver, essa forma de mobilização política tem se mostrado especialmente eficaz por compartilhar propriedades centrais da infraestrutura das mídias digitais.

Nas minhas publicações e falas tenho apontado várias dessas propriedades: elementaridade, binarismo, fractalidade, mimese (cópia), influenciabilidade, liminaridade, crise permanente e captura da atenção, dialética da produção e redução da desordem, entre outras. Mas a principal talvez seja a performatividade da linguagem. O discurso do líder populista não descreve uma realidade que já existe – o povo – mas o produz enquanto tal, na e pela sua mobilização eficaz, onde o carisma é central. Assim, líder e povo são coproduzidos, assim como ocorre, hoje, com influenciadores e sua base de fãs. Esse processo de coprodução deve ser constante, do contrário a audiência irá se dispersar na economia da atenção extremamente competitiva que é a internet, especialmente em período eleitoral.

Durante a campanha de 2018, por exemplo, essa função de mobilização permanente (e expansão) da base de seguidores foi desempenhada pelo disparo massivo de conteúdos tematizando alguma ameaça iminente ao candidato Bolsonaro, ao Brasil, etc., como o perigo da venezuelização, denúncias de fraude nas urnas, narrativas conspiratórias sobre planos para matar Bolsonaro e inúmeras outras. São padrões recorrentes no populismo em geral, que se renovam nos populismos digitais, agora com um ‘empurrãozinho’ da arquitetura algorítmica, que tende a premiar conteúdos alarmistas e que geram muito engajamento.

É interessante notar como quase tudo o que é dito em análises da influência digital vale também para a relação entre líderes populistas e seus seguidores. Neste sentido, a teoria do populismo não está superada – ela apenas tem sido, na minha opinião, utilizada de forma obsoleta para descrever o que ocorreria na esfera da política, sendo que hoje a digitalização já colapsou completamente a diferença entre a política e outras esferas sociais: entretenimento, marketing, religião, parentesco, empreendedorismo, vida privada. Essas considerações também têm implicações para a ciência e a esfera pública de modo mais geral, pois é um tipo de mobilização política que se alimenta do atual contexto de pós-verdade e desorganização informacional resultante da expansão e capilarização da internet e sua economia de dados, baseada na influenciabilidade dos sujeitos.

As lideranças populistas oferecem para os usuários comuns soluções simples, que se vendem como autênticas e espontâneas, e que qualquer um é capaz de apreender e julgar a partir da sua própria trajetória de vida e experiência pessoal. Essa é a base epistêmica da internet como um todo hoje, que Liesbet Van Zoonen chamou de eu-pistemologia. Não é preciso educação política num sentido específico, não é preciso lidar com o jargão de especialistas, não é preciso nem saber ler, pois é uma estratégia que, como o marketing digital, trabalha muito com imagens e o audiovisual, com o entretenimento. Os ‘novos conservadores’ que se dizem anti-establishment têm sabido jogar com essa infraestrutura melhor que qualquer outro grupo político. Eles sabem entreter tanto seus seguidores quanto seus inimigos, a ‘esquerda liberal’.

IHU On-Line – Em que consiste essa ideia de ‘digitalização da política’? Como o Populismo pode ajudar a compreender esse fenômeno?

Letícia Cesarino – A digitalização da política diz respeito ao fato de a construção das nossas identidades políticas individuais e coletivas, suas agendas e dinâmicas, e escolhas eleitorais correspondentes estarem cada vez mais passando por meios digitais. Isso não muda apenas o conteúdo, mas a forma da política, e, portanto, sua própria natureza. Os efeitos da digitalização desafiam frontalmente os princípios sobre os quais a democracia e a esfera pública liberal foram fundadas: debate racional e impessoal; separação entre público e privado; entre religião, política e ciência; procedimentos universais e transparentes; uma diferenciação clara de esferas e competências, pesos e contrapesos institucionais, e o que Max Weber chamou de desencantamento do mundo. Em sua forma, esses princípios são muito parecidos com os da ciência, pois a ciência coemergiu junto com o próprio Estado-nação moderno a partir do século XVI. É esse modelo, que Bruno Latour chamou de ‘Constituição Moderna’ mas que eu prefiro chamar de sistema de peritos, que parece hoje estar em crise em toda a sua extensão.

Nesse sentido, a ascensão dos populistas da direita radical é mais um efeito que uma causa dessa crise, mas eles ajudam a aprofundá-la. Em 2018, por exemplo, o zap bolsonarista disparou conteúdo atacando ativamente a legitimidade do sistema de peritos – a imprensa profissional, universidades, especialistas, como hoje ataca os contrapesos institucionais ao Executivo, como o Congresso e o STF. A teoria do populismo é útil para entender o tipo de política que emerge a partir da desestabilização do modelo liberal de democracia, pois ela se apoia em outras tradições, não-liberais de pensar a política, inclusive a psicanálise. Ela reconhece como parte da política praticamente tudo o que a esfera pública liberal exclui: o papel dos afetos, paixões e ‘eu-pistemologias’ individuais e grupais no pertencimento e comportamento políticos; da performatividade, carisma pessoal e estética; reconhece que política é construção de fronteira antagônica entre grupos; e que a política moderna nunca de fato se secularizou completamente.

Nesse contexto, campos do conhecimento como teoria antropológica e história da baixa modernidade ganham inusitada utilidade analítica, na medida em que a política hoje passa a se parecer cada vez mais com configurações pré- e não-modernas. Eu utilizo vários desses textos e conceitos em minhas análises do populismo digital: etnografias de dinâmicas rituais, formas de organização política e sistemas epistêmicos em sociedades sem Estado, ou estudos em teologia política na passagem do modelo do Estado medieval para o moderno. Mas não apenas a política: a justiça começa a passar cada vez mais por formas de vigilantismo social, onde as pessoas fazem justiça com as próprias mãos em tribunais ‘espontâneos’ na internet – partindo, novamente, de uma percepção de que o sistema jurídico institucional não é capaz de cumprir seu papel.

Outras tendências contemporâneas vão no mesmo sentido: os apoiadores de Bolsonaro pedem o fechamento do Congresso por acreditarem que seja a única forma de instituir uma democracia real, baseada na vontade popular. Na epistemologia, o modo de aferir verdade começa a passar cada vez mais pela verdade do grupo (o que, no caso do populismo, significa do líder), por elos causais ocultos (que pode tomar a forma mais completa de narrativas conspiratórias), pelo que as pessoas podem ver, ouvir (em vídeos e prints na internet) e julgar a partir da sua trajetória de vida e da opinião das pessoas do seu grupo, por uma moralização e individualização na forma de compreender problemas sociais e suas soluções.

Notem que, em todos esses casos – da política, da justiça, do conhecimento sobre a realidade social e mesmo natural –, trata-se da substituição das mediações institucionalizadas do sistema de peritos moderno por outras, que invariavelmente passam pela internet e por algum tipo de mediação digitalizada. Essa coincidência ocorre porque a digitalização colapsa a diferença entre as esferas sociais, dando lugar a novas formas de realinhar experiência individual e coletiva. As lideranças populistas respondem ao desejo de ordem, segurança, verdade, liberdade, soberania sobre o próprio destino, esperança no futuro, que viceja em contextos de crise. E as mídias digitais propiciam esse realinhamento ontológico em torno de uma figura carismática, uma espécie de enorme fan base que coincidira com a comunidade nacional ideal: pura, livre dos elementos corruptos, indesejáveis, etc.

O problema é que, como no caso da justiça e da ciência, essa experiência, por parte dos usuários, de uma relação espontânea, não-mediada com a fonte da verdade (que, no caso do populismo, é a fonte da soberania popular) é um efeito ilusório desse tipo de mídia. A arquitetura dos ambientes digitais – que é, no limite, uma enorme caixa-preta – não é neutra, mas pensada e desenhada segundo princípios de marketing personalizado. É inevitável que esses princípios aos poucos contaminem, de modo imperceptível para os usuários, o modo como passamos a fazer política, justiça, ciência, e mesmo o modo como construímos nossa própria subjetividade e relações pessoais e afetivas.

Vejo isso como uma continuidade e intensificação do processo identificado por Michel Foucault ainda nos anos 1970, quando a lógica neoliberal passa a contaminar todas as esferas da vida. [Friedrich] Hayek previu que, na sua utopia neoliberal, as duas ordens supostamente espontâneas a organizar as sociedades seriam as leis do livre-mercado e a moralidade tradicional, baseada nas famílias. Se substituirmos moralidade tradicional por moralização pensada num sentido mais amplo, é efetivamente o que vemos hoje. A digitalização intensificou, expandiu e inflexionou o processo de neoliberalização. Hoje, é possível dizer que neoliberalização e digitalização são, na prática, o mesmo processo, que está contaminando e transformando todas as esferas da nossa vida.

IHU On-Line – Que relação podemos estabelecer entre Populismo e a nova direita, especialmente a brasileira? Por que vivemos o avanço desse populismo e não, por exemplo, de um populismo à esquerda?

Letícia Cesarino – Existe a hipótese do ‘populismo de esquerda’, e de fato muitas das lideranças emergentes de esquerda têm um estilo populista – nos EUA, por exemplo, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio Cortez. No sentido estrutural, por exemplo, vejo a Greta Thunberg como tendo um estilo de mobilização também populista. Afinal, ela emerge como uma figura autêntica (como ser mais autêntico que uma criança?), se colocando espontaneamente contra o establishment a partir do seu exterior (no caso, literalmente, deixando de ir à escola para sentar sozinha na frente do parlamento sueco), em oposição a uma elite autointeressada que coloca uma ameaça iminente ao futuro comum do ‘povo’. O povo, no caso de Thunberg, foi se mobilizando a partir de uma cadeia de equivalência inédita, protagonizada por demandas não-representadas no sistema político formal: crianças e jovens, e agentes não-humanos.

É interessante notar como, nos cartazes e palavras de ordem desse movimento, agência de pessoas e de elementos naturais costumam se misturar: ‘sea levels are rising; so are we’ (o nível dos mares está se levantando, nós também); ‘what I stand for is what I stand on’ (o que eu represento é aquilo no qual eu vivo), etc. Eu acho que há uma possibilidade promissora aí, mas não necessariamente funcionará em todos os países. A questão é que a eficácia do populismo não é apenas uma propriedade da inteligência e organização da estratégia de comunicação, mas deve remeter a um substrato de demandas – aquilo que será construído enquanto ‘povo’ – que de fato exista. E hoje, esse substrato é fundamentalmente neoliberal, num sentido amplo e também popular do termo.

Portanto, uma agenda eficaz para a esquerda, seja ela mais ou menos populista, deve partir dessa realidade, ou não conseguirá ganhar tração, por melhor que seja a estratégia de comunicação digital. No caso do Brasil, por exemplo, ao menos no momento atual a agenda ambiental não me parece muito promissora como chave principal para construir equivalência, devendo ser interseccionada com outras como emprego, saúde, segurança, etc. É preciso também que ela seja trazida para o plano da ‘eu-pistemologia’: ou seja, deve fazer sentido nos termos da vida quotidiana das pessoas, daquilo que elas podem ver, ouvir e aferir por si próprias.

Os nativismos e nacionalismos dos populistas da direita radical respondem bem a esse imperativo de ‘retomar o controle’ (take back control, como no slogan do Brexit) roubado por elites cosmopolitas autointeressadas que não estão nem aí pro povo, de relocalizar as cadeias de causalidade e responsabilização num mundo visto pelas pessoas comuns como excessivamente complexo e afastado da sua realidade. As pessoas veem o mundo dessa forma hoje pois as estruturas que mediavam realidades mais abstratas para elas – a ciência, o jornalismo profissional, etc. – estão hoje em descrédito. E, como Weber e outros notaram, o sistema de peritos moderno depende fundamentalmente da confiança para funcionar. Na minha visão, essa é uma vantagem eleitoral da nova direita – seu discurso está, sim, mais afinado com este substrato neoliberal até o momento. Notando que entendo neoliberalismo aqui por meio de suas modulações contemporâneas, que são moralizadoras, dessecularizantes, punitivistas, antiglobalização, etc.

IHU On-Line – Quais são as consequências desse populismo de nosso tempo? As redes sociais potencializam esses efeitos? De que forma?

Letícia Cesarino – Como apontei acima, não me resta muita dúvida de que a ascensão de lideranças populistas da direita radical em todo o planeta na última década encontra base fértil nos processos de digitalização. Isso não se resume às mídias sociais: a infraestrutura da nossa economia – tanto a financeirizada quanto a ‘real’, tanto a oficial quanto as ocultas – é cada vez mais digital. Mas as mídias sociais (nas quais eu incluo o WhatsApp, por causa dos grandes grupos públicos) são importantes pois fazem a interface desse sistema sócio-técnico mais amplo com as pessoas comuns. São as mídias sociais que, operando dentro de uma ecologia que inclui também sites de mídia alternativa, fóruns, buscadores, produzem o substrato para a ascensão populista. São elas que mantêm as pessoas na temporalidade de crise permanente (no sentido de serem bombardeadas constantemente com eventos que demandam atenção e intervenção, nem que seja um click) que é a base tanto dos populismos, quanto do avanço das políticas neoliberais e de operações de influência em formas de guerra híbrida.

Essa experiência de crise permanente é algoritmicamente produzida; para aumentar o tempo de tela dos usuários, algoritmos transformam hábito em adicção. Também são as mídias sociais que, algoritmicamente, promovem o individualismo hiper-relacional típico do neoliberalismo contemporâneo, ao ensinarem as pessoas a serem empreendedoras da própria subjetividade, a lutarem diariamente por reconhecimento e relevância, a se sentirem pequenos soberanos em seus feudos digitais, a se acostumarem a uma cadeia de comando onde um click gera o resultado pretendido, ao ver a realidade a partir das lentes de suas câmaras de eco, a confiarem apenas em si mesmas e no seu grupo.

É a internet que leva as pessoas a duvidarem de especialistas engravatados ao se sentirem capazes de ‘pesquisar’ (o que, na prática, significa googlear) sobre qualquer tema por conta própria. São elas que envolvem as pessoas num ambiente de alta equiprobabilidade, onde tudo pode ser verdadeiro (ou não), forjado (ou não) e, consequentemente, levam-nas a buscarem formas simples e imediatas de reduzir a complexidade do real e resolver os problemas, como as lideranças populistas.

Na base bolsonarista, por exemplo, me impressiona como as pessoas acham que todos os problemas do país poderiam ser resolvidos de forma simples por uma liderança moralmente pura; que o presidente está na ponta de uma cadeia de comando que parte do ‘povo’ (um tipo de democracia direta por vias digitais); que se tal ou qual ministro, ou mesmo o presidente, for ruim ‘a gente tira’. Minha impressão é que o que tem intensificado essa expectativa de imediatez – ou seja, de não-mediação – é a internet e as mídias sociais, e isso vai de encontro ao modo como a democracia institucional, a ciência, o devido processo legal funcionam.

IHU On-Line – Em sua pesquisa, a senhora se deteve nos movimentos do bolsonarismo no WhatsApp. O que mais lhe chamou atenção nessa investigação e o que esses movimentos bolsonaristas revelam sobre nosso tempo?

Letícia Cesarino – Há muito a ser dito aqui, mas no caso específico do WhatsApp, o que chamou mais atenção no caso brasileiro – comparado com outras operações de influência digital invisível, como o esquema da Cambridge Analytica, que usou dados de usuários do Facebook para microdirecionamento algorítmico em 2016 – foi como a campanha Bolsonaro conseguiu os mesmos efeitos de segmentação e microdirecionamento personalizado sem agência direta de algoritmos. É claro que o conteúdo disparado no zap fazia parte de uma ecologia de mídias mais ampla que inclui algoritmos: YouTube, Facebook, etc. Mas no aplicativo em si, quem realizou a distribuição do conteúdo dos grandes grupos públicos para a periferia da rede (zap pessoal, grupos privados, de família) foram os próprios usuários.

Todavia, nos meus trabalhos, ao fazer uma engenharia reversa do conteúdo da memética bolsonarista, tentei mostrar como esses efeitos de influência já estavam previstos no próprio design desses memes, vídeos, áudios, textos, etc. Num contexto como este, é muito difícil diferenciar autenticidade de fabricação; espontaneidade de manipulação; causa de efeito. O desafio regulatório que isso coloca é enorme, uma vez que o direito moderno trabalha com pressupostos claros (e hoje, acredito que desatualizados) de agência individual, causalidade linear, etc. num ambiente de coemergência de agentes e causalidades circulares e mútuas (recursivas).

É preciso, portanto, trabalhar com outras formas de conceber e identificar agência, e acho que a cibernética e teorias de sistemas ajudam bastante neste sentido, pois elas também estão na base desses desenvolvimentos tecnológicos. Por exemplo, a quantidade de conteúdo disparado na época da eleição foi absolutamente massiva, como mostram muito claramente os monitores de WhatsApp baseados em grupos públicos que operaram na época. Embora seja difícil rastrear a origem desses disparos, pois é um aplicativo criptografado, a análise metalinguística que fiz com base na teoria do populismo de Laclau e outras permitiu discernir apenas quatro ou cinco funções que estruturavam basicamente todo aquele conteúdo: produzir uma fronteira antagonística amigo-inimigo; produzir equivalência entre líder e povo; sustentar a mobilização por meio de ameaças iminentes; e construir um canal de comunicação exclusivo, atacando os concorrentes, como a universidade, especialistas, jornalismo profissional e formadores de opinião como a classe artística ‘liberal’.

Tudo isso estruturado de modo a passar uma mensagem simples por meio de formas linguísticas visuais, pouco abstratas; leis de associação que operam no plano subconsciente dos afetos, por exemplo, ligando certos termos e sensações (repulsa ou admiração, esperança ou medo) a rostos de pessoas, cores (verde-e-amarelo contra vermelho); produzindo divisões incomensuráveis entre amigo e inimigo por meio de mimese inversa – ou seja, mesma forma com conteúdo invertido.

Isso tudo num ritmo de mobilização extremamente intensivo, onde o WhatsApp era inundado diariamente por ondas massivas de novos vídeos, memes, textinhos, textões, áudios. Quem estava naquele ambiente basicamente não tinha tempo para pensar ou refletir sobre nada de maneira autônoma. Isso não pode ser apenas coincidência, obviamente.

Os padrões de design são muito claros e altamente redundantes; trata-se da mesma forma com variações infinitas de conteúdo, adaptáveis a cada situação e a cada segmento do eleitorado – no limite, a cada indivíduo, pois a psicologia da cognição mostra que somos nós mesmos que completamos o significado dos significantes (imagens, palavras) que chegam até nós. Quem fez o design desses conteúdos sabia disso: eles previam um ‘Bolsonaro’ ligeiramente diferente para cada tipo de eleitor; um largo espectro que visava lançar uma rede ampla sobre um eleitorado heterogêneo. E conseguiu.

Finalmente, um outro ponto importante que a análise estrutural ressalta e que também coloca grandes desafios regulatórios: a gramática populista não apenas replicou conteúdos, mas foi ela mesma replicada para os usuários, que passaram a mimetizá-la e repeti-la para fazer a campanha pelo candidato – especialmente depois da facada, quando se formou o que chamei do “corpo digital do rei”. Isso porque a arquitetura das mídias digitais, hoje, também é feita para operar em camadas cognitivas elementares e subconscientes de formação de hábitos, memória, afetos, etc.

A gramática populista da campanha Bolsonaro se fractalizou para seus eleitores nessa camada, por meio do que Gregory Bateson chamou de deuteroaprendizado. É como se cada eleitor tivesse se tornado um ‘Bolsonarozinho’ fazendo a campanha utilizando a mesma gramática populista disparada na memética. Eles mesmos se entendiam dessa forma: marqueteiros do Jair, fiscais do Jair, exército do Jair, escudo do Jair, robôs do Bolsonaro eram termos e hashtags amplamente circulados no que chamei, na época, de bolsoesfera. Padrões muito semelhantes foram observados no caso do Trump nos EUA, ou do Modi na Índia. Pode ser que haja compartilhamento de estratégias de comunicação digital entre essas lideranças da direita radical global, mas há também uma afinidade dessas estratégias com a infraestrutura das mídias digitais hoje.

IHU On-Line – Neste contexto de pandemia, e da politização da pandemia, como podemos apreender os movimentos do Populismo?

Letícia Cesarino – Basicamente, quando virou governo Bolsonaro (ou quem quer que gerencie suas redes sociais) manteve a mesma gramática populista da época da campanha. Porém, no novo contexto, ela parece ter tido um efeito contrário não de aumentar (como foi em 2018) mas de reduzir sua base de apoio. Em alguma medida, e muito por conta do núcleo bolsolavista, o mecanismo populista foi voltado ‘para dentro’, ou seja, para a busca de traidores e inimigos internos. Uma espécie de ‘purga’ interna ocorreu, visando testar a lealdade ao líder, a partir da qual muitos que se associaram ao bolsonarismo em 2018 acabaram abandonando o barco, como foi o caso de parte do próprio PSL, o lava-jatismo, alguns militares, e outros.

O tuíte de um influencer bolsonarista na época da saída do Moro passa bem a ideia, do ponto de vista deles: ‘o bolsonarismo não está diminuindo, está se lapidando’. Com a pandemia, isso se agravou, parece. Quem sobrou hoje no governo é quem realmente tem compromisso com o núcleo duro deste governo: o guedismo, o militarismo, boa parte dos evangélicos e os olavistas. Podemos dizer que esta é a configuração mais ‘pura’ do bolsonarismo: um ultraliberalismo reacionário.

Isso a meu ver se expressa na (não)gestão da pandemia, como apontei neste texto. A visão de Guedes e Bolsonaro de que é inevitável que pessoas morram, pois a economia não pode parar, parece ressoar com a visão de parte da população, pelo menos os bolsonaristas com quem interagi online durante a pandemia. É uma visão que, basicamente, aceita a equação neoliberal entre sociedade e mercado.

Chama a atenção como muitos sequer cogitam que trabalhadores informais e pequenos empreendedores tenham direito de serem apoiados pelo Estado para que possam fazer isolamento social durante a pandemia. Aceitam que o Estado brasileiro esteja totalmente quebrado e que não há de onde tirar dinheiro pois o mercado – que é a base da sociedade – parou. Esse é o discurso neoliberal contemporâneo, mas no Brasil ele encontra um lastro forte na nossa condição histórica de desigualdade extrema e abandono dos vulneráveis por parte do Estado.

A memética bolsonarista que tem circulado nas redes ajuda a complementar essa gramática ‘popular’ recolocando a figura do inimigo a quem uma culpa moral pela crise deve ser atribuída: a elite esquerdista hipócrita que faz quarentena em suas mansões enquanto deixa o povo passar fome; a China, que deixou que o vírus se espalhasse ou mesmo que o produziu ativamente num plano de dominação mundial; os governadores, o Congresso, o STF que sabotam os esforços do governo federal. A gramática antagonística permite que sempre haja alguém que não o líder para ser responsabilizado pelos problemas. Ela passa inclusive a enquadrar agências não-humanas: como a cloroquina e a ivermectina, que seriam ‘do bem’, e o isolamento social e a vacina do Paulo Lemann, que seriam ‘do mal’.

No caso dos enunciados do presidente durante a pandemia, me parece que ele tem focado na estratégia de manter alta a equiprobabilidade – ou seja, a impossibilidade de discernir o falso do verdadeiro. Em contextos de alta equiprobabilidade (uso aqui um termo da teoria da informação), é difícil fixar relações de causa e efeito, e portanto atribuir responsabilidades claras. Minha impressão é que Jair Bolsonaro está jogando justamente com isso, que é a base da pós-verdade que grassa hoje no ambiente da internet – onde é quase impossível falsear em definitivo um enunciado, já que qualquer um pode falar qualquer coisa, tudo pode ser fabricado (ou não), e não há autoridade, critérios ou procedimentos claros para as interações.

Um dia o presidente fala uma coisa, depois fala outra. Fala uma coisa e faz outra. Recusa-se a mostrar o resultado de um exame, meses depois mostra outro imediatamente. Explora a imprecisão da ciência durante a pandemia para recomendar terapias duvidosas, mas sempre de forma vaga e ambígua. Joga a responsabilidade para todos (governadores, Congresso, STF, ministros, China) menos para si mesmo. Tampouco apresentou um plano claro e articulado para gestão da crise – o que também é uma característica mais geral do neoliberalismo, que substitui a figura do planejador pela do empreendedor, a previsibilidade pelo risco, o futuro otimista do progresso pelo futuro incerto onde alguns sucederão, e outros não.

O livre-mercado, competitivo e desigual, torna-se uma metáfora para a própria agência do vírus, que é visto como fazendo, justamente, uma ‘purga’ espontânea dos fracos, daqueles que são um ‘peso’ para a sociedade: os idosos (que são, afinal, um fardo para a previdência social), pessoas com doenças crônicas (um fardo para o sistema de saúde), moradores de favelas e trabalhadores precarizados que não têm como fazer isolamento por conta própria (um fardo para a economia, para a segurança pública).

Aqui, meritocracia e necropolítica – para não dizer eugenia – caminham de mãos dadas na mesma gramática. O conservadorismo, especialmente evangélico, mostra toda a sua complementaridade com o neoliberalismo: são as igrejas e famílias que substituem funções do Estado no apoio e cuidado dos doentes, idosos, crianças, desempregados, indivíduos em condição de vulnerabilidade social, mental, financeira e outras.

IHU On-Line – Quais os desafios para se avançar em programas como o do auxílio emergencial e do Bolsa Família para mudanças mais estruturantes nas políticas econômicas e sociais, como a criação de uma renda básica universal? O Populismo pode inspirar saídas? Como?

Letícia Cesarino – Penso que, em si, o tipo de populismo que viceja hoje na internet, protagonizado pela direita radical, é mais um “sintoma mórbido” de uma transição em andamento do que uma saída – pelo menos, não na chave democrática. A ascensão da coalizão reacionária-neoliberal que Bolsonaro representa é de certa forma um reconhecimento de que a crise do e no neoliberalismo vai continuar, que o crescimento durante os governos Lula foi um último respiro de prosperidade num mundo onde perspectivas de progresso pessoal e social passarão cada vez mais pela chave do risco do que pelo chamado emprego fordista. É um mundo extremamente desigual que, ao mesmo tempo em que abandona os “perdedores” da corrida meritocrática para morrerem sem assistência do Estado numa pandemia, está prestes a produzir o primeiro trilionário da história (Jeff Bezos, da Amazon). Contra esse pano de fundo, o projeto da renda básica universal parece fazer sentido enquanto um potencial primeiro passo para a renovação da agenda da esquerda num mundo onde o neoliberalismo é, hoje, o ar que respiramos, e onde a inclusão plena pelo trabalho formal deixou de ser uma perspectiva viável.

 

Com base no que aprendi sobre o populismo digital bolsonarista, a agenda da renda básica universal me parece promissora por várias razões: permite ‘cortar’ a temporalidade de crise permanente de que se alimenta não apenas o próprio neoliberalismo, mas os populismos da direita radical; por ser universal, tem potencial para construir equivalência e interseccionalidade entre as agendas identitárias e dos sujeitos que não se reconhecem nessa gramática (a maioria da população brasileira); resguarda um valor central no neoliberalismo de hoje visto como positivo, inclusive entre as classes populares, que é a liberdade; e, enquanto política de Estado fundada numa tributação progressiva, poderia realinhar a população a um imaginário social comum, de que toda a sociedade está, no fundo, interligada.

É claro que seria apenas um primeiro passo, para ‘suspender’ um pouco a máquina de crise quotidiana do neoliberalismo e as pessoas poderem respirar, poderem parar para pensar e tentar planejar minimamente o próprio futuro e de suas famílias. Isso talvez ofereça as condições para a construção mais gradual de uma agenda ampla adaptada aos desafios contemporâneos, inclusive a questão ambiental e da precarização do trabalho.

IHU On-Line – Vivemos uma transição epocal e de paradigmas? Por quê? Quais os elementos presentes e como compreender este momento?

Letícia Cesarino – Que estamos numa transição, acho que não resta muito dúvida, a questão que fica é em qual camada histórica ela está se dando. Quanto mais conjuntural a análise que fazemos, mais ‘curta’ tende a ser a analogia histórica: com a ruptura do período militar, ou com os anos 1930 e a ascensão do fascismo, por exemplo. Por outro lado, quanto mais foco se coloca na infraestrutura, mais longe no tempo histórico tende-se a ir.

A perspectiva do Antropoceno talvez seja a mais longa, pois, ao circunscrever o domínio do próprio humano – na verdade, ao reconhecer uma inversão entre agência humana e natural – trata de uma transição entre épocas geológicas. Como eu trabalho com infraestrutura mais no sentido da coemergência entre o social e a técnica, com foco na estrutura de mídia, a analogia mais adequada me parece ser com o século XVI, quando foi desencadeada a transição entre o período medieval e o moderno. Neste período, a ‘descoberta’ do Novo Mundo – uma expansão inédita do horizonte de ‘mundo’ da Europa, como tem sido a globalização recente – coincidiu com a invenção da prensa tipográfica por Gutenberg na Alemanha, que permitiu a insurgência de Lutero e a ‘viralização’ do reformismo protestante, desencadeando um longo período de guerras de religião em toda a Europa. Quanto mais estudo essa conjunção de eventos, mais impressionam as analogias com o momento atual.

Essa instabilidade radical – que só na Alemanha, estima-se que tenha custado a vida de um terço da população – só começou a ser pacificada no século XVII em Vestefália, com a construção gradual de uma nova institucionalidade e fonte da soberania, a do Estado-nação secular, e todo o aparato jurídico, científico, etc. construído em torno dele. Mudanças infraestruturais profundas com a revolução digital e a globalização neoliberal parecem estar de fato desestabilizando este arranjo, que sustentou a modernidade ocidental durante 500 anos. A modernidade, e em especial o sistema de peritos, de fato está em risco; mas o capitalismo, não.

A crise atual é, no fundo, uma crise classificatória, de organização da ontologia do real. O atual período de transição é marcado pelo colapso de contextos entre esferas outrora diferenciadas pelo arranjo moderno, como mencionei acima. Quando essa organização não funciona mais para as pessoas, elas perdem a confiança num sistema que depende inteiramente disso para funcionar, e passam a buscar outras formas de organizar e entender seu mundo.

Deste ponto de vista, o atual momento lembra sim os momentos de crise e transição de paradigmas descritos por Thomas Kuhn, e os populismos da direita radical seriam anomalias que proliferam nesses contextos. Enquanto tais, elas dizem sim algo sobre o real, ainda que de forma distorcida. Períodos de transição desse tipo costumam ser longos e instáveis, até que uma nova normatividade se estabilize – incomensurável com, mas ao mesmo tempo englobando, a anterior (para colocar nos termos de Kuhn).

O pós-neoliberalismo terá que sair de dentro do neoliberalismo atual. Mas não há nada de predeterminado nisso; há muito lugar para agência histórica, para que esse “pós” não seja uma refeudalização pura e simples do mundo, como alguns preveem, ou uma ruptura radical marcada por guerras civis, como foi no século XVI. O importante para nós, no momento atual, é garantir que as mudanças infraestruturais não tragam ruptura institucional – que a animosidade e balcanização que vemos nas redes não transborde para o mundo offline.

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