Ensaio sobre o tempo des-esperado. A saúde mental em tempos de Covid-19

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02 Julho 2020

"A luta de classes se transformou em luta entre espécies. O rei está nu no tabuleiro da existência", escreve Irlan Farias, psicólogo formado pela Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ, mestrando em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e autor do livro "Falas e Falhas - interstícios da poética do desejo".

Eis o artigo.

O frio chegou na serra antes mesmo do inverno aportar. Se o calor em demasia irrita, o frio intenso deprime, paralisa mais até do que os motivos que temos para estar dispersos, pensativos, em tempos conjugados pelo verbo esperar. Miserável e impotente é a condição de ser conjugado por um verbo quando os dias que passam anulam cada vez mais o sujeito da oração. Quantas identidades se foram esperando um possível? Espera-se tudo, respiradores, leitos disponíveis, testes, auxílio emergencial, até mesmo a queda do presidente. Mas nem o meteoro resolveu aparecer.

Indefinições à parte, o “novo normal” se configura a cada dia como um grande inverno russo. Quase uma nova era glacial do ponto de vista econômico, político e de saúde mundial com a irrupção da pandemia. Há quem diga que após o derretimento das calotas polares (sob o efeito do aquecimento global) uma variedade de vírus que estavam hibernando (desconhecidos da ciência) está prestes a ganhar vida em busca de novos hospedeiros [1]. Devem estar ansiosos por viajar o mundo, expandirem-se quase ao infinito, num projeto de dominação absoluta para não restar pedra sobre pedra, especialmente ao poderoso ser humano, cujas convicções e garbo se veem inevitavelmente abalados. Quem diria que microrganismos iriam pôr em xeque os formadores de mundo [2]. A luta de classes se transformou em luta entre espécies. O rei está nu no tabuleiro da existência.

Em resumo, os sobreviventes do Covid-19 se verão obrigados a se constituir num “novo normal e ao mesmo tempo serão tomados de uma ansiedade permanente à espera da próxima bomba que cairá sobre as cabeças de todos: uma outra pandemia está a caminho e esta aponta para uma nova extinção em massa. Mas o ensaio não tratará sobre o colapso ecológico [3] que está em curso e que atingirá democraticamente a todos. Talvez, esperar saídas por um mundo melhor, na melhor das hipóteses, pode nos lançar ao clássico de Samuel Beckett "Esperando Godot" [4]. O que será preciso esperar mais além de tudo isso que se configura como fatídico?

Diante desse quadro obscuro que se avizinha, a pós-pandemia pode se configurar numa vivência epidêmica permanente entre nós. Não se sabe ainda que barreiras serão construídas para conter a disseminação do vírus, mas um efeito impossível de ser contido parece tão avassalador quanto o próprio vírus: o colapso da saúde mental. Não há quem não tenha sido afetado pela pandemia.

E falar em saúde mental é pensar a depressão como a espinha dorsal de uma epidemia global. Estima-se que milhões de pessoas são afetadas no mundo inteiro e, em casos crônicos, de forma permanente. Sabe-se que ela possui muitas variações. Comumente associamos depressão à tristeza. Não sem razões. É de fato um estado de tristeza profunda que muitas vezes não sabemos significar, dar signos, colocar em palavras o que sentimos. Ela é isso, mas não apenas. Inclusive, em certas circunstâncias, ela aparece no cenário como irritações em demasia, ausências de razoabilidade e parcimônia, onde tudo se torna amargo como a bílis produzida pelo fígado e que em certas ocasiões expelimos (por não haver mais nada para ser vomitado).

O sabor amargo não se esquece. É como nódoa em roupa clara. A amargura é esse sentimento que vem deste sabor nada aprazível. Ela tem íntima proximidade com a tristeza, mas também com a impotência, a raiva, a tirania. Todas as variações da paranoia também se aproximam da tirania. Tais como as certezas persecutórias, as vozes ouvidas pelo paranoico são igualmente da ordem do peremptório. Elas são reais para quem as ouvem. O paranoico é um escravo da sua própria tirania. Ele é refém da sua própria tristeza que não consegue simbolizar. Em algum momento essas variações se esbarram entre si formando uma espécie de aliança (mórbida). As incontáveis variações da violência nascem desse escopo autoritário. E o que se quer não é outra coisa senão alimentar potências destrutivas, posto que são genuinamente afetos negativos em plena descarga.

No fim das contas, raiva, irritação desmedida e, a certa medida, o ódio, antes de flertar perigosamente com a vileza a partir das formações reativas e paranoides, todos eles possuem um ancestral em comum: a tristeza. Esta, a quem se tenta negar a todo custo com o medo mortal que ela impeça a felicidade (essa entidade abstrata e fugidia) de aportar para todo o sempre. A tristeza desse ponto de vista é como uma doença contagiosa. Há de se fugir dela como o diabo foge da cruz. Há de preservar qualquer naco de felicidade miserável para não se deparar com este horror, nem que se tenha de produzir os mesmos horrores para se manter à devida distância dessa estraga-prazeres.

Acontece que a tristeza foi eleita como vilã sem tampouco sê-la. Mas quem será que a coloca a serviço das forças destrutivas? Em certa medida, as formações defensivas. Portanto, aquilo que deveria proteger acaba desviando-se para o ataque desmesurado ao outro e a todos que porventura se tornem ameaça à ideia de felicidade (satisfação) que se busca idealmente.

Então, estamos de algum modo sendo governados por essa pulsão de destruição que desvia o sentido da boa tristeza para algo terrível e inconciliável em si mesma, impedindo que ela propicie entendimentos e saídas possíveis diante do que não se pode mudar. Deste modo, as forças convulsivas aproveitam do caos e instalam em seu corpo uma espécie de defesa suprema. Arma-se contra tudo e contra todos num ritual de guerra para vingar-se da felicidade perdida. Diga-se, tal estado não é exatamente a fruição da chamada “pulsão de morte” trazida pelo médico vienense em seus aprofundamentos na psicanálise. Há nesta pulsão poderosas ações produtivas que sobrevém após o fim constituído.

O que assistimos hoje na emersão dos sintomas pandêmicos é a destruição plena de toda ideia de conciliação possível. Nada quer ser colocado no lugar. É suicidária, inclusive. Suicidar o outro antes de suicidar a si mesma. E nada disso tem relação com estrutura ou traço de personalidade. Se isso ainda existir é provável que tenha sido diluído em tantos outros (novos) sintomas fugidios, impossíveis de serem caracterizados seguindo o roteiro dos manuais de psicodiagnóstico. Não se trata mais de caracterizações fatídicas (diagnósticos fechados), nem mesmo como entendimento didático em sala de aula. Ver-se governado por sentimentos de irritação, inquietação ou até mesmo de intolerância (quiçá de uma pasmaceira paralisante) em plena pandemia, não o faz ser isso ou aquilo que se convencionou diagnosticar, mas, provavelmente (esse é ponto-chave) é ele próprio acometido de uma contaminação-outra, aquela em que tudo de pior que se assiste na absurda e conturbada cena política, acaba, por assim dizer, tornando-nos um duplo espelhado, uma dobra de si e do outro ao mesmo tempo, a partir do consumo desenfreado de informações, muitas das quais propositalmente falseadas para gerar reações emocionais automáticas (e virulentas).

Sim, isso é possível. Não é só o vírus da Covid-19 que está contaminando milhares de pessoas mundo afora. Tudo que nos causa espécie, a própria ausência de perspectiva, o mundo todo em suspensão, tudo isso acaba tragando todos para dentro do horror como se não fosse mais possível diferenciar o que somos do que estamos sentindo. Algo como ser tragado pelos olhos da cigana oblíqua e dissimulada, olhos de ressaca da Capitu puxando Bentinho inteiro para dentro do seu mar de perdição. Neste caso, quem nunca se perdeu de amores assim, não viveu o tamanho de uma vida inteira. Mas voltemos ao horror que é puro contágio. O absurdo político que temos visto todos os dias nos deixa tão perplexos e sem-lugar no mundo que os neofascismos acabam sendo naturalizados, como se tudo isso fizesse parte do ser humano. Mas quem pode dizer que o homem não seja exatamente essa aberração que se apresenta nestes tempos?

O que nos separa desse horror tornado cotidiano é por vezes uma fina película transparente de difícil admissão e clareza. Não sem razão. Não somos o que muitas vezes expressamos nos arroubos de descontroles pandêmicos. Mas, não ser, não impede de repetirmos gestos estúpidos que comumente denunciamos de tudo que vemos. É aí que se consolida este outro-contágio. A partir de massivos consumos de notícias do horror manifesto do qual não se consegue escapar. Isso tudo vai contaminando de uma tal forma que, sem perceber, a irritação passa a reger a pessoa nas mínimas situações do dia a dia. Tudo se passa como uma expressão manifesta de uma depressão que aportou no corpo a partir de uma sensação de esgotamento físico, de falência moral, onde tudo que se quer é agarrar-se a um fio de esperança. Estes são os tempos regidos pelo verbo esperar.

De algum modo perguntas inquietantes sobrevêm de roldão: seria a esperança uma espera que nasceu morta? Será mesmo que um substantivo (esperança) tornado verbo (esperar) é quem deve reger a oração? Não sabemos. Talvez, deva-se retomar o lugar do sujeito anulado para compor cada um ao seu modo a sua própria frase. Não exatamente um sujeito cognoscente, mas antes um sujeito arborescente. Uma espécie de devir arborescente em contraponto as identidades verdadeiras ou falsas.

Em outras palavras, o momento exige mais do que espera. Neste sentido é possível dizer que perder a esperança pode ser libertador. Difícil entender o desespero como potência libertadora (des-espero, aqui, no sentido de falta de esperança), mas esse é o desafio que o texto nos impõe. Eis o ponto: é na ausência da espera que corre-se o risco de se deparar com o agora. E é no agora, enquanto tempo finito, em que se dá a emersão do acontecimento. Se a espera nos impõe um vácuo infinito, o acontecimento, ao contrário, nos convida a habitar a realidade e a finitude das coisas, a transitoriedade da vida. É nesse ínterim que o tempo do agora se faz potência em direção ao ato. Sair da espera para habitar mundos possíveis. Fazer acontecer é redesenhar novos planos de voo. Só o acontecimento regido no agora é quem pode nos salvar do estado letárgico da espera.

Não é difícil prever que nada de bom fantasticamente ocorrerá se se não romper em definitivo com as espirais de contágio. Neste sentido, o isolamento é também um suporte fundamental para ajudar a socorrer dos sintomas mencionados. Bastas precisam ser dados. Não é possível permanecer num mundo de queixas infinitas sem adoecer muito seriamente. Sobretudo é preciso recusar adoecer da doença dos outros. Já bastam as de cada um. Barrar notícias, silenciar aliados, temporariamente ou não, isolar-se dentro da própria tristeza para que num diálogo íntimo com o silêncio possa resgatar-se a fim de costurar outros possíveis.

Se tem uma coisa que a doença nos faz é ser porta-voz de sua própria identidade enquanto a nossa fica anulada, assim como os sonhos e os planos pessoais. Se quisermos lutar por um mundo melhor é de vital importância que se reconstrua tudo de mais íntimo que deixamos para trás. Usar a tristeza como ferramenta de luta a favor de um agora e nunca mais torná-la um monstro feroz que arruína sonhos e projetos pessoais. A partir desse esforço íntimo e solitário, aos poucos, vale muito retomar as redes de cooperação coletiva porque outros contágios precisam se dar. Desta vez, não mais via retorno do recalcado, mas via aceitação dos monstros que cada um carrega consigo, tornando-os potência produtiva a favor de uma vida não-fascista. Antes que o ar nos falte como faltou para George Floyd, negro americano, morto por asfixia mecânica numa abordagem de um policial branco, culminando em levantes antirracistas por inúmeras cidades mundo afora sob o lema #BlackLivesMatter. Antes que o ar nos falte na fila de espera de um leito com respirador artificial, ou mesmo como a frase-Real do filósofo francês Gilles Deleuze “um pouco de possível senão eu sufoco”, em total consonância com as últimas palavras de Floyd com o joelho do policial sobre seu pescoço: “eu não consigo respirar”.

Tudo isso atesta com precisão cirúrgica o sentimento de todos nós – ainda vivos – e daqueles que partiram por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) que sequer puderam entrar na estatística de mortos por Coronavírus. É o dever de cada um fazer da tristeza um retorno visceral ao mais íntimo, antes que os mercadores da morte passem a cobrar (caro) pelo ar puro. Eles é que precisam ser sufocados por todos nós.

Notas:

[1] Link da matéria disponível aqui.

[2] Em Heidegger, vemos: “A pedra é sem-mundo, o animal é pobre de mundo e o homem é formador de mundo”.

[3] Conceito caro a Deborah Danowski em seu livro “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”.

[4] “Esperando Godot” foi a peça teatral considerada mais revolucionária e influente do Séc. XX inaugurando o “teatro do absurdo” que aborda o trágico da existência.

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