Bolsonaro substituiu Duterte e virou ‘pior vilão internacional’, diz Rubens Ricupero

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20 Junho 2020

O diplomata Rubens Ricupero diz não invejar o trabalho dos correspondentes de imprensa que têm de explicar para o mundo o que acontece no Brasil hoje. "A situação é de tal maneira grotesca que um alemão, um inglês, um francês não vai ter condição de compreender na sua dimensão real a tragédia que é aqui".

A entrevista é de Camilla Veras Mota, publicada por BBC News Brasil, 19-06-2020.

Para ele, a dificuldade do Brasil para controlar a pandemia de covid-19 e a postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro diante da doença contribuem para piorar a imagem do país, "que já não era boa".

As crises que cercam Bolsonaro, em sua visão, alçaram-no à posição de "pior vilão internacional", até algum tempo atrás ocupada pelo presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, que ganhou as manchetes depois de assumir o poder, em 2016, com uma controversa política antidrogas que resultou em milhares de assassinatos.

Ricupero atuou como diplomata por mais de 40 anos. Foi embaixador do Brasil em Washington entre 1991 e 1993 e ministro da Fazenda e do Meio Ambiente no governo Itamar Franco (1992-1994).

Na quinta-feira (18), ele divulgou uma carta aberta assinada com outros 8 ex-ministros do Meio Ambiente em que expõe a "ação anticientífica do governo federal", que transformou "o desafio da covid-19 na mais grave tragédia epidemiológica da história recente do Brasil".

"A sustentabilidade socioambiental está sendo comprometida de forma irreversível por aqueles que têm o dever constitucional de garanti-la", segue o documento, que solicita ao Procurador-Geral da República "que adote as medidas jurídicas cabíveis para barrar iniciativas de estímulo à degradação do meio ambiente promovidas pelo governo federal" e que examine "com imparcialidade e presteza as denúncias de crimes de responsabilidade potencialmente cometidos pelo ministro do Meio Ambiente".

Rubens Ricupero. (Foto: Roque de Sá/Agência Senado)

Eis a entrevista.

A União Europeia já sinalizou, por conta da situação da pandemia aqui, que deve barrar a entrada de brasileiros quando começar a reabrir as fronteiras. O que o Brasil perde ao ser visto como um país que não consegue controlar o avanço da covid-19?

Isso vai aprofundar o isolamento. Os EUA já adotaram essa medida em relação aos voos provenientes do Brasil - e já há algum tempo. Essa preocupação de que o Brasil perdeu o controle da doença e de que pode contagiar outros países que estão de certa forma mais protegidos é praticamente universal.

Os três presidentes dos países do Mercosul - da Argentina, do Uruguai e do Paraguai -, já manifestaram de público a preocupação com o descontrole da pandemia no Brasil e adotaram medidas nas fronteiras.

Então, se amanhã a União Europeia fizer isso, provocaria talvez não uma mudança de substância, mas no plano psicológico acho que seria um golpe forte, dados os laços que o Brasil tem com países europeus.

A situação do país hoje, na sua avaliação, muda de alguma forma a visão que o mundo tinha sobre a gestão Jair Bolsonaro? A gente sabe que a imagem do Brasil foi um pouco maculada por conta das queimadas na Amazônia

Acho que "pouco" é um eufemismo... Muda pra muito pior. E a imagem já era ruim, antes mesmo da pandemia.

Veja você, não se trata apenas da questão ambiental. Antes da pandemia, todo mundo sabia que o Brasil tinha um presidente que fazia apologia da tortura, apologia da ditadura militar, que é apoiado por grupos de milícias violentas, que usam a mídia social para destruir os outros, é um indivíduo misógino, inimigo entranhado dos indígenas, que diz que não assinaria a concessão de um metro a mais de reserva indígena, inimigo dos quilombolas.

Enfim, ele é aquilo que, na Antiguidade, na época dos romanos e dos gregos, se dizia: "Ele é inimigo do gênero humano".

É um indivíduo extremamente odioso nas suas características. Tanto assim que, em pouco tempo, ele desplantou como pior vilão internacional o Duterte, das Filipinas. Hoje em dia ninguém fala do Duterte. Acho que o Duterte está até feliz que está esquecido.

A situação do Brasil é extremamente humilhante e triste. Eu não invejo a posição de alguém como um correspondente internacional que tem que tentar explicar o Brasil ao exterior. A situação aqui é de tal maneira grotesca que um alemão, um inglês, um francês não vai ter condição de compreender na sua dimensão real a tragédia que é aqui.

No âmbito das relações internacionais, o Brasil se mantém alinhado às posições americanas. Como o senhor avalia a diplomacia brasileira em relação aos EUA?

Ela é um desastre absoluto, porque, como diz meu colega e amigo Celso Amorim, o ex-ministro do Exterior (do governo Lula), não se trata, como se costuma afirmar, de um alinhamento automático - é uma submissão automática, é uma subserviência automática.

O Brasil obedece às diretrizes nas coisas mais inacreditáveis. Por exemplo: recentemente, o presidente chegou a dizer que pretende sair também da Organização Mundial da Saúde (alguns dias antes, o presidente Trump havia ameaçado retirar os EUA da OMS). Até agora, não deu sequência a isso.

É uma situação deplorável, porque nós temos essa submissão sem nenhuma explicação - porque nós não precisamos dos americanos, nem para proteção, como é o caso de alguns países, e nem no sentido econômico, comercial.

Talvez o único lado positivo da crise brasileira é que nós não precisamos de socorro financeiro, o Brasil tem reservas muito grandes e, em matéria de comércio, a China é hoje nosso maior mercado.

Para o Brasil, a China é vital. E um dos aspectos mais absurdos da atual política externa brasileira é que ela é visceralmente hostil à China por razões ideológicas.

É um grupelho que tomou conta do Itamaraty, que é ligado ao Olavo de Carvalho, que tem uma concepção de Guerra Fria completamente anacrônica - só que em vez de ser União Soviética, a China substituiu a União Soviética como grande polo do que eles chamam de o maoísmo chinês. O Mao Tsé-Tung já morreu há 40 anos, e aqui eles ainda acham que ele é que está dando as cartas.

É uma situação que é difícil até de discutir racionalmente, porque não tem nenhuma racionalidade.

A relação do Brasil com a China pode ter sido prejudicada pelos comentários feitos por ministros como Abraham Weintraub e pelos filhos de presidente? A China é conhecida por ser bastante pragmática, mas episódios recentes suscitaram respostas enérgicas da Embaixada do país no Brasil...

Acho que essas reações foram uma advertência. E não é só o Abraham Weintraub, naquela reunião do dia 22 de abril (incluída no inquérito que apura eventual interferência do presidente na PF), que foi depois divulgada, a parte que não foi publicada continha pesadas ofensas à China da parte do próprio presidente.

Os chineses tiveram até uma atitude, eu acho, madura. Eles não se deixaram levar pela provocação. Ao que eu saiba, não houve nenhuma retaliação no sentido de deixar de comprar produtos brasileiros.

Mas, por outro lado, isso tem um limite. Mesmo que não haja daqui por diante nenhuma agressão adicional, a relação foi quebrada, a confiança não existe mais. O Brasil pode, na melhor das hipóteses, manter o status quo, as vendas que faz - porque, como vende alimentos, a China também tem interesse em comprar.

Mas não acredito que nós possamos melhorar qualitativamente as relações. Não acredito que a gente possa, por exemplo, obter atração de investimentos para infraestrutura - que o Brasil vai precisar para sair da crise. Duvido muito que a China vá fazer isso para favorecer o Brasil. Ela vai adotar uma atitude, como já está adotando, mais propícia à Argentina, que é um país que tem um relacionamento mais amistoso com a China.

Acho que o Brasil está complicando muito o seu futuro, porque não tem alternativa, compreende? Se você pudesse dizer: a China pode ficar zangada conosco, mas tudo o que nós vendemos à China vamos vender aos americanos. Não vamos, porque eles são nossos competidores.

Vai vender pra quem? Ainda vende pra União Europeia, mas mesmo a União Europeia é um mercado em perigo, por causa do meio ambiente.

Acho muito duvidoso que esse acordo Mercosul-União Europeia vá adiante, porque não há condições para que os Parlamentos o ratifiquem. Os Parlamentos irlandês e austríaco já votaram moções contrárias ao acordo...

O embaixador alemão também comentou recentemente que nossos números do desmatamento não ajudam nesse sentido.

Não ajudam. Eu tenho a impressão de que o mais provável é que esse acordo vai ficar numa espécie de terra de ninguém, num limbo. Eles não vão rejeitar, mas também não vão aprovar, esperando que o Brasil dê mostras de que fala sério quando anuncia esse "ambientalismo de resultados". As perspectivas não são boas. Veja você se as eleições americanas produzirem um resultado da vitória dos democratas.

O que isso significaria pro Brasil?

O Brasil vai ficar sozinho. O Joe Biden (candidato democrata) já deu declarações de crítica ao desmatamento da Amazônia, ele tem um compromisso muito grande com a ideia da agenda da economia verde, muito mais do que o Obama (de quem foi vice-presidente).

Se ele for eleito, vai mudar. Aliás, já está mudando: você viu que há poucos dias os democratas que dominam a comissão de Ways and Means (Orçamentos e Tributos) da Câmara - que é poderosíssima, é a comissão da qual depende todo o comércio exterior - mandaram uma carta ao USTR (United States Trade Representative, representante comercial da Casa Branca) dizendo que se opunham a qualquer negociação de melhora comercial com o Brasil, porque o Brasil viola, eles dizem, não só o meio ambiente.

Então, com quem o Brasil vai comerciar?

O senhor comentou sobre a influência de Olavo de Carvalho no governo. O chanceler Ernesto Araújo é um dos seus ditos "discípulos", assim como Filipe Martins, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais. Como o senhor avalia o impacto do "olavismo" nas relações exteriores brasileiras?

É uma pena que justamente seja no Ministério do Exterior que essa influência talvez seja mais forte. O Abraham Weintraub... na verdade o próprio Olavo de Carvalho tem maltratado o Weintraub. Ele o trata com muito desprezo, porque ele não tem expressão, é um homem, como se sabe, inteiramente ignaro.

A pobre da Damares (Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos) então, essa nem se fala, nem entra nisso. O homem do Meio Ambiente (Ricardo Salles) é um indivíduo nefasto, mas mais porque ele é aliado aos ruralistas, não é por ideologia, é mais por interesses.

Portanto, o que sobra mesmo de núcleo ideológico é na área internacional. No ministério e na assessoria internacional - que é justamente onde isso não deveria acontecer, porque é nas relações internacionais que se deve ter objetividade, se deve ter aquele tipo de atitude em que o que conta é o interesse nacional.

E não se deve, sobretudo, ceder a teorias que são completamente conspiratórias.

Eu costumo dizer sempre que essas ideias do (chanceler) Ernesto Araújo e dos seus sequazes nos EUA fazem parte do que os americanos chamam o "lunatic fringe", que são aqueles loucos que você tem, assim, no interior do Colorado, que vivem dentro de uma floresta... são uns doidos que vivem na periferia de tudo.

E se alguém acha que eu estou exagerando, basta que entre na internet e acompanhe os seminários da Fundação Alexandre de Gusmão, que é a fundação oficial do Itamaraty, que todo dia tem um doido desse tipo.

Ontem, por exemplo, tinha um, que é diretor da Biblioteca Nacional (Rafael Nogueira), que dizia com veemência que o nacionalismo não teve nada que ver com o desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Você vê, eu que sou professor de História, se um sujeito dissesse uma coisa dessas eu seria obrigado a reprovar in limine.

Alguns embaixadores têm feito defesas calorosas do governo. Houve o caso do embaixador em Paris, que escreveu ao Le Monde defendendo o combate à pandemia, o embaixador em Luanda, que chegou a entrar em conflito com um ex-ministro angolano pelos jornais. Quais notícias o senhor tem de como está o clima no Itamaraty?

O ambiente é péssimo. Eu direi a você, sem muito medo de exagerar, que a imensa maioria dos diplomatas, talvez mais de 90%, não acredita nessas teorias.

Mesmo aqueles que são sem caráter - e são consideráveis -, eles são suficientemente cínicos para verem que isso é um amontoado de asneiras.

Só que há um grupo que é sem caráter e é carreirista, que quer manter o seu posto, quer estar bem com o governo. Esses fazem qualquer negócio, até matam a própria mãe se for necessário. Mas isso é como em toda profissão, tem gente assim. Tem gente que não tem nenhum respeito próprio e está disposto a lamber as botas dos poderosos, de fazer essas cartas que nós vimos.

A maioria tenta se manter calada, tenta sobreviver. Muitos estão agindo sob coação, e procuram, na medida do possível, preservar a sua consciência tentando não se acumpliciar com isso.

Mas às vezes eles recebem ordens como essas, de mandar cartas. O que eu sei é que, quando eles recebem ordens de mandar as cartas, a carta tem que ser submetida ao gabinete do ministro, porque o gabinete do ministro ainda agrava os termos, para tornar ainda mais humilhante a coisa.

Faz parte desse momento de degradação que o Brasil e o Itamaraty estão vivendo.

Como pesquisador, professor de História, o senhor enxerga algum paralelo entre o momento atual e a trajetória da diplomacia brasileira?

Não, nunca. Eu acabei de publicar, em 2017, um livro que chama Diplomacia na Construção do Brasil, que é a história desde a época colonial. Nós nunca tivemos, mesmo na época colonial, (um momento) em que a diplomacia brasileira era gerida por Portugal... Portugal sempre teve uma diplomacia de grande qualidade, a escola diplomática brasileira é herdada da portuguesa.

O Brasil nunca teve, no passado, atos dos quais se poderia envergonhar. É a primeira vez. Nós não temos nada semelhante, nem nos piores momentos.

Por exemplo, no período da Regência, depois da abdicação do primeiro Imperador, em que a situação interna brasileira ficou quase que uma situação de caos; no começo da República, que houve a Revolta da Armada... mas mesmo nessa época sempre havia uma continuidade, havia quadros que mantinham a tradição do Itamaraty. Dessa vez se perdeu inteiramente.

E é triste ver que isso se faz pelas mãos de um funcionário de carreira, não é nem um interventor de fora, é um Quisling (Vidkun Quisling, político norueguês que colaborou com o regime nazista quando Hitler invadiu a Noruega), é um colaboracionista de dentro. É um indivíduo que se presta a esse papel.

Como o senhor vê a autonomia e o posicionamento do chanceler, colocando em perspectiva a influência que um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, tem sobre a política externa brasileira?

Entre o Ernesto Araújo, o Eduardo Bolsonaro, o Filipe (Martins), os outros, não há diferença. Eles são todos fanáticos da mesma seita.

É possível até que, se houvesse uma divergência entre eles, o Ernesto teria que se submeter, mas acredito até que espontaneamente ele já é submisso. Porque é farinha do mesmo saco. Não vejo muitas diferenças entre eles, nem que alguns deles esteja com consciência de manter um espaço autônomo.

Como o senhor definiria a política externa do Brasil hoje?

É uma política totalmente alienada da realidade internacional e brasileira.

Porque a base de toda política externa é uma visão da realidade, do meio em que você vai agir. Uma interpretação correta desse mundo, de quais são seus problemas, suas ameaças, mas também suas oportunidades.

Esse é o primeiro ponto. O segundo é: dentro desse quadro internacional da realidade, essa política externa tem que definir os objetivos nacionais. O Brasil não está ameaçado por ninguém. Ele não tem problemas de segurança, não tem porque se preparar para uma guerra.

Qual problema do Brasil? É o subdesenvolvimento, o crescimento econômico, a inclusão social. Para isso, ele precisa crescer na sua economia. E pra isso ele precisa de mercados, de investimentos.

A gente deveria estar mais focado em atrair investimentos, então?

Atrair investimentos que permitam aumentar as exportações, conquistar novos mercados.

Ora, o Brasil faz exatamente o contrário. Esse pessoal que tá no governo, eles têm uma visão, que é uma realidade virtual, de que o mundo é uma conspiração contra a cultura judaico-cristã, uma conspiração de certas forças obscuras, como o globalismo das Nações Unidas, que querem impor as políticas de gênero, querem impor o casamento gay, o aborto... querem destruir a família. Eles acham que o mundo é isso.

Eles não veem que o mundo é outra coisa, muito mais complexa, em que há o problema da competição China-EUA, mas uma competição na qual o Brasil não tem por que escolher um lado ou outro, porque o nosso interesse é ter boa relação com ambos.

É uma política externa alienada do mundo, porque tem uma visão distorcida, de um mundo que não existe - a não ser na fantasia do Olavo de Carvalho e de outros.

 

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