Em sua “evolução” humana, Romero é um santo para o nosso tempo

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27 Março 2020

Muito antes de ser canonizado, Romero era para muitos um santo por aclamação. Ele era santo não por causa de alguma conexão sobrenatural ou por reivindicações de milagres, nem mesmo por martírio, embora essa fosse a realidade. Ele era santo por elevar o Evangelho como uma base para se opor à atividade de um Estado esmagadoramente católico.

A reportagem é publicada por National Catholic Reporter, 26-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O problema de ser canonizado é que a santa designação tende a obscurecer imediatamente a humanidade do santo, a realidade comum de carne e osso que respondeu ao chamado a atos extraordinários de amor.

É uma tendência a se resistir a todo o custo ao comemorar o 40º aniversário do assassinato de São Óscar Romero, arcebispo de El Salvador. Não foi o momento da sua morte que o definiu como um santo – dezenas de padres e religiosos, como sabemos, morreram nas mãos de esquadrões da morte assassinos em El Salvador –, mas sim a vida e o testemunho que o colocaram, enquanto ele celebrava a missa, na mira de um assassino.

Chris Herlinger, correspondente internacional do Global Sisters Report, faz estas convincentes perguntas em sua recente reportagem de El Salvador: “Qual Oscar Romero está sendo homenageado? O Santo? O humilde padre? O católico martirizado? Um homem sepultado na história em um tempo e em um lugar específicos, ou um exemplo vivo para um país que ainda lida com o legado e os efeitos de uma guerra civil de décadas?”.

A resposta, é claro, envolve todas as opções acima. Romero não é divisível por tema, ou função, ou por um único período de vida. Foi o jovem sacerdote humilde – e, de acordo com aqueles que o conheceram, às vezes nem tão humilde e muito exigente –, um pregador já formado, que se tornou bispo e depois arcebispo.

Foi a consciência gradualmente despertada de um clérigo – atuando em uma cultura eclesial profundamente dividida dentro de um país profundamente dividido – que alimentou a sua análise e a sua resistência afiadas ao status quo.

Como escreveu o jornalista e antigo residente de El Salvador Gene Palumbo, em 2018, a transformação de Romero não foi, como muitas vezes retratada, uma reação repentina ao assassinato de um amigo padre, o jesuíta Rutilio Grande. Ao invés disso, ela ocorreu durante o seu tempo como bispo em uma área rural longe da capital, anos antes do Pe. Grande ser assassinado.

Desconhecido para muitos, até mesmo para quem o conhecia, escreveu Palumbo, “Romero mudou durante uma estadia prolongada, em meados dos anos 1970, longe da capital. No início dos anos 1970, como bispo auxiliar em San Salvador, ele era visto como altamente conservador. Esse foi o período em que ele despertou a ira dos padres, que ficaram muito incomodados com a notícia da sua nomeação como arcebispo. Mas, em 1974, ele foi nomeado bispo da diocese rural de Santiago de María. Lá, ele se aproximou dos agricultores e das catequistas que eram alvos dos militares. O que ele viu o levou a uma grande mudança de perspectiva”.

O próprio Romero descreveu a transformação como uma “evolução”.

Imagine o terrível medo com o qual Romero viveu durante anos, enquanto abordava a atividade assassina de ambos os lados das divisões militar e política à medida que a guerra civil salvadorenha progredia. Imagine o terror que ele teve que superar diariamente diante de cada decisão de enfrentar a insidiosa opressão do governo e a atividade dos notórios esquadrões da morte.

Em seu próprio país, a imprensa o rotulou de comunista. Ao norte, o poderoso governo dos EUA fornecia equipamentos aos militares e treinava tropas que, no fim, seriam acusadas de graves violações dos direitos humanos, geralmente contra a população civil.

É bem conhecido o registro de seus sermões e as corajosas transmissões de rádio reprimindo a violência e a repressão, particularmente a transmissão dirigida às forças de segurança do país no dia anterior ao assassinato. Mas ele foi, acima de tudo, um pastor.

O profeta, neste caso, também se dedicava à instituição. O diário que ele manteve durante dois dos seus três anos como arcebispo é um registro extraordinário do fio dourado do seu cotidiano. Sua última anotação no diário, no dia 20 de março de 1980, quatro dias antes da sua morte, foi o relato de um dia de reuniões sobre questões orçamentárias e de pessoal, uma reunião e eleições da Cúria, discussões de questões envolvendo a burocracia diocesana, com um desejo de uma maior unidade da Igreja que perpassava tudo isso.

No fim das quase duas páginas do ditado gravado, seus pensamentos voltam novamente a “esta situação que me preocupa em relação à situação financeira e à administração da nossa arquidiocese”.

Muito antes de ser canonizado, Romero era para muitos um santo por aclamação. Ele era santo não por causa de alguma conexão sobrenatural ou por reivindicações de milagres, nem mesmo por martírio, embora essa fosse a realidade.

Ele era santo por elevar o Evangelho como uma base para se opor à atividade de um Estado esmagadoramente católico. Ele resgatou o catolicismo do seu papel como um suporte que conferia respeitabilidade ao poder e à riqueza. Ele o recolocou em seu papel apropriado como uma expressão da fé em um Deus de misericórdia e em um Cristo que habita com os humildes. Um santo apropriado, em toda a sua “evolução” humana, para o nosso tempo.

 

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