São Romero, um mártir da América Latina

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25 Março 2019

A canonização de Monsenhor Oscar Arnulfo Romero Galdámez é importante para todos os habitantes da América Latina, e não só para nós, católicos. Este pastor representa o martírio do século XX dos pobres do campo e da cidade, além do desenvolvimento de um pensamento que penetrou a teologia, a filosofia e as ciências sociais atuais.

Dom Romero (Foto: Vatican News)

O artigo é de Rodrigo Larraín Contador, professor da Universidade Central de Chile e Mestre em Teologia pela Universidade Latina de Teologia, dos Estados Unidos, publicado por Reflexión y Liberación, 24-03-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Em um país como “El Salvador”, assolado por guerras civis e hoje pelas quadrilhas, o arcebispo deu mostras de que era possível anunciar o Evangelho em meio a condições de desumanidade. Óscar Romero não fez nada mais do que lhe pedia sua condição de cristão e sacerdote: lutar pela justiça, apoiar os pobres e dar testemunho do Senhor da Vida. Mas nessa tarefa teve que lutar contra opositores e inimigos dentro da mesma Igreja: o novo beato não foi um homem envolvido na luta política, foi assassinado pelo “ódio à Igreja” desatado pelos opressores. Romero morreu por sua fé, suas ideias éticas e pelo compromisso que renovou dia a dia: por amar o próximo e, sobretudo, por seu amor preferencial pelos pobres.

Mas a morte do beato recém-proclamado demorou muitos anos para ter efeitos, já que a guerra civil se desenvolveu posteriormente a sua morte. Vários anos mais tarde, seus amigos, como o padre Rutilio Grande, sacerdote jesuíta (S.J), e outros da Companhia de Jesus foram assassinados. Estes eram altos funcionários e acadêmicos da Universidade Centro-americana José Simeón Cañas. De fato, o mais importante do grupo foi o padre Ignacio Ellacuría, cujo legado filosófico e teológico marca até hoje os intelectuais desses temas. Suas origens estiveram no pensamento do filósofo vasco Xavier Zubiri, a fenomenologia de Husserl e a formação clássica da escolástica. Não obstante, quando descobriu a história da América Latina e mergulhou na brecha sociológica de compreensão da vida e da sociedade de El Salvador, seu pensamento se voltou para a Teologia da Libertação. Mas dar testemunho verdadeiro e consequente do Senhor tem riscos, o martírio inclusive.

Todos eles foram vistos com maus olhos pelo pontificado anterior, que proibiu seus textos, além de não permitir que ensinassem em universidades católicas; objetados por razões bastante menores, claro que apresentadas em uma linguagem diabólica, elíptica e pouco categórica. Alguns deles foram criticados por apresentar um Jesus humano demais.

Se estes sacerdotes não tivessem sido intelectuais e tivessem se concentrado na defesa dos direitos humanos unicamente, como ocorreu no Chile, a hierarquia romana teria sido mais benevolente, mas cometeram o “erro” de elaborar uma teologia que deixou em um segundo plano a europeia, feita ao lado do Vaticano e por monsenhores com pretensões de escrever a grande teologia do século XX, a nova escolástica, o que, evidentemente, ainda não aconteceu.

Que na América Latina se estivesse pensando, escrevendo e vivenciando uma teologia era inconcebível. Contudo, a que ficará na história será a teologia latino-americana e uma de suas linhas é a Teologia da Libertação. As ciências sociais latino-americanas receberam o aporte destes teólogos.

Desde que o padre Louis Joseph Lebret começou a falar de Sociologia do Desenvolvimento na França, Teoria da Dependência, além da incipiente Teologia da Libertação, o papel de instituições como Ilades no Chile, a UCA em El Salvador, mais outras iniciativas na Colômbia, somadas à presença de sacerdotes como o padre Joseph Henry Fichter, SJ, ensinando sociologia em nosso continente, a Igreja conseguiu incidir no desenvolvimento intelectual e social de um modo significativamente benéfico e alcançou um capital moral como nunca havia tido. Isso é o que se condensa em Dom Romero: uma igreja robusta no aspecto moral, com um magistério respeitado e considerado.

Procissão relembra o aniversário da morte de Dom Romero (Foto: Vatican News)

No entanto, hoje se perdeu sua capacidade de influenciar na realidade social de nossos países. Quem leva em conta suas afirmações sobre matrimônio, família, sexualidade, moral econômica, solidariedade, honestidade, entre outros? O que aconteceu com a catequese e com a pastoral? Por que a evangelização não parece dar frutos? A que se deve o fato de que há mais igrejas e sacerdotes nas regiões de maiores recursos? Por que hoje não há vocações à vida consagrada provenientes de escolas municipais? Outras perguntas mais podem ser feitas.

Quando eu era menino, lembro que pouca gente ia à missa, menos ainda nos dias de semana. A maioria ia às devoções, como no mês de Maria, ou a peregrinações de algum santuário. Ou seja, a multidão assistia aos sacramentais e a elite ia à missa. Naqueles tempos as pessoas ricas podiam se encontrar nos bairros Yungay, Brasil e República, onde tinham igrejas favoritas, ainda não tinham fugido das passagens das cordilheiras. Em algumas ocasiões os via ali e pensava: “quando for adolescente serei como esse jovem do banco da frente; quando adulto serei como esse senhor de mais adiante; quando velhinho como esse idoso que se aproxima para comungar”.

Isso porque nós, os cristãos de missa, éramos endogâmicos, de grupos muito reduzidos de pessoas. A massificação veio com o Concilio Vaticano II. As igrejas se encheram de violões, coros, além de classes sociais: pobres, ricas e medianas, de atividades pastorais gigantescas, de crianças pequenas (corações e almas valentes), de estudantes (a JEC, a JOC, a paróquia universitária), sacerdotes capelães das pastorais especializadas (chamados de consiliários), freiras com variedades incríveis de hábitos que se modernizavam a cada dia (na verdade eram religiosas e não freiras), bispos brilhantes e padres profissionais.

De fato, alguns descobriam o amor e partiam, mas nunca abusaram de crianças nem se corromperam. Era uma época em que os santos podiam ser encontrados na rua (quem duvidaria que Monsenhor Alvear fosse um). Hoje já não, e não vale a pena comparar. Mas há também perguntas doutrinais a fazer, como: acreditará na divindade de Cristo um clérigo pederasta contumaz? Crerá nas condições para o perdão dos pecados?

Óscar Arnulfo Romero é um sinal de esperança em um continente cheio de desigualdades e infectado de injustiças. Também o é para uma Igreja que olha a secularização crescente com indiferença sem saber o que fazer. Por sua vez, o povo, que é sempre bom e fiel, há muitos anos já o teria canonizado como seu santo sem complicar a vida pelos retorcidos caminhos burocráticos, e o chamariam “São Romero”.

São Romero, por favor, roga por nós, por tua Igreja e pelas Ciências Sociais da América Latina.

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