Itália. O coronavírus e os xaverianos de Parma: “Todos os dias, um de nós morre. Por favor, ajudem-nos”

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25 Março 2020

Um deles, quase todos os dias há duas semanas, morre em silêncio na cama do seu quarto. Eles vão embora rezando entre os lençóis da “casa”, a sede internacional dos xaverianos em Parma, Itália, quartel-general dos missionários acostumados a dar a volta ao mundo para levar ajuda e que, agora, talvez por dias demais, estão trancados entre quatro paredes e morrendo.

A reportagem é de Giacomo Talignani, publicada por La Repubblica, 24-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Chegamos a 13 mortos em 15 dias. Não é normal”, diz o Pe. Rosario Giannattasio, superior regional da Pia Sociedade de São Francisco Xavier para as Missões Estrangeiras, (Nota do IHU: conhecidos como padres xaverianos, com presença também no Brasil), ao telefone com o La Repubblica.

Ele fala dos mortos, do isolamento, de “zero contato com o exterior, para não colocar os jovens e os outros em risco”. Sequer a equipe externa, na sede de Parma, continua trabalhando.

“Estamos sozinhos, todos fechados aqui. A comida chega até nós por um elevador. Comemos a dois metros de distância um do outro. Rezamos. Ficamos doentes e morremos. Mas agora alguém tem que vir nos ajudar.”

Porque, além dos mortos, há também uma dezena de doentes. “Cerca de seis no andar abaixo de onde eu estou agora, e mais cinco, eu acho. Ninguém fez os testes aqui dentro, nunca. Estamos ficando pela metade. Não posso dizer que é o coronavírus. Mas o que você quer que seja? Falta o oxigênio, eles não respiram. Aqui ninguém fez os exames.”

Ele explica que tudo “começou há cerca de 15 dias: os primeiros doentes, depois os primeiros sacerdotes que começaram a morrer. Entre nós, que devemos ser cerca de 50 missionários aqui, se excluirmos o pessoal, contamos normalmente quatro a cinco mortes por ano, no máximo seis. Agora, foram 13 em poucos dias. Não sei o que dizer. Quase todos morreram aqui, apenas alguns no hospital”, explica ele com a voz embargada.

Entre os últimos que faleceram, estão o Pe. Stefano Coronese (88 anos), desde sempre próximo do mundo dos escoteiros, e o Pe. Gerardo Caglioni (73 anos), conhecido pelas suas missões no México e em Serra Leoa.

Antes deles, lemos na longa lista no site dos xaverianos o adeus aos padres Luigi Masseroni, Giuseppe Scintu, Gugliemo Saderi, Giuseppe Rizzi, Piermario Tassi, Vittorio Ferrari, Enrico Di Nicolò, Corrado Stradiotto, Pilade Giuseppe Rossini, Nicola Masi e outros ainda.

São todos sacerdotes que passaram a vida nos lugares mais distantes do mundo para levar conforto e depois voltaram para Parma, para a grande sede, “para continuar as suas vidas. A idade média dos xaverianos é 75 anos – conta o Pe. Rosario –, e muitos deles vieram para cá depois de terem viajado por 40, até 50 anos. E agora foram embora assim, no silêncio dos seus quartos”.

Houve silêncio desde o início, mais de duas semanas atrás. Depois das primeiras mortes, os xaverianos contam que intuíram que algo estava errado. Então, a equipe de serviço foi mandada para casa. Também foi mandada embora uma enfermeira “talvez positiva para o coronavírus”. Nada de cozinheiros, assistentes, equipe de limpeza e lavanderia ou dos escritórios das missões estrangeiras: todos os “empregados” da sede não podiam mais entrar, até mesmo por causa dos decretos do governo.

“Fechamos tudo e nos fechamos dentro.” Assim, criou-se lá, entre os corredores e os quartos, um “lazaretto”, sem praticamente nenhum médico, “exceto um de nós, um missionário que completou 25 anos em Bangladesh”. Um elevador com comida cozinhada por uma empresa de catering traz a comida.

“Quanto ao resto, nos viramos entre nós, mas a situação piorou. Agora precisamos de ajuda, que alguém venha. Também escrevemos para o prefeito, dissemos às autoridades. Precisamos de uma intervenção rápida. Venham higienizar, porque está claro que o vírus circula aqui.”

Ele explica que, há alguns dias, não tendo visto ainda “ninguém que se apresentasse aqui para nos ajudar, mesmo que um médico tenha vindo depois, decidimos falar com a mídia, dizer o que está acontecendo. Digam, vocês também, que precisamos de uma mão. Daqui nós não saímos. Lá fora, há 15 rapazes do seminário, os estudantes de teologia: não queremos correr o risco de encontrá-los, de infectá-los. Mas precisamos de alguém que venha nos tratar, nos salvar”, confessam os últimos salvadores de almas que permaneceram na sede.

 

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