Caráter pessoal de Deus

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14 Novembro 2019

"A ação criadora não é própria das criaturas, portanto não podemos nos iludir de entendê-la e expressá-la bem, mas apenas de maneira analógica, atribuindo a Deus as diferentes modalidades das ações criadas (material, formal, eficiente e final), mas unificando-as de maneira transcendente que é a presença criadora contínua de Deus".

A análise é de Carlo Molari, teólogo italiano, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, publicada por Rocca, Nº 22, 15-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Um assinante de Rocca (Dario Beltrame) me enviou uma carta onde escreve: “A nossa religião acredita em um Deus pessoal, aliás, em um Deus em três pessoas, e a riqueza dessa imagem inspira e apoia a centralidade de nossa fé. Percebo em conhecidos e amigos, com a generalização de uma mentalidade técnico-científica, uma simpatia pelo panteísmo, um pouco no estilo new age, que se abandona à sugestão de uma energia difusa da qual nós participamos. Existem fundamentos (filosóficos, teológicos, antropológicos) para afirmar que, se existe um Deus, ele pode ser apenas pessoal e não um conceito genérico de energia distribuída? Pode me indicar algumas leituras que me ajudem a aprofundar esse aspecto?".

Dada a importância do tema e também a sua complexidade, penso que é apropriado responder com um artigo no qual esclarecer a experiência subjacente à fé em Deus. Experiência de força ou de energia vital. Acredito que o dado fundamental da jornada de maturidade da fé seja constituído pela experiência de força ou de energia que nos sustenta. Existe, portanto, um fundo de verdade na tendência generalizada de recorrer à categoria de energia para descrever nosso relacionamento com Deus, mas por si só não nega seu caráter pessoal. Se o homem chegou ao exercício da liberdade e da consciência e, em seu processo de crescimento, desenvolve sua identidade pessoal, com mais razão ainda se deve atribuir essa perfeição ao princípio que alimenta o processo criado. Por outro lado, a terminologia da energia é usada também nas Escrituras Hebraicas, no Novo Testamento e na liturgia cristã.

Jesus se referiu a uma experiência semelhante quando, em polêmica com os saduceus, afirmou: "Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, porque todos vivem por ele" (Lc 20:38). Além disso, Jesus se movia nesse horizonte, como aparece no episódio da mulher que sofria de sangramentos há doze anos e tocou com fé a orla de sua capa. Jesus perguntou "quem me tocou?"

À intervenção de Pedro: “Mestre, a multidão te aperta e te oprime”, Jesus respondeu: “Alguém me tocou, porque bem conheci que de mim saiu virtude." Então, vendo a mulher que não podia ocultar-se, aproximou-se tremendo e, prostrando-se ante ele, declarou-lhe diante de todo o povo a causa por que lhe havia tocado, e como logo sarara. E ele lhe disse: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou; vai em paz. " (Lc 8, 43-48).

Também a oração na convicção de Jesus está em função da energia necessária para enfrentar de maneira positiva as dificuldades da vida: "Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer” (Lc 21,36). São Paulo sempre recorreu à terminologia da potência ou da energia divina sempre em ação: "Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus" (2 Cor 3, 5); "Porque é Deus quem, segundo os seus desígnios benevolentes, opera em nós a vontade e a obra" (Filipenses 2:13). Existe de fato "um só Deus e Pai de todos; o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós" (Ef 4: 6). Por isso, ele dirige o convite aos fiéis de Éfeso: "fortaleçam-se no Senhor e na força de seu poder" (Efésios 6:10) e aos atenienses falando do Deus desconhecido, a quem eles haviam dedicado um altar (Atos 17, 23), recordava: "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (Atos 17, 28). Para Timóteo, ele escrevia: "Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças, para que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada" (2 Tm, 4,17).

O Concílio Vaticano II também recorreu à terminologia de energia ou da força na Declaração sobre Religiões Não-Cristãs, quando escreve que "entre os vários povos, há uma certa sensibilidade daquela força arcana que está presente no curso das coisas e nos eventos da vida humana e, aliás, algumas vezes se reconhece como a Divindade Suprema ou até mesmo o Pai" (Nostra Aetate n. 2 EV 1, 856).

Deus pessoa. O termo pessoa que se refere a Deus é limitante para os desenvolvimentos que teve na história.

Creio, portanto, que a experiência de fé no Deus criador, pode ser expressa coerentemente na perspectiva evolutiva, recorrendo à terminologia da “força” ou “energia” atribuída a Deus em favor do homem. No sentido atual, afirmar que em Deus há três pessoas corre risco de heresia de "triteísmo" porque Deus é um só com uma única natureza, uma única vontade e um único intelecto.

O uso latino do termo pessoa em um contexto cristão impôs-se com Tertuliano no sentido de rosto e analogamente de máscara e de papel na sociedade. Inicialmente, portanto, serviu bem para expressar as dinâmicas trinitárias em Deus. Os cristãos gregos usavam duas palavras diferentes para expressar a multiplicidade no único Deus: prosopon (os antioquianos) e hypostasi (os alexandrinos) com o risco de mal-entendidos mútuos. Os latinos usaram o único termo pessoa. Mas, na Idade Média e, sobretudo, na modernidade, o termo adquiriu um significado mais denso, de acordo com a definição escolástica de racionalis naturae individua substantia (substância individual de natureza racional). A esse fato, correspondeu para muitos a convicção equivocada de que as palavras humanas pudessem manter seus significados intactos, enquanto de fato todas as palavras sofrem mudanças contínuas. As coisas ficaram ainda mais complicadas quando as fórmulas antigas foram confrontadas com culturas diferentes.

O padre Luciano Mazzocchi, por muitos anos um missionário cristão no Japão, enfrentou essas dificuldades quando resumiu com suas palavras algumas expressões de Endô Shûsaku, autor de Chinmoku, o romance histórico que serviu de base para o filme Silêncio. Eis como expressa a experiência do falecido escritor japonês: “Deus não é uma entidade que exista em si, mas energia que opera dentro de nós. Cheguei a esse entendimento em certa idade, quando pude observar o rastro da minha vida como um pássaro do alto vê a distensão do vale. Compreendi que Deus não age em mim diretamente, mas indiretamente. O olhar dele me percebe pelos olhos de um amigo, de uma pessoa que encontro ou de quem me separo, até mesmo através dos olhos molhados de um cão ou de um pássaro moribundo "(de Il curriculum di uno studente bocciato). Ou: "O homem, ao longo de sua vida, invariavelmente se depara com situações que não podem ser enfrentadas ou superadas apenas pela vontade humana. Mas é justamente nessas situações em que tudo parece um fracasso que o homem experimenta que algo atrás dele persiste em mantê-lo em pé, em dar-lhe o desejo de superar e seguir em frente. Algo invisível aos seus olhos, uma energia oculta (de Lo specchio dei diecimila fiori)". (Pensamentos retirados de uma reflexão desenvolvida depois de assistir ao filme Silêncio, em Passi. Diario di un pellegrino: Vangelo e Zen, Paoline, Milão 2018 pp. 139-140).

Certamente, essa experiência também pode ser expressa incorretamente. Isso acontece quando se considera a própria experiência como absoluta e se nega outras modalidades de traduzir a realidade de Deus. É verdade que ainda existe o risco de interpretar o termo energia ou força em um sentido imperfeito e não transcendente e de assumir uma atitude incorreta em relação à ação divina. Mencionei várias vezes nesta coluna que não podemos falar de Deus e de sua ação como falamos das criaturas. Estas operam manipulando as realidades materiais. Deus não opera de tal maneira, mas oferece às criaturas a possibilidade de agir e a alimenta ao longo de sua história.

A ação criadora não é própria das criaturas, portanto não podemos nos iludir de entendê-la e expressá-la bem, mas apenas de maneira analógica, atribuindo a Deus as diferentes modalidades das ações criadas (material, formal, eficiente e final), mas unificando-as de maneira transcendente que é a presença criadora contínua de Deus.

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