Doutrina trinitária: o desafio do jesuíta Roger Lenaers. Artigo de Carlo Molari

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22 Março 2018

“Quando dizemos que Deus é Pai, Palavra, Espírito, referimo-nos à modalidade com que, vivendo a dependência de Deus no tempo, tentamos descrever sua experiência vivida: isto é, a acolhida de uma Palavra que vem do passado, a espera de um Espírito que irrompe do futuro, diante de um Princípio (Pai/Mãe) do qual, a todo instante, acolhemos o dom da vida, pelo qual crescemos como seus filhos. Com as fórmulas trinitárias, simplesmente expressamos a experiência da relação com Deus vivida no tempo.”

A análise é do teólogo italiano Carlo Molari, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma. O artigo foi publicado por Rocca, n. 7, 01-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

Gostaria de refletir sobre o desafio à doutrina trinitária cristã, sobre a qual o idoso jesuíta Roger Lenaers (nascido em Ostend em 1925) parece proceder de modo muito convincente, mas também, talvez, de modo superficial.

Em seu livro Il sogno di Nabucodonosor o la fine di una Chiesa medievale [O sonho de Nabucodonosor ou o fim de uma Igreja medieval] (Massari, Bolsena, 2009; tradução italiana revista e ampliada pelo autor, que publicou a primeira edição flamenga em 2001), ele dedica um breve capítulo ao problema trinitário intitulado “Igual em tudo. A doutrina trinitária de Constantinopla” (pp. 151-162).

Referindo-se ao segundo Concílio Ecumênico, Lenaers declara abertamente sua própria surpresa com as suas decisões relativas às três hipóstases ou pessoas divinas em uma única ousia ou essência. Ele se pergunta com base em que os bispos convocados a Constantinopla em 381 chegaram a essa conclusão: “Seguramente, não com base em uma visão direta de Deus. Mas, de novo, com base em textos bíblicos sobre o Espírito de Deus que eles interpretaram de tal modo, mesmo que esses textos tivessem sido interpretados de modo diferente durante três séculos, marcadamente como expressão do sopro de Deus e da energia criadora. Os textos agora novamente explicados serviram, consequentemente, como argumento irrefutável para a sua asserção. Nós, porém, há muito tempo deixamos para trás essa maneira de ler e entender as Escrituras” (ibid., p. 161).

Ele está convencido de que, “com isso, o pilar central da doutrina cristã da fé parece entrar em colapso com um tombo pesado. E, na sua queda, inevitavelmente, traz consigo outras duas antigas pilastras da ortodoxia: a doutrina clássica da Trindade e a atribuição do título de ‘Mãe de Deus’ à mãe de Jesus” (p.151). Mas ele insiste em defender a necessária mudança porque “deveria ficar claro que foram demolidas apenas suas formulações heterônomas, porque não têm mais espaço na modernidade crente” (ibid., p. 162).

Na recente entrevista concedida a Claudia Fanti e publicada na revista MicroMega (“Heresia católica: um jesuíta contra o Deus onipotente”), Lenaers tenta se justificar da acusação que lhe foi dirigida acerca de sua ortodoxia e lança um desafio: “Fui criticado por não falar da Trindade, que, no fundo, é apenas um dogma desejado pela maioria do Concílio de Constantinopla de 381. E que não apenas não aparece no Símbolo dos Apóstolos, mas certamente também não representa o coração de nossa fé. A Igreja floresceu por 300 anos sem esse dogma. Desafio qualquer um a explicar esse dogma trinitário a meninos e meninas de 14 anos, portanto aos nossos crismandos, de maneira que ele possa lhes parecer como uma boa notícia, como algo que pode enriquecer suas vidas. E isso é a única coisa que importa. Poderíamos dizer-lhes mil vezes (como disseram a nós) que existe apenas um Deus em três pessoas, mas isso permanecerá como uma fórmula vazia, um jogo de palavras. Sejamos honestos: que papel desempenha o dogma da Trindade na nossa vida e na nossa oração?” (MicroMega, n. 8, 2017, p. 147).

Porém, a formulação trinitária representa o desenvolvimento da experiência cristã, isto é, da fé em Deus vivida “mantendo o olhar fixo em Jesus” (Hb 3, 1; 12, 2). No entanto, é preciso recordar que ela não tem a pretensão de descrever a realidade divina, mas sim de traduzir a experiência humana de fé em Deus que se desenvolve no tempo. Ela não fala da realidade de Deus, mas do nosso modo de viver a relação com Ele.

A fé trinitária

Jesus é a referência histórica das fórmulas trinitárias: Ele é a epifania do Pai, a encarnação do Verbo e o dom de seu Espírito.

Não podemos saber o que é Deus e devemos calar sobre o que Ele é (teologia apofática). Com a fórmula trinitária, dizemos a confiança em Deus vivida pelos homens no tempo. Se o tempo na criação tem três dimensões reais, podemos também supor que o tempo reflete de algum modo a realidade divina, mas não podemos saber o que ele corresponde em Deus.

Portanto, não temos a pretensão de dizer o que é Deus. Por outro lado, se tivéssemos a pretensão de traduzir a realidade de Deus com as nossas palavras, seria um Deus mesquinho, um Deus limitado à medida dos nossos sentidos, dos quais derivam todas as nossas palavras.

Quando dizemos que Deus é Pai, Palavra, Espírito, referimo-nos à modalidade com que, vivendo a dependência de Deus no tempo, tentamos descrever sua experiência vivida: isto é, a acolhida de uma Palavra que vem do passado, a espera de um Espírito que irrompe do futuro, diante de um Princípio (Pai/Mãe) do qual, a todo instante, acolhemos o dom da vida, pelo qual crescemos como seus filhos. Com as fórmulas trinitárias, simplesmente expressamos a experiência da relação com Deus vivida no tempo.

O crente acolhe o presente da ação criadora do Princípio que o leva à identidade filial (“gerado de Deus”, 1Jo 4, 10), defronta-se com a Palavra que se tornou evento, relato, escrita, interpretação, e espera a irrupção do futuro do Espírito, que desenvolve os dons da filiação divina. A espiritualidade cristã, nesse sentido, é a capacidade de viver intensamente o tempo, como o âmbito da ação divina em relação a nós.

Por isso, é fundamental aprender a viver o tempo diante de Deus, para descobrir a que riqueza pode nos levar, que força de vida pode ser comunicada e podemos acolher vivendo o desdobramento da nossa existência na sua presença.

É preciso partir da dupla convicção de que não podemos saber o que é Deus e de que, em toda tentativa de formulação da realidade divina, sempre expressamos a experiência de sua ação em nós.

Ela se desenvolve no tempo e, nas criaturas, assume formas distintas pelas quais distinguimos o Princípio, do qual tudo procede, o Logos que tudo revela e o Espírito que tudo unifica.

Não podemos saber o que tudo isso corresponde em Deus. É importante que identifiquemos o que isso representa para nós. E que, para nós, é necessário distinguir os vários aspectos da perfeição divina como podemos captá-la e identificá-la.

Outro dado importante que Lenaers parece ignorar é que o termo latino persona (pessoa), ao longo da história, mudou de significado.

Quando foi introduzida na cristologia, entretanto, ela indicava o papel exercido pelo sujeito através da referência à máscara que o ator geralmente usava na recitação teatral. No uso teológico dos séculos, o termo foi curvado cada vez mais para o significado ontológico de um sujeito inteligente. Por causa disso (desta vez, o próprio Lenaers observa corretamente), a fórmula cristã foi muitas vezes entendida no sentido politeísta de três deuses.

Deus é amor antes da criação

Para outro aspecto negligenciado, Lenaers poderia ter se referido ao coirmão jesuíta Medard Kehl (nascido em Berlim em 1942), professor de teologia em Frankfurt, que considerou que poderia desenvolver uma espiritualidade trinitária da criação.

Ele escreve:

“Eu acho que um modelo desse tipo se encontra na ideia de que Deus, como plenitude infinita de todo o bem, concede a nós, criaturas distintas dele, um espaço para a nossa existência autônoma. Não um espaço ‘ao lado’ dele; não pode haver algo assim junto ao Deus infinito. Mas, certamente, um espaço em si mesmo que distinga inequivocamente Deus e o mundo um do outro (como Criador e como criatura) e que, todavia, os uma um ao outro de modo que nada de mais íntimo possa ser pensado... Como criaturas, nós vivemos em Deus e, no entanto, não somos Deus, nem mesmo uma centelha divina, mas seres distintos dele, dotados de autonomia: esse paradoxo é pensável somente se Deus é em si mesmo amor que abre espaço para o outro. Quando a Bíblia diz: ‘Deus é amor’ (1Jo 4, 8), isso não é, em primeiro lugar, porque Deus criou o mundo como seu próprio parceiro. Deus não precisa do mundo para começar a amar. Deus é amor antes da criação, porque o amor é sua essência íntima, independentemente de qualquer relação com a criação finita. Deus não cria o mundo para poder amá-lo, mas o contrário é verdade: como ele é amor desde sempre e como quer participar da alegria desse amor, Deus cria o mundo” (M. Kehl, Creazione. Uno sguardo sul mondo. Bréscia: Queriniana [gdt 355] p. 197).

“O Deus da fé cristã, portanto, é em si mesmo relação: uma relação que não se refere a si mesmo, nem (em sentido mítico-politeísta) a três ‘deuses’ diferentes, nem (em sentido filosófico esotérico) a uma última unidade divina desprovida de distinções. Os cristãos creem que Deus é amor, e isso significa: entender Deus como relação, como amizade e diálogo, como comunicação e comunhão, como ‘Pai’, ‘Filho’ e ‘Espírito Santo’. Portanto, como Deus é desde sempre em si mesmo vida em relação, há em Deus, desde sempre, espaço para a alteridade e a diversidade. Assim, o mundo finito pode ser criado dentro desse espaço infinito do Amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (ibid., p. 169).

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