Deus é pessoa? Um diálogo com Vito Mancuso

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16 Novembro 2011

A propósito da existência de Deus e da sua demonstração, Vito Mancuso se difunde amplamente com o desenvolvimento de várias argumentações. As suas posições são muito claras. Ele defende que a razão pode demonstrar a existência de um ser ou de um bem absoluto, mas não o seu caráter pessoal. A descoberta de um Deus pessoal, defende ele, só pode ser alcançada com argumentos desenvolvidos no interior da experiência de fé (em particular, mas não só, cristã), argumentos, portanto, válidos apenas para os crentes.

A opinião é do teólogo italiano Carlo Molari, ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Rocca, 15-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu continuo a reflexão iniciada sobre o último livro de Vito Mancuso (Io e Dio. Una guida dei perplessi, Ed. Garzanti, 2011). Um segundo problema sobre o que eu quero me deter, depois de ter examinado o da relação comunitária (Nós e Deus), refere-se ao caráter pessoal de Deus.

A propósito da existência de Deus e da sua demonstração, Mancuso se difunde amplamente com o desenvolvimento de várias argumentações. As suas posições são muito claras. Ele defende que a razão pode demonstrar a existência de um ser ou de um bem absoluto, mas não o seu caráter pessoal. A descoberta de um Deus pessoal, defende ele, só pode ser alcançada com argumentos desenvolvidos no interior da experiência de fé (em particular, mas não só, cristã), argumentos, portanto, válidos apenas para os crentes. Examinemos brevemente o significado e as motivações dessas posições.

Existe um Absoluto

Mais de uma vez, Mancuso repete que não deve haver dúvidas sobre a existência de um Ser, de um Bem, de uma Vida absolutos. É inegável que exista "o ser-energia (...) dentro do qual todos chegamos à existência, ao qual todos caminhamos e no qual todos, com a morte, seremos absorvido. Emergimos do ser-energia como de uma fonte (...) e a essa mesma fonte, no fim pensável como porto, retornaremos quando a nossa liberdade não existir mais. Esse é um simples dado de fato" (p. 108-109). "Se afirmarmos Absoluto = Ser, é evidente que o Absoluto existe" (p. 109).

Refletindo desse modo, no entanto, chegamos "só àquilo que comumente é chamado de Ser ou também de Totalidade, Absoluto, Uno, Tudo" (p. 109). "Se entendermos isso, é claro que Deus existe, é evidente que existe. Ele é o Deus de Spinoza sobre o qual se estrutura toda a sua Ethica" (Ibid.). Ele o repete pouco depois: "É claro que o bem, no sentido de "bonum", existe (...) Aquilo do qual eu posso conhecer a existência refletindo seriamente com a minha razão é o que Pascal chamava de Deus dos filósofos e também se poderia chamar de Absoluto, Sumo Bem, Uno, Tudo. É a cifra de muitas outras especulações" (p. 110).

Deve-se notar que, embora "evidente" ou "um dado de fato", entretanto, não é óbvio que essa Realidade Suprema seja afirmada por todos, porque, em todo caso, a aquisição e a consequente afirmação são resultado de experiências vividas com consciência, é uma interpretação racional da vida, que permite viver em plenitude, mas que, como tal, também poderia não ser alcançada.

Mancuso qualifica essa experiência como espiritual e a relaciona às "outras formas mediante as quais a dimensão espiritual chegou à expressão, como a pintura, a escultura, a dança, o teatro, a poesia, a música" (p. 114). São "invenções humanas", "mas o horizonte descerrado por essas disciplinas inventadas pelos homens não é necessariamente falso. É falso para quem não tem ideia do que está em jogo, para quem não sente essas dimensões do ser considerando-as só um bizarro passatempo ou um profícuo investimento. Mas, para quem vive por elas, às vezes por elas sofre de fome e lhes dedica toda a vida, não existe nada de mais real e concreto. Trata-se de invenções, sim, mas no sentido etimológico do termo" (p. 114), isto é, "descobertas" da realidade profunda da vida. "Inventar, na sua raiz latina (invenire), significa "se deparar com algo, encontrar, descobrir". A invenção é sobretudo descoberta" (p. 115).

Assim como acontece com muitos cultores da ciência que descobriram energias e leis da natureza antes desconhecidas e não utilizadas, assim também no mundo do espírito humano existem possibilidades de "invenções". Para exemplificar, Mancuso retoma o fascínio da beleza. "Quem já teve uma experiência "estética" real sabe que se tratou ao mesmo tempo de algo "estático", que lhe fez sair de si para uma dimensão maior, pré-existente, com relação à qual, no entanto, não se sentiu estranho, mas sim copertencente" (p.115).

Isso vale para todas as experiências "espirituais": "Quando saímos de nós, sem nos perdermos, no entanto, mas nos encontrando em um nível mais alto"; isso vale, por exemplo, para "a emoção puríssima que uma poesia, um quadro, uma música, uma oração, uma carícia faz surgir dentro de nós". Mancuso se pergunta: "Como nomear essa dimensão maior à qual, no entanto, sentimos pertencer: reino da suprema beleza, da harmonia completa, da paz do coração, da boa luz do ser?" (p. 115). Ele responde: "O complexo de termos como "Deus, divino, divindade" encerra os símbolos mais eficazes "inventados" pela mente humana para nomear essa realidade envolvente, materna e paterna, que se descerra à mente e ao coração em algumas experiências vitais peculiares (...) Tais imagens buscam trazer ao pensamento (...) uma realidade que existe desde sempre", através delas "o espírito (...) toca o profundo do homem" (p. 115-116). É verdade que Deus é "invenção" humana "no que diz respeito ao conceito, mas isso não implica que a realidade a qual o termo Deus se refere seja falsa" (p.114). Na verdade, a concretude da experiência induz a certeza da sua existência. O Bem, a Vida, a Verdade, a Beleza existem de forma plena forma e se expressam de modo parcial e fragmentário em nós.

O caráter pessoal de Deus é um dado de fé

Porém, Mancuso nega que essa realidade absoluta que é alcançada refletindo sobre as várias experiências humanas já possa ser descoberta como "pessoa", isto é, dotada de conhecimento e de amor. A realidade divina que se alcança refletindo sobre a força que sustenta o processo vital é impessoal, é o "poder neutro do ser-energia" (p. 108): "Asim, eu chego não a Deus, mas chego a Deum"" (p. 109), àquilo que Santo Anselmo designava como "aquilo sobre o qual não é possível pensar algo maior". O absoluto que é alcançado com a reflexão da razão, "esse bonum impessoal, não será cognoscível com certeza racional como bonus, como Deus pessoal" (p. 110). Se, portanto, "pretendemos dizer que acima dessa totalidade onicompreensiva do ser-energia, ou fora dessa totalidade, ou dentro dela, em uma dimensão mais profunda, ou sabe-se lá onde mais ainda, existe um ser pessoal a quem é possível se dirigir dizendo Abba Pai, então não é mais evidente, não o é por nada, que tal Deus exista" (p.109). A realidade que é alcançada não é "o terno Abba Pai de Jesus. Jamais se poderá conhecer racionalmente a sua existência. Com todo o respeito ao dogma católico" (p. 110). Mancuso nega, portanto, que, nesse estágio, o divino possa ser o fim de uma relação pessoal, possa ser invocado, bendito, louvado, adorado.

O Deus pessoal, como o da tradição judaico-cristã, só é conhecido pela revelação e só é encontrado no exercício da fé. Sem essa experiência pessoal, não se pode afirmar a existência do Deus acreditado pelo testemunho de Jesus Ele conclui: "Estou dizendo, em certo sentido, que Deus só existe para quem o faz existir. Quem o faz existir terá encontrado uma ponte entre a sua fome e sede de justiça e o sentido último do mundo: "verus pontifex maximus"" (p. 428).

Poderia suscitar confusão o fato de que o caráter pessoal de Deus seja defendido com clareza por Mancuso e seja argumentado com o mesmo tipo de raciocínio com o qual ele afirma a existência evidente de um Absoluto. Ele escreve: "A minha fé em Deus se determina como fé em um Deus certamente pessoal, dado que, enquanto "princípio de todas as coisas", Deus também está no princípio da personalidade que, portanto, não deve e não pode ser excluída do seu ser" (p. 79). Por esse aspecto, Mancuso resume a sua posição com as palavras de Immanuel Kant: "Embora se vejam obrigados a desistir da linguagem do "saber", ser-lhes-á suficiente uma linguagem, que ainda lhes resta, de uma sólida "fé", justificada pela mais rigorosa razão" (Crítica da Razão Pura [1781], citada na p. 108). Ele também lembra que o mesmo filósofo, no prefácio à segunda edição da sua famosa obra, escrevia: "Portanto, tive que suspender o saber para dar espaço à fé" (Ibid [1787], citado na p. 114).

Como se vê, trata-se de uma "linguagem da sólida fé": ela se desenvolve, porém, apoiada por uma "rigorosa razão" e segue as regras da argumentação lógica. A experiência de fé começa e se desenvolve por dinâmicas de testemunho que precedem a razão, embora a envolvam no seu desenvolvimento e na análise do seu fundamento. O exercício da fé não nasce por conclusão de raciocínios, mas a razão entra em ação quando o crente busca a motivação das suas escolhas e pretende explicar o seu fundamento. Talvez, se deveria acrescentar que até quem não vive a fé já pode partir da consciência da própria tensão vital e do exercício do próprio amor para argumentar que o Todo que o envolve e o sustenta é um Tu que, conhecendo-o e amando-o, pode conduzir para lá onde a vida tende como a cumprimento.

Parece-me que, no fundo, esse é "o desafio que espera a teologia cristã contemporânea" (p. 426). São alguns dos muitos estímulos preciosos que o livro do jovem teólogo pode oferecer à busca atual de Deus. A sua difusão pode favorecer essa busca, percebida em várias partes.


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