Amor trinitário. Será que não falta a aplicação desse paradigma nas disciplinas dos cursos de Teologia?

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23 Fevereiro 2018

"A reflexão do Papa soma-se ao nosso desafio de contemplar, pelo menos um pouco, sobre os conteúdos das disciplinas aplicadas, e o quanto em cada uma delas a essência do Amor Trinitário aparece numa dimensão de resposta – condizente e louvável diante da proposta do ser teólogo no plano terreno do Reino de Deus (cf. Lc 17,20-21)", escreve Orlando Polidoro Junior, teólogo, pastoralista e bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR.

Eis o artigo.

Desafio

O objetivo deste artigo é eminentemente especulativo, entretanto, tem como propósito provocar os gestores e as instituições de ensino que ministram cursos de Teologia (todos os níveis), como também, estudantes desses cursos, e clérigos, pois, in-diretamente estão ligados a eles.

Frente à “triste realidade” de que muitos formandos em Teologia saem de seus cursos com a maioria dos mesmos conceitos cristãos de quando entram, ou seja: não avançam no tema da plenitude do Amor Trinitário, e por isso continuam praticamente baseados nas fracas catequeses que receberam [senso comum]. Pior ainda, muitos saem confusos e em conflitos sobre os aprendizados adquiridos nestes dois momentos considerados bem distintos.

Se o teólogo (a) não discernir, para que possa agregar em sua caminhada a essência do projeto de Deus para nós – totalmente plenificado em Seu Amor incondicional e Sua misericórdia, e continuar com “aquela Teologia” pregada no peso da cruz, sempre carregada de sentimentos de culpa e de alguma forma de débito com Deus, assumidos desde o pecado original, somados ainda a tantos outros pecados praticados durante toda a vida [...], até o juízo final, com uma grande probabilidade de inferno, em que momento teológico será aplicado o esplendor da Teologia da Graça Original? “Nenhum pecado humano, por mais grave que seja, pode prevalecer sobre a misericórdia ou limitá-la” (FRANCISCO, 2016, p.85).

Independente da instituição de ensino ou do tipo de curso, em razão do fraco desenvolvimento durante o aprendizado teológico [envolvimento e comprometimento pessoal], sem perscrutar e progredir sobre a base fundamental do plano de Deus, alguns teólogos acabam criando uma Teologia pobre e fraca; sempre embasada nos mesmos pré-conceitos cristãos, àqueles que bloqueiam e aprisionam, pois são insuficientes para anunciar, com louvores, o quanto a Graça da Boa-Nova é capaz de transfigurar a vida dos que creem.

Segundo o Papa Francisco, a Teologia é “imprescindível” para repensar os temas da fé cristã na cultura atual. “Precisamos de uma Teologia que ajude todos os cristãos a anunciar e mostrar, sobretudo, o rosto misericordioso de Deus”.

A reflexão do Papa soma-se ao nosso desafio de contemplar, pelo menos um pouco, sobre os conteúdos das disciplinas aplicadas, e o quanto em cada uma delas a essência do Amor Trinitário aparece numa dimensão de resposta – condizente e louvável diante da proposta do ser teólogo no plano terreno do Reino de Deus (cf. Lc 17,20-21).

A teologia do amor trinitário

Sem entrar na etimologia ou na semântica da palavra Teologia, porém, usando uma linguagem popular, mas bem definida no cristianismo, sabemos que é um estudo/saber, considerado limitado para conhecer a Deus. Contudo, Seu plano de Amor para nós está plenamente revelado em Cristo Jesus (cf. Jo 1,1.9.14).

A Teologia é uma ciência comunitária por excelência, neste sentido, sua principal função diante do sentir a realidade da comunidade, é a de conhecer e desenvolver, em Verdade (cf. Jo 14,6), a grandeza da revelação Divina, para que, frente a verdadeira história do povo, possa frutificar reflexões dignas de serem assimiladas pelos fiéis e também pelo Magistério [Teologia progressiva, contemplada pela misericórdia Trinitária – sustentada e exortada pela via graça]. “Entender o mistério de Jesus Cristo não é uma coisa de estudo – porque Jesus Cristo é entendido somente por sua graça” (Papa Francisco).

De acordo com a Dei Verbum n. 24-25, para absorver com sabedoria os ensinamentos das Escrituras Sagradas, é preciso alguns referencias seguros, mas independente disso, até mesmo um fiel que não têm muitas habilidades para interpretá-la sozinho, quando desenvolve uma leitura ou um estudo mais minucioso, encontra respostas condizentes do Deus que se manifesta em bênçãos e graças na história do seu povo. Mas quando o crente desfruta dos escritos sagrados e também busca à Tradição, o Magistério da Igreja e os teólogos, aí sim consegue discernir mais adequadamente seus entendimentos em relação ao amor da SS Trindade. Mesmo consciente que a divindade do nosso Deus é metafísica, e por isso transcende nossa capacidade plena de compreensão; nossa razão, com todas essas fontes seguras o amor Trinitário resplandece em graça para animar e fortalecer (cf. Mt 28,19; Rm 1,20; 2Cor 13,13; Jo 14,26; 1Jo 5,7-8).

Todavia, mesmo transcendendo nossa limitação de entendimento absoluto/pleno, vivemos e praticamos uma fé construída principalmente através da experiência superabundante do Deus vivo – encarnado em Jesus Cristo (cf. Jo 14,7). A Boa-Nova é a prova fundamental que recebemos como testemunho do seu Amor-Ágape por todos os seres humanos. Vivemos agraciados pela nova e eterna aliança (cf. Mt 26,28); um novo sermão da montanha com novos preceitos (cf. Mt 5-7), porém, novamente por Amor, para os que creem e confiam, agora conduzidos pelo Espírito Santo (Jo 16,13).

Como Deus é puro Amor, e desde a criação feita por Amor e com Amor, quando em sua glória admirou tudo de bom (cf. Gn 1,31), é na evolução desta criação que os Três Divinos nos contemplam e nos completam com sua infinita bondade e misericórdia (cf. Ef 2,4; Tt 3,5; Hb 4,16; Tg 3,17).

O Amor da Trindade Santa está em plena comunhão em todo o evento Cristo – e contempla toda a criação – desde o princípio – até o encontro escatológico. Momento único, repleto de júbilo e de graças, que transfigura o ser humano para a eternidade (cf. Ef 2,4-5) e faz resplandecer a imagem de Deus – a imagem do amor infinito.

Como os mestres abrangem a manifestação do amor trinitário em suas disciplinas?

A formação de um teólogo (a) está embasada numa tríade fundamental: o próprio estudante e seu desejo de evoluir/comprometimento; as disciplinas aplicadas e a seleção de seus conteúdos; e o conhecimento e a didática dos mestres.

Conscientes de que cada disciplina tem um propósito específico na grade dos cursos, sendo uma somatória de aprendizados que se complementam e dão um sentido amplo de preparação, mesmo sabendo que O Deus do Amor, criou por Amor e chegou como Amor (cf. Rm 11,36), os cursos de Teologia caminham “moderadamente na contramão”, pois pouco desenvolvem um diálogo intenso sobre a essência desse Amor.

As disciplinas dos cursos de Teologia proporcionam conhecimentos gerais, necessários para que se possa sistematizar uma estrutura teológica condizente. Contudo, pode-se questionar: sistematizam-se um deus juiz e condenador? Sistematizam-se um conjunto de normas e de regras da Doutrina Católica? Sistematizam-se um Jesus de Deus no contexto bíblico? Sistematizam-se uma história de fé, com a graça constante do amor da Trindade? Ou sistematizam somente uma história do Deus bíblico? Segundo Buyst (2003) “seria não entender nada da palavra se tentássemos confiná-la num livro”.

Para poder estruturar uma grade teológica condizente com o plano de amor do Três Divinos, é preciso alicerçar este plano em todas as disciplinas aplicadas, para que se possa situar e exaltar, com louvores e gratidão, todo este amor revelado até os nossos dias.

A falta de aprofundamento sobre o Amor Trinitário em cada uma das disciplinas, influencia e muito, o (a) estudante quando chega ao término do curso. Ou seja, como e qual será o sentido teológico para anunciar o Evangelho? A lei do Amor (cf. Sl 135,1; Mt 22, 37-40; Jo 3,16; Rm 5,5. 8,37-39; Gl 5,22-23; 1 Jo 5,3), ou a dos fariseus hipócritas (cf. Mt 23, 23-39).

Isto é um fator relevante e fundamental para a evangelização diante de um mundo globalizado e altamente tecnológico, onde, cada vez mais as pessoas têm menos tempo para dedicar-se à vida espiritual. É essencial que todo estudante conclua seu aprendizado impressionado com a doutrina de Jesus (cf. Mt 7,28), e não com a cabeça cheia de um “deus juiz”, ou cheia de normas e rigorismos eclesiais.

Alguns fiéis passam pelas Escrituras Sagradas sem compreender suficientemente toda a benevolência da Boa-Nova, para poder aplicá-la com louvores em suas vidas e na vida do próximo, desfrutando de todas as bênçãos e de todas as graças promovidas e sustentadas pelo Espírito Santo: caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura e temperança (Gl 5,22-23).

Na Teologia ocorre uma situação semelhante, por isso, chegamos ao final dos cursos com três perfis de estudantes: àqueles que não conseguiram assimilar os conteúdos e muito menos a essência do Amor Trinitário; àqueles que assimilaram os conteúdos, mas não conseguiram discerni-los na essência do Amor Trinitário; e àqueles que conseguiram assimilar os conteúdos e discerni-los na essência do amor Trinitário, e os levarão como fonte de graça e iluminação para suas vidas e para a vida do próximo.

Considerações finais

Como estas considerações estão bem fundamentadas em experiências vividas nos últimos oito anos de estudos teológicos, sigo a linha do grande renovador da Igreja Católica Romana, Papa Francisco, que têm quebrado diversos protocolos. Neste caso, coloco minha opinião pessoal e quebro algumas normas de artigos acadêmicos/científicos para poder expressar com mais clareza meus propósitos.

Entre um extenso currículo percorrido entre 2009-2017, composto por inúmeros formas de estudos, entre eles, cursos, palestras, atividades pastorais, etc., mas, precisamente entrando na área da Teologia, antes da Graduação em Bacharelado, participei de outros três cursos: dois a distância e um presencial, e esta é minha grande referência desta reflexão/desafio, visto que, em nenhum momento obtive um aprendizado consistente sobre o Amor da Santíssima Trindade. Nunca, em nenhuma disciplina. Somente vagos comentários. Vagos!

Como Deus é Amor e o termo Teologia significa estudo de Deus, por mais que a grade do curso contenha as disciplinas: Bíblica; Cristologia; Trindade e Pneumatologia, elas pouco entram na raiz da grandeza desse Amor-Ágape. Imaginemos as outras então!

Vou seguir minha carreira de teólogo nesta linha de reflexão [AMOR TRINITÁRIO]. Não porque os cursos de Teologia me proporcionaram este conhecimento, mas sim, pela GRAÇA que recebi. Mas bem que os professores podem, em suas disciplinas, serem instrumentos esclarecedores desse Amor – capaz de transformar nossas vidas. Afinal, nossa Igreja está precisando reformar muitos conceitos mal construídos – e se falarmos sempre desse Amor, poderá ficar mais fácil.

Sugiro aos gestores e aos professores dos diversos cursos de Teologia que, deem prioridade ao tema do Amor Trinitário em suas disciplinas, sejam elas quais forem. Sendo até mais ousado, criem uma disciplina específica para tal. Pois se estamos estudando Deus [sem panteísmo ou panenteísmo], mas considerando que Ele está presente em toda a história da humanidade, essencialmente na Teologia se não evidenciarmos Seu Amor, pouco estaremos progredindo na construção do Seu Reino terreno. Todas as disciplinas devem ser sistematizadas a partir do paradigma do Amor Trinitário.

Referências

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002
BUYST, da Silva, J.A. O Mistério celebrado, memória e compromisso. São Paulo: Paulinas, 2003
Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 2014
FRANCISCO, Papa. O nome de Deus é Misericórdia. São Paulo: Planeta do Brasil, 2016

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