Ministérios “amazônicos” (só?)

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04 Novembro 2019

O Sínodo para a Amazônia pediu ministérios apropriados para responder aos desafios locais, às emergências ambientais e ao risco do desaparecimento das comunidades indígenas que já contam com mártires, envolvendo as mulheres e dispondo a Eucaristia nas comunidades que dela são privadas durante meses.

O comentário é de Eugenio Chiossi, publicado em Settimana News, 30-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sobre as mulheres, o Sínodo pediu para retomar o debate sobre as diáconas (n. 103), que a comissão instituída pelo papa em 2016 não concluiu, mesmo interagindo com ela. No discurso de encerramento do dia 26 de outubro, Francisco disse sim e recebeu aplausos.

Em vez da ordenação sacerdotal dos viri probati – como imaginada às vésperas do Sínodo – ressalta-se a dos diáconos (n. 111).

Sobre a idoneidade dos diáconos (aqueles que continuam como tais) para responder aos desafios que mais preocupam as Igrejas da região, o documento final apresenta algumas características (n. 104 ss).

As reações dos pastores que olham com superioridade para o atual bispo de Roma, principalmente “doutores” que não querem saber dos desafios e que levantam a voz por serem teólogos supervalorizados, tocam em dois aspectos. No front feminino, equiparam o diaconato ao sacerdócio e também consideram o primeiro indisponível para as católicas. Sobre a ordenação presbiteral dos diáconos, por sua vez, não têm nada a opor, por estar em conformidade com a teologia tridentina.

As reações dos interessados na atualização são cautelosas, pois não sabem realmente se o diaconato feminino tem possibilidades teológicas e porque gostariam de superar a lei do celibato eclesiástico, um argumento diferente que pode ser mantido à parte.

Formar e ordenar diáconos

A indicação sinodal de formar e ordenar diáconos parece ser totalmente válida e alinhada com a promoção da sua figura no continente. Nos últimos 30 anos, o número de diáconos cresceu 342% no mundo; na América Latina e Central, 687%, o dobro do crescimento. Isso fez com que, em 2015, na América Latina e Central, o número de habitantes por diácono diminuísse para cerca de 60.000, pouco mais do que na Europa (50.000) e muito menos do que na média mundial (160.000).

O investimento da formação no front da salvaguarda da criação também parece sério e está em conformidade com o DNA histórico-teológico dos diáconos que se engajaram com a tradição e devem se engajar, no mínimo. Com igual sabedoria do perfil e dos tempos, o Sínodo para a África pediu para envolver os diáconos na questão da reconciliação, escolha que reformulava a de Cipriano na perseguição da África romana, quando ele confiava aos diáconos que ajudassem os confessores e iniciassem a reconciliação dos lapsi.

Outro front em que os Padres da Igreja combatiam- e que é bom ter em mente – é o do discernimento relativo aos carismas e ministérios leigos; por exemplo, Basílio de Cesareia confiava aos diáconos o primeiro exame, a triagem e a formação dos ministérios adequados para o período e para a região.

Dadas as perguntas às vésperas do Sínodo Amazônico sobre a matéria, parece útil reconhecer aos diáconos um talento e uma competência (certamente a ser formada) para discernir os colaboradores que o bispo e o presbiterado devem, de todo o modo, encarregar. Os pastores não devem agir sozinhos, mas sim pedir a contribuição dos diáconos.

A menção do documento final de que os bispos desejam acompanhar de perto os diáconos é importante, porque reflete a inter-relação do ministério ordenado, e isso tem valor no nível teológico, remetendo à inter-relação das pessoas divinas entre si e com a história da Igreja; e promovendo inter-relação ao seu redor. Os bispos demonstram qualidade de direção confiando aos diáconos tarefas de discernimento ministerial.

As tarefas de fronteira dos diáconos são a verificação e o emblema de um episcopado que funciona, porque, ao confiarem a ministerialidade de fronteira aos diáconos, os bispos animam a diaconia, fazendo com que ela seja guiada por ministros ordenados e solicitando toda a ecclesia nessa pastoral de fronteira.

Os diáconos sempre foram chamados a isso e também devem ser chamados hoje, protegendo seu perfil em todos os níveis. Por isso, parece um pastiche a indicação sinodal de ordenar os diáconos ao sacerdócio. O bem da Eucaristia não é superior ao das relações de fronteira, ou, melhor, sem os laços com as pessoas, a Eucaristia celebra a si mesma.

Na Igreja antiga, os ministros principais não se dedicavam primeiramente à Eucaristia, mas sim às relações que fundamentavam (evangelização) as próprias Igrejas.

A escolha que os Padres sinodais não ousaram pedir ao papa deve ser pedida por primeiro: ordenar padres os viri probati, onde é realmente necessário, e não diáconos, dos quais a Igreja perderia a contribuição. Talvez, seja preciso ordenar viri probati com a disciplina dos diáconos (casados, celibatários ou religiosos), cujo estado de vida seja fixado no momento da ordenação. Não parece inteligente escolher os viri probati entre os idosos, como levantado às vésperas do Sínodo para a Amazônia, porque o investimento formativo que é justamente exigido e que deve ser exigente no nível teológico e capaz de responder aos desafios requer jovens.

O futuro dos ministros ordenados não pode ser os ministros tridentinos, totalmente dedicados ao culto, pois se enviaria a mensagem de que os “coroinhas velhos” são o perfil certo para os diáconos, privando as periferias em favor das sacristias. Os ministros ordenados devem se assemelhar, antes, aos colaboradores de Paulo, que ele cooptava como guardiões da obra divina e não deixava que as casas-Igreja elegessem por si e para si mesmas.

Os ministros do futuro não devem ser concebidos como uma variável da Igreja local ou até particular, sob pena do excesso de maternidade que torna os ministros das comunidades evangélicas mantenedores das dinâmicas tribais.

E as diáconas?

A questão das diáconas tem valor e não pode ser resolvida sem estudo. Na Tradição apostólica, não existem ordenações sacerdotais de mulheres, mas sim diaconais.

Febe na Carta aos Romanos (16,1s) aparece como uma diácona encarregada, não ainda com um ofício universal, mas como uma diácona. Provavelmente as “mulheres” da Primeira Carta a Timóteo, inseridas na apresentação das características dos diáconos (3,11), são indicadas, embora sem título, como mulheres com um ofício diaconal semelhante ao dos diáconos homens.

Se as Igrejas devem se ater, atualizando-a, à Tradição apostólica, como norma das próprias instituições, o magistério romano deveria indicar com a mesma clareza a indisponibilidade da ordenação sacerdotal e a validade da ordenação diaconal das mulheres, e as comunidades eclesiais deveriam investir nas ordenações diaconais e não nas sacerdotais.

Talvez, na Traditio romana e, certamente, na Didascália siríaca, o perfil litúrgico e pastoral das diáconas as assimila aos diáconos ao lado do bispo-presbitério. Nas Constituições, mais ainda, o valor da imposição das mãos é o mesmo das ordenações dos diáconos, semelhante, por sua vez, ao das ordenações de bispos e padres, e diferente da instituição das ordens menores.

As diáconas parecem ser, mais do que os diáconos, as ministras idôneas para sustentar os projetos laicais de proteção da casa comum, porque são moldadas pelo Espírito que abre a Terra à sua vocação, a exemplo de Maria (e da Igreja), que, no assunção, diz a esperança do cumprimento da criação.

A menção do documento sinodal a tratar sobre as diáconas “universalmente” (n. 111) também tem valor, porque a questão é teológica. Talvez seja possível fazer o mesmo que o Concílio dispôs para os diáconos, com a Lumen gentium 29 e a Ad gentes 16: a escolha é feita pelo bispo de Roma, declarando que é possível ordenar diáconas, até mesmo casadas e permanentes, enquanto se delega às Conferências Episcopais o discernimento da estrutura adequada para os desafios regionais. Uma tarefa que, também para os diáconos homens, necessitados, como se sabe, de uma “revisão”, os Sínodos e as Conferências Continentais deveriam realizar com cuidado.

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