Por que Bolsonaro não deveria fazer ‘aposta’ com Macron e Merkel sobre desmatamento na Amazônia

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24 Julho 2019

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) repetiu em pelo menos duas ocasiões um “desafio” ao presidente da França, Emmanuel Macron, e à primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel: ambos deveriam sobrevoar um trecho da floresta amazônica com ele e “se eles encontrarem um quilômetro quadrado de desmatamento entre Boa Vista e Manaus, concordaria com eles (sobre política ambiental)”.

A reportagem é de André Shalders, publicada por BBC News Brasil, 19-07-2019.

O problema das apostas “propostas” na reunião do G20 no Japão em junho e no encontro com deputados da bancada ruralista neste mês é que há sim desmatamento no trecho entre as capitais do Amazonas e de Roraima, e ele aumentou durante a gestão de Bolsonaro: a área perdeu completamente ou degradou 231 quilômetros quadrados de floresta ali entre janeiro e junho de 2019, segundo dados do próprio governo e de ONGs independentes.

Além disso, há estradas, cidades, propriedades rurais e outros trechos mais antigos sem florestas entre as duas cidades.

Os dados são oficiais, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), organizados pela plataforma MapBiomas. Foram coletados por meio de um sistema do Inpe chamado Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), que usa imagens de satélite para vigiar a floresta.

A reportagem da BBC News Brasil também procurou o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) para tentar responder ao mesmo desafio feito por Bolsonaro à alemã e ao francês.

A resposta é a mesma do Inpe: de janeiro a maio de 2019, o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon registrou 922 ocorrências de desmatamento e de degradação da floresta no trecho de 660 km entre as duas cidades.

O sistema do Imazon emitiu 922 alertas para o trecho entre Manaus e Boa Vista, de janeiro a maio deste ano. | Foto: Imazon

O Imazon é conhecido por fazer, desde a década de 1990, o monitoramento por satélite da Amazônia. É uma organização da sociedade civil e usa informações diferentes daquelas do Inpe – que é um instituto governamental.

Na segunda-feira (15), o Imazon divulgou um novo balanço para a evolução do desmatamento na Amazônia: foram cerca de 3.700 quilômetros quadrados de florestas perdidos ou degradados ao longo de um ano, no período que se encerrou no fim de junho. É duas vezes e meia a área do município de São Paulo.

O mês de junho último foi o de maior desmatamento na Floresta Amazônica desde 2015, segundo o Inpe. Foram 920,4 quilômetros quadrados perdidos – um aumento de 88% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esta imagem de satélite mostra um dos trechos de floresta que recebeu um alerta do Imazon. Está identificado no mapa acima com o ponto verde, e mostra a situação da floresta no dia 8 de outubro de 2018. | Foto: Imazon

‘Quadro mais desolador’

Segundo o pesquisador Carlos Souza Jr., do Imazon, no entanto, este trecho nem é o mais preocupante – há áreas bem piores.

Um sobrevoo entre Santarém (PA) e Cuiabá (MT), por exemplo, mostraria um quadro ainda mais desolador e a “real situação do desmatamento na Amazônia”, segundo Souza Jr.

“Se eles voassem de Santarém (PA) até Cuiabá (MT), veriam uma dinâmica de desmatamento muito intensa, especialmente ao longo da BR 163 no Pará; no norte de Mato Grosso, na divisa com o Pará. Na região de Apuí (AM), e na Boca do Acre (AM) também, ao longo da BR 319. Estas são as novas fronteiras, os novos pulsos de desmatamento na Amazônia”, diz Souza Jr. “A Amazônia tem hoje esses novos ‘hotspots’, ou áreas críticas de desmatamento.”

O mesmo trecho de floresta (ponto verde no mapa), mas em 24 de fevereiro de 2019. Neste caso, a floresta foi destruída completamente. | Foto: Imazon

Segundo ele, os cálculos mais recentes apontam que, até hoje, cerca de 20% da floresta amazônica já foram destruídos completamente.

Além disso, diz o pesquisador, há outros elementos que são preocupantes para a comunidade científica, além do desmatamento propriamente dito: há a degradação da floresta provocada por queimadas, por extração ilegal de madeira e por estradas clandestinas, por exemplo. Só de estradas não oficiais, são mais de 300 mil km abertos, segundo dados do Imazon compilados pelo pesquisador.

“Isso acaba projetando uma área de risco para a Amazônia bem maior que a fronteira oficial de desmatamento”, diz Souza Jr, que coordena o programa de monitoramento do Imazon e concluiu um doutorado sobre o assunto na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos EUA.

‘Você vai ver que está muito preservada’

Na última quarta-feira (10), a reportagem da BBC News Brasil abordou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em Brasília, e perguntou sobre a proposta de fazer o sobrevoo entre Manaus e Boa Vista. Ele disse apenas que é importante ficar atento às informações sobre o desmatamento na região – e que já sobrevoou este trecho. “Acho que vale a pena realmente dar uma olhada nisso aí. Ver como está a região da Amazônia. Você vai ver que está muito preservada”, disse.

Em meados de junho, o ministro concedeu uma entrevista mais longa à BBC News Brasil durante a reunião do G20. Segundo ele, o Brasil continua tendo políticas “exemplares” de preservação da Amazônia.

“O Brasil segue sendo o mesmo país que preserva o meio-ambiente. Todas essas questões de preservação da Amazônia seguem sendo exemplares. Se sairmos do campo da especulação, qualquer analista de boa fé vai achar que o Brasil continua a fazer as medidas que sempre fez, mas agora com geração de resultados. O Brasil continua sendo exemplo de conservação, e nenhuma medida concreta foi tomada pelo governo contra a preservação”, disse o ministro.

Na mesma entrevista, Salles disse ter herdado uma estrutura “sucateada” de governos anteriores, com veículos quebrados, prédios abandonados e apenas metade dos funcionários necessários. “Então, se houve desmonte das políticas ambientais, foram as gestões anteriores”, disse.

Índices abertos e de várias fontes

No começo deste mês, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, disse à BBC News Brasil que os índices de desmatamento na Amazônia são “manipulados”.

“A Amazônia é brasileira e quem tem que cuidar dela somos nós. Esses índices de desmatamento são manipulados. Se você somar os porcentuais que já anunciaram até hoje de desmatamento na Amazônia, a Amazônia já seria um deserto. No entanto, nós temos muito mais da metade da Amazônia intocada. E os países que nos querem cobrar o comportamento que eles acham correto nunca seguiram esse comportamento. O maior preservador de ambiente do mundo é o Brasil”, afirmou na entrevista.

Mas não é o que pensam os pesquisadores que trabalham com este tipo de monitoramento.

“O Brasil tem um sistema de monitoramento (do desmatamento) que é reconhecido mundialmente, seja pela academia, pelos cientistas e por governos”, diz Carlos Souza Jr, do Imazon.

“É o mesmo sistema que foi usado para controlar o desmatamento, quando nós tivemos, de 2004 a 2012 essa redução significativa, que foi reconhecida como a maior contribuição de uma nação para a redução na emissão de gases do efeito estufa”, diz ele.

“O sistema do Inpe, que é o dado oficial, tem um alto grau de transparência. Os dados estão disponíveis na internet, e é possível replicá-los”, diz Carlos Souza Jr.

Para o pesquisador Luís Fernando Guedes Pinto, do Imaflora, a “aposta” reiterada pelo presidente da República põe o país numa situação frágil, diante de outras nações.

“Significa que, ou nós ignoramos um dado que é amplamente conhecido e que é inclusive é alvo de observação de entidades de fora do Brasil; ou então é um enorme blefe, com um risco político muito alto.”

No exterior, o monitoramento da destruição da Amazônia é feito por ferramentas como o Global Forest Watch, mantido pela organização sem fins lucrativos World Resources Institute, sediado em Washington (EUA).

“Em breve o Brasil vai divulgar os dados oficiais, do Inpe (relativos ao acumulado do último ano). Aí o governo brasileiro vai ter que se posicionar”, diz Guedes Pinto.

O que causa desmatamento na Amazônia?

Há hoje um relativo consenso entre pesquisadores sobre a forma como o desmatamento acontece na Amazônia. O principal motor da destruição da floresta não é a agricultura ou a pecuária, como às vezes se imagina, e sim a especulação imobiliária.

Devasta-se a floresta para abrir loteamentos rurais, na expectativa de que as áreas sejam mais tarde regularizadas pela União.

“A área já desmatada na Amazônia corresponde a duas vezes o território da Alemanha, e desse total, pelo menos 63% estão cobertos com pastagens de baixíssima qualidade, com no máximo um boi por hectare. São áreas de pouca produtividade, que não ajudam a produzir riqueza para o Brasil”, diz Carlos Rittl, que é doutor em biologia tropical e secretário-executivo do Observatório do Clima.

“E um quarto dessas áreas está abandonada completamente. O desmatamento não produziu nada”, diz Rittl.

A Amazônia, diz ele, traz uma série de benefícios para o país – desde a regulação do clima até a reprodução de insetos e animais que servem para a polinização das plantas usadas na agricultura.

Os anos de menor desmatamento da Amazônia foram também de crescimento do PIB agrícola do país, o que mostra que não há incompatibilidade entre as duas coisas, segundo Rittl.

Guedes Pinto, do Imaflora, diz que o desmatamento ilegal na Amazônia acontece principalmente em terras públicas que não foram destinadas ainda – isto é, que não foram transformadas numa unidade de conservação, numa terra indígena ou numa área privada.

“(O desmatamento é parte de) uma disputa por terra, e a ‘melhor’ forma de ocupar essa terra é desmatar. A floresta do Jamanxim é um exemplo clássico, de um local que foi desmatado na expectativa de que fosse desafetado (liberado para o uso privado)”, diz ele.

A Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim têm sido alvo de pressão política nos últimos anos para ter a sua área reduzida – o que veio acompanhado de forte desmatamento.

“Você entra lá, bota fogo, planta um pasto e coloca um boi. E depois espera que o governo desafetar aquela área. Aí você a vende valendo mais. Isso acontece porque existe a expectativa de mudanças no status legal daquela área”, diz Guedes Pinto, que é engenheiro agrônomo e doutor em Agronomia.

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