A crise da sociedade e o papel da Igreja: prudência é olhar para a frente. Entrevista com Stefano Zamagni

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26 Maio 2019

“A prudência é a virtude que te faz ver para a frente, isto é, que te leva a ir em frente. Nós, ao contrário, interpretamos a prudência como um freio.” É o que ressalta o economista Stefano Zamagni, há poucos meses presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, nesta entrevista sobre a crise da sociedade italiana e sobre o papel da Igreja, que se segue à entrevista com Giuseppe De Rita [ex-presidente italiano], publicada no dia 22 de maio.

A reportagem é de Andrea Monda, publicada por L’Osservatore Romano, 24-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O presidente De Rita defende que, para o bom governo, é necessária a copresença de duas autoridades, a civil que deve garantir segurança e a religiosa, para oferecer às pessoas o sentido da existência. Não pode haver uma sem a outra, senão a sociedade fica manca e frustrada, não pode haver apenas segurança sem o sentido. Diante da crise em que a Itália, mas também toda a sociedade europeia, se encontra, que papel a Igreja pode desempenhar?

Eu concordo e acho que sempre foi assim desde a antiguidade: a autoridade civil ou política, conforme o caso, tem como tarefa primordial assegurar a segurança, que não é só a segurança da violência de várias denominações, mas é, principalmente, a segurança econômica – em particular, pensamos na questão do trabalho – e a segurança social. Mas, no momento em que uma autoridade qualquer garante isso, não consegue controlar a outra dimensão que é a do sentido. Na língua italiana, sentido significa direção. Uma sociedade precisa, sim, de segurança, mas ela diz respeito ao momento presente, ao curto prazo. Para progredir, uma sociedade deve ter um horizonte de sentido e, por isso, por definição, quem assegura a segurança não é capaz de oferecê-lo, porque a direção de sentido postula a referência a alguns princípios que a política secular não pode levar em conta.

Em outras épocas, essa dualidade tornou-se dualismo, contraposição e, em vez disso, deve-se continuar falando de dualidade ou, melhor ainda, usando uma linguagem emprestada da música, de dueto. O dueto é tal quando as duas vozes, que são diferentes, que também provêm de instrumentos diferentes, conseguem se sintonizar. Nesse sentido, nós, na Itália – mas isso também vale para outros países –, encontramo-nos exatamente nessa situação. Na Itália, neste momento, o elemento da segurança (as fronteiras, a segurança ambiental, a segurança alimentar, a segurança econômica) prevalece sobre a outra; por uma responsabilidade coletiva de muitos, no último quarto de século, a reflexão e, acima de tudo, a práxis negligenciaram esse conceito de dualidade.

Até porque, por parte de alguns, confundiu-se a laicidade com o secularismo, talvez por medo de pôr em campo a matriz identitária religiosa. Esta foi uma grave responsabilidade da esquerda, mas não da velha esquerda do Partido Comunista, que tinha uma direção de sentido – não é à toa que o Partido Comunista Italiano era uma “igreja laica”; depois, com o fim do PCI, ocorreu que a atenção se concentrou apenas no componente da segurança. E, desse modo, os problemas estão vindo à tona.

Neste ponto, a Igreja pode desempenhar um papel importante, porque, na minha opinião, é a agência mais poderosa capaz de fornecer aquele horizonte de sentido de que falamos.

Não digo que ela seja a única, mas não se pode negar que a matriz cultural italiana é, desde o início, imbuída da mensagem cristã. Nesse sentido, a Igreja deve assumir essa responsabilidade, algo que, nos últimos tempos, não aconteceu, talvez por medo, por preocupação ou por uma forma de preguiça marcada por outras colorações. O fato é que a Igreja renunciou a desempenhar esse papel, tornando-se uma agência de distribuição sacramental ou uma mera agência social, o que evidentemente deve ser mantido, mas não é suficiente. A tarefa da Igreja nunca foi só esse.

Gustav Mahler dizia que a tradição é a salvaguarda do fogo, não a conservação das cinzas: pois bem, ocorreu que, no nosso país, por uma pluralidade de razões, fomos rumo à conservação das cinzas, mas isso não é respeito pela tradição. Respeita-se a tradição salvaguardando o fogo.

O presidente da República italiana, Sergio Mattarella, volta muitas vezes à importância dos órgãos intermediários, que, na verdade, parecem hoje estar um pouco em crise, quase evaporados. Essa falta da mediação em todos os níveis – o partido, o sindicato – não é apenas inquietante em relação à emergência de um populismo, mas, em nível social, também diz outra coisa, ou seja, a extrema solidão em que se encontra a pessoa italiana e europeia.

Nós vivemos a época da segunda secularização. A primeira é aquela magistralmente descrita por Max Weber há mais de um século, para a qual o sentido próprio da primeira secularização era se comportar etsi deus non daretur [como se Deus não existisse]. A primeira secularização nasce depois da Revolução Francesa.

O que não se leva em conta é que hoje, isto é, nos últimos 40 a 50 anos, entramos na segunda secularização, da qual, porém, ninguém quer falar. Essa segunda secularização é bem representada por este outro aforismo: é preciso se comportar etsi communitas non daretur, como se a comunidade não existisse. Portanto, essa segunda secularização é filha do chamado individualismo libertário. O individualismo também existia antes, na época da primeira secularização, mas hoje se casou com o libertarismo, cujo slogan é volo ergo sum, quero, portanto, sou, sou porque quero.

Nisso, a economia tem uma gravíssima responsabilidade, porque fez com que se acreditasse que a melhor maneira para avançar era lançar a mensagem “cada um pense por si mesmo” (obviamente, respeitando regras formais que, depois, não são respeitadas), porque, assim, no fim, melhorarão as condições de vida. Estamos vendo o resultado do desaparecimento do conceito de comunidade: os jovens estão cada vez mais desesperados, no sentido da solidão existencial. Mas não é preciso ser especialista para entender que ninguém pode viver sozinho. Nota-se isso observando a escola, que se tornou um lugar onde obrigam você a acreditar no individualismo libertário.

Quando se pede que cada um estude por si mesmo, que não se comunique com os colegas, que não faça perguntas que vão além do chamado programa – obviamente existem exceções, mas são apenas exceções – a mensagem que emerge no fim é o de um impulso à individualização não comunitária. E isso, no plano político, do qual se falava, significa que hoje estamos na presença de uma política de tipo demofóbico, no sentido técnico do termo, que odeia o povo. Portanto, o desaparecimento dos órgãos intermediários é a consequência exata do individualismo libertário. Quando isso ocorre, a democracia não é mais democracia.

A democracia não pode abrir mão dos órgãos intermediários, mas os órgãos intermediários só estão juntos se houver um cimento, somente se eu reconhecer que “tu” é essencial para o meu “eu”: eu não posso não me relacionar contigo. É por isso que emerge o populismo que, tecnicamente, afirma que a verdade está dentro do povo. Para o populismo, o povo não é uma categoria sociológica ou politológica, é uma categoria moral. E, se a verdade está dentro do povo, quem a dá à luz é o líder, isto é, a cabeça do povo. É por isso que o populismo é perigoso.

Não haveria nada de errado em dizer “olhemos para o povo”, mas o fato é que se reconhece que o princípio de verdade reside no povo, o que não é verdade. No momento em que eu raciocino nesses termos, eu preparo o caminho para formas de totalitarismo mais ou menos veladas, em que o líder é aquele que sabe “extrair” a verdade do povo; portanto, é evidente que é a ele que se deve dar todos os poderes. O problema, portanto, é muito mais sério do que parece.

Para sair disso, portanto, é preciso voltar ao sentido da comunidade?

Sim, mas evitando cair no comunitarismo. Devemos voltar a reconceitualizar a noção de comunidade sem cair no extremismo oposto, que é o do comunitarismo. Nós, italianos, temos sobre os ombros o 1968, uma solução pior do que o mal, porque se movia na direção do comunitarismo, mas a comunidade, propriamente dita, existe se consegue reconciliar a liberdade do indivíduo com a sua necessidade irrefreável de se relacionar com os outros. É sobre isso que o mundo católico na Itália é deficitário, porque nunca fala dessas coisas. Eu, pelo menos, que giro pela Itália há anos, de norte a oeste, nunca ouvi falar disso.

Em tudo isso, surgiu nos últimos anos o problema das identidades, que muitas vezes se levantam como elementos de ruptura das relações e das mediações. Como se gere esse fenômeno?

São duas as noções de identidade: existe a identidade entendida como processo ou como patrimônio adquirido do passado. Nesse segundo caso, a identidade é mera conservação do que a tradição transmitiu, e isso é sempre perigoso. A identidade, por outro lado, é um processo dialógico com o qual eu, ao me relacionar com os outros, com outras culturas, com outras religiões, vou redescobrir a minha raiz e a ponho em diálogo com a dos outros, mas sem me identificar com a do outro, nem demonizar a identidade do outro.

Precisamos afirmar essa noção de identidade, porque, caso contrário, o risco, como, aliás, está ocorrendo, é que a identidade entendida no outro sentido se transforme em soberanismo, cuja raiz profunda está em dizer que nós somos nós porque temos a nossa história sobre os ombros e devemos nos proteger da invasão de outras culturas, de outras religiões e assim por diante. Sobre esse ponto, porém, estamos terrivelmente atrasados, todos, até mesmo o mundo católico.

Por um lado, desenvolvemos uma política da acolhida de total respeito, e eu diria até verdadeiramente notável. Mas, por outro lado, ainda não temos uma estratégia de integração, isto é, as pessoas confundem a acolhida com a integração. O ponto é que, para propor um modelo de integração, é preciso se decidir e fazer isso com atenção, porque hoje, por exemplo, o modelo de integração do multiculturalismo está amplamente superado.

O que propomos então como alternativa? Estamos atrasados, há ideias e modelos que, há muito tempo, eu havia elaborado quando fui presidente durante oito anos, em Genebra, da Comissão Internacional Católica para as Migrações (ICMC, na sigla em inglês), a única ONG da Santa Sé que foi fundada quando Montini era substituto da Secretaria de Estado, imediatamente após a guerra.

Na época, havíamos elaborado um projeto, um modelo de integração, que chamamos de “diálogo intercultural”, fundamentado em determinados princípios. Mas isso permaneceu como letra morta na gaveta, e isso é grave, porque é evidente que a acolhida é o primeiro movimento diante de quem tem fome e está doente, mas não podemos parar por aí. Não tendo um modelo de integração cultural, além de social e econômico, para propor, vai-se em uma direção, em uma espécie de “abracemo-nos todos”, que levanta suspeita entre outros católicos que veem nisso a renúncia a afirmar a própria identidade, ou que provoca uma rigidez no lado oposto.

Em vez disso, no debate dialógico, é preciso aprender a distinguir o que não é aceitável, o que pode ser tolerado, o que pode ser respeitado, o que pode ser compartilhado. Mas é preciso estudar essas coisas e colocá-las em prática. Isto é, diante de pedidos de vêm de portadores de outras culturas, eu, que reconheço e quero manter a minha identidade cristã, devo saber o que posso tolerar e o que não posso tolerar, o que posso respeitar – e respeitar significa que eu as reconheço, mas não as compartilho e as distingo do que é compartilhável.

Se não fizermos esse trabalho, o nosso povo e, sobretudo, as nossas associações, que fazem muito bem, permanecem desorientados, porque, uma vez terminada a fase emergencial, não conseguem depois iniciar projetos e realizações práticas para implementar uma autêntica integração. Se fizer um sínodo para a Itália – na minha opinião, necessário – esse deverá ser um dos pontos mais relevantes.

Recentemente, ouvimos falar de um sínodo para a Itália, mas, ao mesmo tempo, sente-se uma lentidão. De Rita falou de cansaço, talvez inspirado por um senso de prudência.

Na minha opinião, é como quando, na escola, a professora, perto das férias, entrega o tema de casa. Qual é a reação do estudante? “Aff!” É claro que propor o sínodo forçaria a Igreja (leigos e clérigos) a dedicar atenção, tempo e também energias para uma reavaliação, e, como a preguiça mental habita em cada um de nós – é preciso dizer isso claramente –, eu vejo que muitos do mundo católico são preguiçosos intelectualmente, isto é, continuam mantendo os conhecimentos adquiridos há 10, 20, 30 anos. E, portanto, pôr novamente em discussão as próprias convicções custa esforço.

Diante desse cansaço, a atitude é de prudência que não é prudência. São Tomás diz que a prudência, a phronesis, é a virtude que te faz ver para a frente, isto é, que te leva a seguir em frente. Nós, em vez disso, interpretamos a prudência como um freio, que é exatamente outro sinal de ignorância profunda. Se você for devagar na rodovia, você não é prudente, corre o risco de provocar acidentes. Em latim, prudência se diz “providentia”, isto é, a capacidade de olhar para a frente, e, ao contrário, nós a usamos no sentido de quem está atento, alguém que tem medo. Isso não é prudência, isso é frescura ou preguiça mental. Certamente, esse ponto, entre os conformistas, incomoda, mas é necessário. Prudência, portanto, é capacidade de leitura.

Temos que parar com o feedback e pensar no feedforward, que significa interrogar o futuro para alimentar o presente. Feedback significa olhar para trás para aplicar os ensinamentos do passado no presente. Em uma época de profunda transformação, em uma mudança de época, na Itália, o feedback tem pouco valor. O feedback vai bem em momentos de administração comum, mas, com o que está ocorrendo – pensemos no desafio das novas tecnologias digitais –, o que o passado pode nos dizer? Nada. Então, devemos ter a capacidade de interrogar o futuro para alimentar o presente.

Como deveria ser organizado um sínodo para a Itália?

Sobre esse aspecto, a linha sugerida por De Rita sobre o sínodo encontra o meu consentimento. O sínodo não pode ser uma operação intelectualista. Por outro lado, o Papa Francisco não o aceitaria, porque sabemos que a sua abordagem teológica e filosófica é a do realismo histórico. Ele é um realista histórico, considera que se chega mais rápido à verdade a partir de baixo do que a partir de cima. Isto é, em vez de partir dos princípios máximos e calá-los na realidade histórica, ele parte dos dados históricos e os converte a partir da luz desses princípios.

Neste momento, um sínodo para a Itália deveria privilegiar essa abordagem do realismo histórico, caso contrário as pessoas não acompanhariam, não entenderiam, porque, neste momento, existe o risco do intelectualismo, isto é, de fazer cair os grandes princípios de estupendos filósofos, enquanto, ao contrário, devemos partir dos problemas. Os problemas são muitos: há o da solidão, o da queda da felicidade – as Nações Unidas nos indicam que o índice sintético da felicidade na Itália está em queda ano após ano. Mas pensemos também no problema que diz respeito ao modelo econômico.

Também devemos entender que, se o papa decidiu convocar 500 jovens economistas e jovens empreendedores de todo o mundo para Assis no ano que vem, de 26 a 28 de março, esse é um sinal nem um pouco pequeno. É a primeira vez que isso acontece em 2.000 anos de história da Igreja. Encontros dedicados a temas como os jovens, a família... sempre foram feitos, mas um encontro desse tipo nasce da constatação de que o modelo de funcionamento da economia, entendida como sistema econômico, não é mais adequado. É preciso ter a coragem de atacar os pressupostos antropológicos. O modelo do homo oeconomicus faz água por todos os lados, é inútil mantê-lo de pé.

Nisso, o mundo econômico tem uma grande responsabilidade, porque, por razões de preguiça, sempre se busca remediar os desastres que esse modelo antropológico está produzindo no front econômico. Então, invoca-se um pouco de filantropia, quando, em vez disso, o problema deve ser tomado na origem. Se o papa convocou esse encontro para o ano que vem, é porque ele considerou que os tempos estão maduros para fazer isso. E, como a matriz católica é portadora de uma proposta, de um paradigma, melhor ainda, do paradigma da economia civil que nasceu na Itália no âmbito católico e não protestante, isso evidentemente incomoda alguns, porque o modelo predominante é o da economia política, que nasce na terra da Escócia sobre bases protestantes. Eis o novo desafio. E pode-se constatar que, quando, na Itália, aplicamos o paradigma da economia civil concretamente, as pessoas ficam contentes. Os resultados podem ser vistos e tocados com a mão.

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