''O Terceiro Setor está sob ataque.'' Entrevista com Stefano Zamagni

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29 Abril 2019

Anotem esta palavra: aporofobia. “É uma palavra grega, significa desprezo pelos pobres”, explica Stefano Zamagni, uma vida inteira dedicada ao estudo, ao relato e ao testemunho da economia civil. Um pedaço de história do mundo das organizações sem fins lucrativos, do Terceiro Setor e da cooperação que olha para a atual fase histórica, na Itália e além, com os olhos do acadêmico e do avô, assim como do católico engajado desde sempre na sociedade civil.

A reportagem é de Diego Motta, publicada por Avvenire, 28-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Nunca se viu um conflito desse tipo. Trata-se de uma novidade desconhecida nas épocas anteriores”, admite, quando perguntado sobre a temporada pela qual estamos passando, o ódio derramado sobre os últimos e a evidente intolerância para com aqueles que, a partir de baixo, tentam encontrar soluções em escala humana para a pobreza, a migração, a demanda de futuro dos mais frágeis.

“Atenção, a aporofobia não é um sentimento que nasce, como ocorria antigamente, nos níveis altos da sociedade. Não estamos diante do clássico choque entre aqueles que estão muito bem e aqueles que estão mal. A guerra social hoje foi deflagrada pelos penúltimos contra os últimos, porque as elites e os ricos não têm nada a temer em relação às políticas redistributivas de que os governos falam. Entre nós, na Itália e no Ocidente, no máximo, é a classe média que retrocedeu.”

Para Zamagni, o desenho que está tomando forma é claro: é o de uma sociedade civil que se quer que esteja sempre esmagada entre as forças do Estado e do mercado, na Itália, “é o objetivo não declarado de colocar sob tutela as entidades do Terceiro Setor”, tanto em termos de fundos a serem utilizados (cada vez menos) quanto de projetos a serem realizados.

“Por isso – explica – é necessário que os católicos, aos quais, em termos ideais, estão ligados 70% das organizações atualmente presentes na sociedade civil e no voluntariado, não recuem mais, assumam suas responsabilidades e comecem a fazer massa crítica para poder incidir nas escolhas que realmente importam.”

Nota de IHU On-Line:

Stefano Zamagni é o presidente da Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano e professor da Universidade de Bolonha, na Itália. Autor de inúmeros livros, publicou em português “Economia civil: eficiência, equidade e felicidade” (Ed. Cidade Nova, 2010), em coautoria com Luigino Bruni.

No Instituto Humanitas Unisinos - IHU publicou os seguintes artigos em Cadernos IHU ideias:

Eis a entrevista.

Professor Zamagni, o mundo da solidariedade na Itália está sob ataque. Por quê?

Porque tornou-se incômodo. Enquanto colocava remendos em um sistema que, no fim das contas, funcionava, estava tudo muito bem, e não incomodava ninguém. Depois, assistimos a um crescimento endógeno fortíssimo, a partir de baixo, que demonstrou como, com paridade de recursos, esse setor pode multiplicar riqueza e capital humano. A partir dos anos 1960, esse mundo mostrou capacidade de voar. Foi então que o mundo da política teve medo.

Não é, antes, um problema cultural, mais do que político?

Certamente. O povo italiano sempre foi conhecido no mundo pela sua capacidade de estar em sintonia com o próximo, pela sua com-paixão em relação aos últimos. Agora, em vez disso, estão se difundindo desprezo e escárnio: quando isso se insinua também nas escolas, então levará muito tempo para corrigir atitudes equivocadas.

Quais são os aspectos desse desvio que mais lhe preocupam?

Está sendo removido o chão debaixo dos pés de um mundo inteiro, sem se ter a coragem de bani-lo. Nos tempos do fascismo, o problema não existia, porque o Terceiro Setor não existia... Mas, mesmo assim, queimavam-se as sedes de quem era incômodo... Agora, porém, não podemos cometer o erro histórico de ficar na janela e não denunciar e o que está acontecendo. Seria como cometer um pecado de omissão. Concretamente: assistimos ao “balé” no início do ano sobre o Ires [imposto sobre a renda das sociedades] para as organizações sem fins lucrativos. Estamos à espera uma dezena de decretos de implementação da reforma do Terceiro Setor, cujo Conselho Nacional foi convocado pela primeira vez na semana passada desde junho de 2018, quando, por lei, ao contrário, deveria ter sido convocado a cada três meses. De fato, os fundos públicos para o setor social são subtraídos do Terceiro Setor para, depois, serem redirecionados para o Estado, enquanto, entre as medidas pelas quais o mundo da cooperação espera, existem instrumentos importantes de finança social, dos títulos aos empréstimos. Está tudo parado.

Talvez, ao longo dos anos, faltou um pouco de autocrítica por parte do Terceiro Setor, que pecou por autorreferencialidade e não soube identificar durante muito tempo casos de má-fé.

Esse é precisamente o problema. Seria necessário um Civil Compact em sede europeia, um projeto sobre a economia civil que olhe para as próximas décadas, colocando no centro das atenções aqueles que erraram nos últimos anos. Desde o nascimento de uma intelligentsia do Terceiro Setor, repito, a classe dominante teve medo de que se pudesse retirar poder dela progressivamente. O ponto é que, tendo-se deslocado o conflito entre as classes sociais, o modelo de ordem do passado não pode mais durar por muito tempo, e as forças políticas atuais não sabem indicar o caminho para encontrar novos equilíbrios. Não temos as ferramentas certas para enfrentar essa nova fase histórica.

Como mudar de ritmo, saindo da síndrome possível de uma nova “reserva indígena”?

A estratégia não deve ser reformista, porque as reformas têm fôlego curto. Que os católicos ouçam o Papa Francisco: é preciso uma transformação geral do sistema, é preciso mudar seus fundamentos e seu sistema. O associacionismo não pode fazer apenas diagnósticos, são necessárias terapias. E mais: o fracionismo faz mal, especialmente agora, em que é evidente a estratégia levada em frente para diminuir a presença dos católicos no Terceiro Setor.

O senhor está dizendo que, para superar a época do rancor e da ofensiva contra as realidades que fazem solidariedade concreta, é preciso relançar o compromisso direto dos católicos na política?

Certamente. Hoje como nunca são necessários os De Gasperi, não os “politiqueiros”. São necessárias novas forças políticas, e o mundo católico tem todo o potencial necessário para realizar a transformação epocal evocada por Francisco. A estratégia da pulverização e da diáspora fez dos católicos como que recrutas deste ou daquele grupo. Ao contrário, chegou a hora de criar uma massa crítica, para finalmente serem incisivos. Um deslocamento dos equilíbrios também poderia ter efeitos benéficos sobre o Terceiro Setor, posto hoje na berlinda: se fossem retirados desse mundo os fardos que estão sendo postos agora, o princípio de subsidiariedade realmente seria implementado.

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