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25 Julho 2011

Para os clericais (e os ortodoxos) de todas as religiões, por trás do diálogo, avança o fantasma do relativismo religioso. A cultura do diálogo é uma coisa (boa), mas a teologia é uma outra coisa (mais séria). Acho que o próprio Bento XVI pensa assim. A mesquita dedicada a Jesus é um caminho certo?

A opinião é do historiador e cientista político italiano Gian Enrico Rusconi, em artigo para o jornal La Stampa, 23-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É uma boa notícia a de uma mesquita na Jordânia dedicada ao "profeta Jesus". A mesquita seria a primeira no mundo muçulmano contemporâneo a ser intitulada ao Messias dos cristãos.

"A mesquita quer levar uma mensagem de convivência e de tolerância", explica o imã que manifestou essa intenção. Mas eu tenho certeza que, em breve, não faltarão perplexidades e resistências em ambas as culturas.

De fato, para os clericais (e os ortodoxos) de todas as religiões, por trás do diálogo, avança o fantasma do relativismo religioso. A cultura do diálogo é uma coisa (boa), mas a teologia é uma outra coisa (mais séria). Acho que o próprio Bento XVI pensa assim. A mesquita é um caminho certo?

Em vez de fazer considerações de ordem geral, quero contar aqui um episódio que ocorreu há alguns anos na Alemanha. O escritor muçulmano alemão, de origem iraniana, Navid Kermani, havia sido designado para receber um prestigiado prêmio em reconhecimento da sua atividade literária e jornalística em favor do diálogo intercultural e inter-religioso.

Depois, em algumas semanas, ele foi excluído por causa do protesto de alguns ilustres representantes das confissões cristãs (o cardeal Karl Lehmann e o ex-presidente da Igreja Evangélica de Hessen) que deveriam receber o prêmio junto com ele. Os dois homens da Igreja, de fato, haviam considerado ofensivas para o cristianismo algumas expressões usadas por Kermani em um artigo publicado em um jornal suíço que comentava a famosa crucificação de Guido Reni exposta em uma igreja de Roma (imagem ao lado).

O que o escritor alemão-muçulmano havia dito? Depois de ter lembrado o prazer estético revelado por muitas representações católicas barrocas do sofrimento de Jesus, ele acrescentava que já conhecia esse fenômeno a partir da experiência dos xiitas. Trata-se do "martírio que é celebrado até o pornográfico". Ele acrescentava também que o Alcorão nega que Jesus tenha sido crucificado, porque um outro homem foi colocado em seu lugar. Jesus escapou porque Deus não poderia permitir o martírio e a morte na cruz do seu profeta.

"De minha parte – escreve Kermani – rejeito a teologia da cruz de modo ainda mais drástico: para mim, é uma blasfêmia e uma idolatria."

No entanto, diante do crucifixo de Reni – continua – "encontrei a visão tão comovente, tão cheia de graça, que não me levantaria mais da cadeira. Pela primeira vez, pensei que eu – eu pessoalmente – podia acreditar em uma cruz. Reni não exibe o sofrimento. Ele consegue o que outras representações de Jesus se limitam a afirmar: transporta a dor do corpóreo para o metafísico. Se não fossem os pregos, pareceria que ele está abrindo as mãos para rezar. `Veja` – ele parece invocar. Não só `olha-lhe, mas olha a terra, olha para nós`. Jesus não sofre, como quer a ideologia cristã, para tirar um peso de Deus. Jesus acusa: `Não por que me abandonaste`, não, mas "por que nos abandonaste?`".

Essas palavras de Kermani foram julgadas pelo bispo evangélico como "dialeticamente elegantes", mas não lhe impediram de rejeitar o texto que, no seu conjunto, "considera uma blasfêmia o centro da minha fé – a teologia da cruz – e a aproxima à pornografia". Em sua opinião, o artigo não contém apenas um grave mal-entendido da teologia da cruz, mas também impede o diálogo, porque fere o interlocutor. "O diálogo pressupõe que eu me aproxime da tentação não só de tolerar, mas de acolher a verdade da outra religião".

Na realidade, o representante da Igreja Evangélica entendeu mal a expressão (pesada) de "pornografia", que Kermani atribui não à morte na cruz como tal, mas ao gosto exibicionístico do sofrimento (vem à mente a paixão de Cristo no filme de Mel Gibson). Além disso, o pastor evangélico não se dá conta de que o autor muçulmano falou justamente da sua "tentação" pessoal à conversão que é sinal de autêntica disponibilidade ao diálogo inter-religioso, mesmo na manutenção das diferenças teológicas.

Não posso aqui dar conta do amplo debate levantado por esse episódio na Alemanha, em que prevaleceram as vozes críticas aos altos representantes da religião cristã que entenderam mal as intenções de Kermani para além do seu forte (provocativo) modo de se expressar. A história, porém, foi a ocasião para que a opinião pública se informasse sobre aquelas passagens do Alcorão que falam com veneração de Jesus ("enviado por Deus") e com grande respeito da Virgem Maria e até das boas relações iniciais entre cristãos e muçulmanos, mesmo que entre mil reticências.

Ao mesmo tempo, reconheceu-se a firme rejeição da teologia dos muçulmanos de aceitar não só a divindade de Jesus, mas até a sua morte na cruz.

É hora que a opinião pública europeia tome conhecimento, de modo preciso, da posição do Islã sobre Jesus e sobre o cristianismo, mesmo na consciência das insuperáveis diferenças teológicas – admitindo-se que se compreenda a sua relevância. Esperamos que a mesquita dedicada ao "profeta Jesus" seja um passo nessa direção.

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