Ratzinger. Apontamentos de teologia pré-conciliar. Artigo de Giannino Piana

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30 Abril 2019

“Não se pode deixar de temer que o escrito de Bento XVI se torne uma espécie de manifesto de uma teologia pré-conciliar e possa, consequentemente, desenvolver a função de instrumento de autoridade nas mãos das correntes mais tradicionalistas presentes na Igreja para contestar as tomadas de posição doutrinais e pastorais do atual pontífice.”

O artigo é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas, publicado por Rocca, n. 9, de 01-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O artigo escrito sob a forma de apontamentos do Papa Bento XVI sobre os abusos sexuais na Igreja Católica, publicado na revista alemã Klerublatt, provocou (e está destinado a provocar ainda por muito tempo) reações contrastantes de adesão incondicional e de dissensão aberta e dura.

Trata-se, de fato, de um texto controverso, caracterizado por uma linguagem áspera – uma verdadeira acusação de tons dramáticos – que é bastante incomum em relação aos escritos anteriores do papa emérito.

O objeto da acusação – deve-se dizer desde o início – são a teologia moral católica e a formação seminarística que se desenvolveram no pós-Concílio, além de alguns aspectos da ação pastoral da Igreja, em particular a celebração da Eucaristia.

Um documento que, portanto, tem uma clara finalidade intraeclesial, isto é, que pretende pôr sob processo os desenvolvimentos de caráter teológico e pastoral, que ocorreram dentro da Igreja depois (e sob a pressão) do Vaticano II. O tema da pedofilia e o da revolução cultural que se produziu a partir de 1968 no Ocidente (e não só), embora quantitativamente relevantes na economia do texto, parecem ser elementos de contorno, que definem o contexto dentro do qual está posta a contribuição que corresponde à verdadeira preocupação do Papa Bento XVI.

Uma análise radicalmente pessimista

A questão da pedofilia, da grande importância que o tema assumiu nas últimas décadas dentro da Igreja, é posta pelo Papa Ratzinger em estreita relação com a virada cultural que iniciou em 1968, por ele definida como “um processo inédito, de uma ordem de grandeza que, na história, é quase sem precedentes”.

De acordo com o papa emérito, tem um papel de primeiro plano nela a revolução sexual, graças à qual assistiu-se à reivindicação de uma completa liberdade (até a justificação de toda forma de transgressão); o que determinou, consequentemente, a queda de qualquer critério de avaliação ética do comportamento e, mais em geral, de qualquer estrutura normativa no campo moral.

Certamente não se pode negar que 1968 produziu mudanças profundas na consciência dos indivíduos e nos costumes da sociedade, e que pôs em discussão princípios e valores tradicionais; mas a natureza drástica dos julgamentos formulados pelo Papa Ratzinger contra ele é excessiva e não parece estar suficientemente justificada. Como todo processo de transição de época, também o processo daqueles anos teve (e não podia deixar de ter) recaídas ambivalentes. A crise de princípios e dos valores tradicionais, de fato, foi acompanhada pela restituição de centralidade à consciência (e à liberdade de consciência), pela rejeição de formas autoritárias de gestão do poder (de todo o poder) e pela afirmação da liberdade pessoal, pela superação de uma visão repressiva e como tabu da sexualidade e pelo início do processo de emancipação feminina.

Tudo isso torna inaceitável, por ser unilateral, uma avaliação radicalmente negativa como a recordada, e torna infundada a tendência de atribuir a esse período histórico a causa da propagação da pedofilia, fenômeno, aliás, largamente presente também no passado (no máximo, o mérito de 1968 é o fato de tê-lo liberado e trazido à luz do sol, permitindo que as vítimas pudessem finalmente obter justiça).

Uma acusação drástica e não motivada

Mas o alvo central do escrito de Ratzinger é representado pela acusação daquilo que ele define como o “colapso da teologia moral católica” – o termo “colapso” retorna com frequência no texto – à qual é debitada a responsabilidade de ter “deixado a Igreja inerme diante dos processos em curso na sociedade”.

A acusação é motivada referindo-se àquilo que ocorreu após a reforma conciliar, quando o abandono da opção jusnaturalista e a constatação da insuficiência de uma refundação exclusivamente bíblica se traduziriam na adesão a um relativismo absoluto; isto é, na ausência de uma teologia moral – como se lê no texto – “definida apenas com base nos objetivos do agir”, em que não subsiste mais “nada de objetivamente bom ou mau”, ou na qual ganha espaço a ideia de que não existe mais o bem, “apenas aquilo que, no momento e dependendo das circunstâncias, é relativamente melhor”.

O peso dessas afirmações e a explícita denúncia das posições de alguns moralistas – Bruno Schüller e Franz Böckle, em particular – impõem a formulação de algumas observações críticas. Pode-se discordar de algumas orientações tomadas naquele período pela teologia moral no campo da sexualidade, mas certamente não se pode afirmar que estamos diante da “dissolução da concepção cristã da moral” e da “dissolução da autoridade doutrinal da Igreja em matéria moral”. As questões em jogo – da existência ou não de ações em si mesmas malvadas (o chamado intrinsice malum) à presença de bens indisponíveis ou de valores inegociáveis; do reconhecimento do específico (proprium) da moral cristã à definição do papel do magistério em matéria moral – foram abordadas pelos teólogos morais do pós-Concílio com atenção à complexidade das situações, sem, contudo, abrir mão da continuidade com a mais autêntica tradição cristã.

Nenhum moralista católico jamais negou a existência de obrigações morais incondicionais; o problema sobre os quais se concentrou a atenção é, no máximo, o da identificação concreta de tais obrigações na presença de situações de conflito de valores (ou de deveres), nos quais o que importa é a busca do “bem possível” e, em alguns casos (e não são infrequentes) do “mal menor” ou – de acordo com uma versão mais secular – da “redução do dano”. Não era essa a intenção (neste caso positivo) da casuística do passado? Que também foi, aliás, o modelo de uma relação entre teologia moral e magistério, análoga àquela que hoje é levantada como hipótese por uma parte consistente dos teólogos morais.

Também nesse caso, de fato, não se trata de negação do papel do magistério, mas sim do pedido de reconhecimento do espaço de autonomia próprio da teologia moral – o espaço decisório que era atribuído na casuística à competência dos moralistas e que constituía o âmbito do debate entre teólogos e escolas teológicas era muito superior ao de hoje – e da abertura de um diálogo mais construtivo e fecundo entre os dois ministérios, ambos necessários para o correto desenvolvimento da vida eclesial.

Existem realmente os desvios referidos?

Mas os desvios assinalados, em termos alarmantes, como efeito do “colapso moral e espiritual”, não param por aí: eles também dizem respeito à formação seminarística e à práxis pastoral. Sobre o primeiro aspecto, o da formação seminarística, os casos relatados pelo documento do Papa Ratzinger não podem ser generalizados. A denúncia contida nele é pesada: vai da constituição nos seminários de “clubes homossexuais” ou de formas anormais de promiscuidade sexual, à presença de atitudes críticas em relação à tradição, favorecidas também por diversos bispos – é curioso que se atribua a culpa dessa conduta ao recurso na nomeação dos bispos ao critério da “conciliaridade”, que certamente não deve ser desvalorizado, e que parece ter sido, na realidade, pouco aplicado, para dar lugar, em vez disso, ao critério da fidelidade à instituição! –; episódios todos que constituem, de fato, como também emerge em investigações recentes, um fenômeno limitado e marginal.

Sobre o segundo aspecto, o da práxis pastoral, a atenção do Papa Ratzinger se concentra principalmente na celebração da Eucaristia e na imagem da Igreja. No primeiro caso, a crítica aponta para a difusão de uma forma celebrativa “rebaixada a gesto cerimonial”, incapaz, portanto, de transmitir a grandeza do mistério e caracterizada por uma participação generalizada na Comunhão sem qualquer verificação das condições pessoais para o acesso.

No segundo caso, lamenta-se a falta de reconhecimento do mistério da Igreja, considerada cada vez mais como um “aparato político” a ser analisado, referindo-se a parâmetros de eficiência mundana e colocando entre parênteses o caráter de povo de Deus chamado à santidade. Que tenha havido (e que haja) excessos em algumas celebrações pós-conciliares certamente pode ser verdade, assim como é verdade que, em tais celebrações, se corra o risco de anular o sopro religioso – ainda não se conseguiu recriar (exceto em casos bastante raros) um clima celebrativo capaz de evocar o mistério de modo eficaz –; mas não se podem esquecer os efeitos positivos da reforma litúrgica, que inaugurou uma nova temporada de aproximação dos fiéis à Palavra e do seu envolvimento participativo na ação litúrgica.

Como não lembrar o que ocorria no passado, quando as leituras eram, por causa do uso do latim, totalmente incompreensíveis para a maioria das pessoas e a ênfase posta no cumprimento do preceito induzia muitos a “tomar missa” – assim se dizia – entrando depois das leituras e da homilia (e talvez saindo no momento da distribuição da Comunhão), pois isso era considerado suficiente pelos moralistas da época para a validade da participação na missa?

E o que dizer de uma Igreja, percebida exclusivamente como instituição hierárquica e destituída tanto do caráter mistérico quanto da participação responsável dos fiéis, que são, para todos os efeitos – como nos ensinou o Concílio com a introdução das categorias de “povo de Deus” e de “comunhão” – sujeitos ativos dela?

A doutrina do Concílio em discussão?

Bento XVI tem razão ao se referir, na última parte do texto, a questão da fé como a verdadeira razão da crise atual e de pôr o acento no fato de que ela é “um modo de viver”; em outras palavras, que ela tem uma dimensão pessoal, que implica o envolvimento de toda a existência.

Não se pode negar, portanto, que subsiste uma estreita relação entre fé e moral, e não há dúvida de que, do conjunto da mensagem do Evangelho, brota uma concepção original (e específica) da moral. Mas isso não significa que não possa haver – como, aliás, está claramente documentado pela cultura do Ocidente (e não só) – uma moral secular, fundada em argumentações racionais, e que se possa afirmar, ao contrário – como se diz no texto do papa emérito – que um mundo sem Deus seria necessariamente um mundo desprovido de sentido e de fundamento, no qual “não haveria mais os critérios do bem e do mal” e, consequentemente, desapareceria a medida do humano.

A relação entre fé e razão, que foi um dos motivos dominantes da reflexão ratzingeriana, não é radicalmente posta em discussão com isso? Em última análise, não se pode deixar de temer, à luz das considerações feitas até aqui, que o escrito de Bento XVI se torne uma espécie de manifesto de uma teologia pré-conciliar e possa, consequentemente, desenvolver a função de instrumento de autoridade nas mãos das correntes mais tradicionalistas presentes na Igreja para contestar as tomadas de posição doutrinais e pastorais do atual pontífice.

O vaticanista do jornal La Stampa, Domenico Agasso Jr., evidenciou isso muito bem em um artigo de comentário à intervenção de Ratzinger, ao escrever: “A acusação é explícita: o papa emérito intervém com um texto que pode representar ‘uma linha pastoral e teológica paralela à do papa’ e, assim, se presta a ser usada como arma pelos adversários de Francisco” (“Francesco e l’ombra di Ratzinger. La coesistenza che pesa sul Vaticano”, La Stampa, 14-04-2019, p. 11).

No texto do Papa Ratzinger, portanto, emerge uma visão pessimista (até mesmo trágica) da atual conjuntura eclesial; visão que não parece corresponder àquela que o Papa Francisco, ainda recentemente, apresentou na exortação apostólica Christus vivit sobre a moral sexual, em que se admite que “causa de incompreensão e afastamento da Igreja, pois é sentida como um espaço de julgamento e condenação” (n. 81), e se sublinha que, em vez disso, ela deve ser considerada como “dom de Deus”, portanto como uma realidade que, longe de ter que ser transformada em tabu, deve-se tornar objeto de profundo respeito e de gratidão (n. 261).

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