Vaticano: renúncia das mulheres do L’Osservatore Romano deve nos deixar com as orelhas em pé

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28 Março 2019

O Vaticano parece não se dar conta da mudança de estação que está se aproximando. Os homens da Cúria parecem não estar cientes disso, fiéis ao bom andamento da “máquina”; os conservadores parecem não perceber isso, intencionados unicamente a deslegitimar o pontífice; em boa parte, nem mesmo aqueles que sinceramente são favoráveis ao processo de reforma parecem não perceber isso. A novidade é que, na opinião pública, está se espalhando um clima de desencanto pelas viradas que não chegam.

O comentário é de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 27-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E quando a “massa” – quer se trate dos praticantes ou dos simpatizantes externos à instituição eclesiástica, mas favoráveis ao pontífice – começa a entrar em um mood de decepção e de frustração, ela pode reservar surpresas desagradáveis.

Nas realidades estatais seculares, desafoga-se o mal-estar através dos resultados eleitorais. Na dimensão daquele “Estado” particular que é o mundo católico, composto por um 1,3 bilhão de fiéis, o desconforto pode levar a um resultado diferente e, de certa forma, pior: uma erosão da credibilidade aos olhos dos próprios fiéis e da sociedade globalizada.

A ruptura violenta realizada no L’Osservatore Romano sobre a questão feminina com a demissão em massa da equipe de redação do caderno mensal “Donne Chiesa Mondo”, liderada pela historiadora Lucetta Scaraffia, vai muito além da tensão (em alguns aspectos fisiológica) que pode ser registrada entre uma redação especializada e a chegada de um novo diretor.

Não há razão para acreditar que o novo diretor, Andrea Monda, queira retroceder em relação à linha do Papa Francisco sobre a promoção do papel feminino na Igreja. Mas é preciso ficar com as orelhas em pé quando Scaraffia, escrevendo diretamente ao pontífice, denuncia o cerco produzido por um “clima de desconfiança e de deslegitimação progressiva”.

Sente-se, aqui, a reação da Cúria profunda, que nunca tolerou a independência do caderno feminino e entrou em alerta quando, no “Donne Chiesa Mondo”, apareceu a denúncia aberta dos abusos de poder cometidos na Igreja contra as mulheres.

Lucetta Scaraffia recorda isso explicitamente a Francisco: “Não fomos nós as primeiras a falar, como talvez deveríamos ter sido, das graves denúncias de exploração à qual inúmeras mulheres consagradas foram e são submetidas (tanto no serviço subordinado, quanto no abuso sexual), mas o contamos depois que os fatos haviam surgido, graças também a muitos meios de comunicação. Não pudemos mais nos calar (...) Agora, parece-nos que (...) se volta ao antiquado e árido costume da escolha a partir de cima, sob o direto controle masculino, de mulheres consideradas confiáveis”.

O ano de 2018 foi terrível para o pontificado. As revelações sobre a enormidade dos abusos sexuais perpetrados em várias partes do mundo, a constatação das tenazes políticas de acobertamento, a descoberta de que partes importantes da hierarquia também estavam prontas para mentir ao Papa Bergoglio (veja-se o caso chileno) abalaram a confiança de grandes camadas da opinião pública no sucesso das reformas eclesiais buscadas por Francisco.

É inútil que, no Vaticano, repita-se como um mantra que na cúpula dos presidentes das conferências episcopais não estava previsto um documento final (o cardeal alemão Marx e um pequeno grupo de bispos, porém, haviam pedido uma ata escrita de compromisso por parte dos episcopados).

A opinião pública, ouvindo as corajosas intervenções em favor da transparência e da realização de um sistema eficaz para identificar e punir os abusadores, esperava com razão que a cúpula se encerrasse com uma declaração pública sobre os protocolos a serem elaborados. “Será feito... será estudado” são frases que não fascinam mais.

E, enquanto tudo era posto no futuro, o ano de 2019 abriu com a condenação do cardeal Pell por odiosos atos de pedofilia, com a condenação do cardeal Barbarin por não denunciar um padre predador, com as polêmicas sobre os supostos assédios do núncio papal na França.

Agora vem a ruptura sobre o tema das mulheres no L’Osservatore Romano. E imediatamente o pensamento corre para o #metoo eclesial, que, como uma espada de Dâmocles, paira sobre as cabeças de padres e bispos ainda não descobertos, que, ao longo dos anos, usaram, com cinismo, simples fiéis e freiras como garotas de prazer.

E aqui também a falta de remédios exemplares só transformará toda revelação futura em uma avalanche que atinge o Vaticano. Acrescente-se a isso a crescente frustração no campo das mulheres católicas pela falta de realização daquele princípio que Francisco proclamara no início do pontificado: as mulheres devem ocupar lugares onde “se exerce o poder e se tomam decisões”.

À distância de meses, o documento da comissão sobre o diaconato feminino ainda não foi divulgado. E a falta de publicação e de um debate aberto sobre os caminhos a serem tomados contribui para alimentar na opinião pública a ideia de que o canteiro de obras sobre o papel feminino também entrou em uma fase de paralisia.

Scaraffia, que sempre foi uma moderada, nos últimos meses, enfatizou fortemente que as mulheres na Igreja não importam e não são ouvidas. E muitíssimas católicas – até mesmo teólogas de orientações diferentes da sua ou fiéis engajadas em atividades eclesiais – pensam como ela. O ano de 2019 realmente não começou nada bem.

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