Carta de Lucetta Scaraffia ao Papa Francisco: ''Clima de desconfiança e deslegitimação. Vamos jogar a toalha''

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27 Março 2019

O jornal La Repubblica, 26-03-2019, publicou o texto da carta com a qual Lucetta Scaraffia, responsável pelo caderno “Donne Chiesa Mondo” [Mulheres Igreja Mundo], publicação mensal feminina do jornal L’Osservatore Romano, comunicou a Bergoglio a sua renúncia e a da equipe.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro Papa Francisco,

Com grande desprazer, comunicamos-lhe que suspendemos a nossa colaboração com “Donne Chiesa Mondo”, o caderno mensal do L’Osservatore Romano fundado por nós, do qual Bento XVI permitiu o nascimento precisamente há sete anos e que o senhor sempre encorajou e apoiou.

Jogamos a toalha porque nos sentimos cercados por um clima de desconfiança e de deslegitimação progressiva, por um olhar em que não sentimos estima e crédito para continuar a nossa colaboração.

Com o fechamento de “Donne Chiesa Mondo”, conclui-se ou, melhor, rompe-se uma experiência nova e excepcional para a Igreja: pela primeira vez, um grupo de mulheres, que se organizaram autonomamente e que votaram entre si os cargos e a entrada de novos redatoras, pôde trabalhar no coração do Vaticano e da comunicação da Santa Sé, com inteligência e coração livres, graças ao consentimento e ao apoio de dois papas.

A nossa iniciativa, como o senhor deve saber, teve e tem um sucesso incomum, com uma edição impressa em espanhol publicada pela revista Vida Nueva, uma edição mais recente em francês com a La Vie e uma edição em inglês difundida na rede. Nesses sete anos, o nosso objetivo de dar voz às mulheres que, como Igreja, trabalham na Igreja e pela Igreja, abrindo-se ao diálogo com as mulheres de outras religiões, se realizou e envolveu milhares de leigas e de consagradas, defrontando-se continuamente com o pensamento e com a visão de leigos, de consagrados, de presbíteros, de bispos.

Os temas abordados foram muitos: das descobertas científicas à presença política; da releitura enriquecida pelas aquisições da história mais recente de santas doutoras da Igreja, como Teresa d’Ávila e Hildegard de Bingen, ao direito canônico; das qualidades femininas especiais que emergiram no anúncio do Evangelho e nas ações de pacificação no mundo aos pedidos das consagradas na Igreja de hoje.

Em cada número, deu-se espaço para a meditação dos textos evangélicos, sob o cuidado das irmãs da comunidade monástica de Bose, e para a exegese bíblica por parte de estudiosas também não católicas. A partir desse segundo filão, nasceram três livros sobre as mulheres do Antigo Testamento, sobre as dos Evangelhos e sobre as de São Paulo, editados por Nuria Calduch Benages e publicados também em espanhol.

A nossa redação, que se reuniu anualmente para um retiro espiritual de três dias no mosteiro de Bose, trabalhou como laboratório intelectual e interior, atenta a escutar e a acolher o que as leitoras assinalavam como lugar fecundo e como realidade de pesquisa, convencidas como o senhor de que a realidade é superior às ideologias, para abrir novos caminhos de diálogo. E estivemos prontas para percorrer também caminhos inexplorados.

Particularmente rico e interessante foi o aprofundamento da relação com as mulheres muçulmanas, que foi acompanhado pela redescoberta de uma densa presença feminina na antiga tradição islâmica, hoje quase ignorada. Muitas vezes sentimo-nos como mineiras que descobriam veios metálicos preciosos e os traziam à luz e ao conhecimento de todos: uma verdadeira riqueza humana e universal, e, nesse sentido, “católica”.

É claro que, entre as muitas cartas que recebemos das leitoras, incluindo inúmeras consagradas, também emergiram casos e vivências dolorosas que nos encheram de indignação e de sofrimento. Como o senhor bem sabe, não fomos nós as primeiras a falar, como talvez deveríamos ter sido, das graves denúncias de exploração à qual inúmeras mulheres consagradas foram e são submetidas (tanto no serviço subordinado, quanto no abuso sexual), mas o contamos depois que os fatos haviam surgido, graças também a muitos meios de comunicação. Não pudemos mais nos calar: a confiança que muitas mulheres depositaram em nós teria ficado gravemente ferida.

Agora, parece-nos que uma iniciativa vital está reduzida ao silêncio e se volta ao antiquado e árido costume da escolha a partir de cima, sob o direto controle masculino, de mulheres consideradas confiáveis. Desse modo, descarta-se um trabalho positivo e um início de relacionamento franco e sincero, uma oportunidade de parrésia, para voltar à autorreferencialidade clerical. Precisamente quando esse caminho é denunciado pelo senhor como infecundo.

Santo Padre, ao senhor e ao seu antecessor, devemos a gratidão por esses sete anos de trabalho apaixonado que – estamos certas disto – contribuíram, ainda que em pequena medida, para dar consciência, pensamento e alma femininos à Igreja no mundo: porque, realmente, como se lê na sua exortação apostólica Evangelii gaudium (n. 104), as mulheres “colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente”.

Lucetta Scaraffia

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