'Capitalismo gore' e a carnavalização da política. Entrevista especial com Ivana Bentes

Desfile da Mangueira | Foto: Rádio Jornal

Por: João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin | 15 Março 2019

Prenderam os executores de Marielle, mas quem mandou matar? Essa é a pergunta que importa agora”, diz a professora e pesquisadora Ivana Bentes à IHU On-Line, ao comentar a recente prisão de dois suspeitos do assassinato da vereadora carioca e de seu motorista, Anderson Gomes, que foram brutalmente executados há um ano. Segundo ela, “o caso Marielle Franco vem num crescente desde o Carnaval e as homenagens que foram feitas em diferentes escolas de samba, nos blocos apontam para um fenômeno singular de ressignificação da sua morte e a fixação de Marielle Franco em um imaginário político brasileiro e global que atravessa fronteiras”. 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Ivana ressalta que “a política entrou para o cotidiano dos brasileiros” e que esferas que antes estavam separadas, como política e futebol ou política e carnaval, agora estão juntas. É isso que explica, por exemplo, que o mesmo Rio de Janeiro que elegeu políticos da extrema direita também se tornou palco de protestos. “Não existe contradição” nesses dois fatos, frisa. Ao contrário, “existe uma disputa narrativa, uma disputa para efetivar mundos e as eleições, o carnaval, os blocos nas ruas, as práticas religiosas lutam em diferentes fronts nessa guerra cultural”.

Segundo ela,  “o samba-enredo da Mangueira mostrou que parte dos brasileiros e dos eleitores de Bolsonaro acreditaram na história oficial, contada pelos colonizadores brancos e escravistas; acreditaram no patriarcado e na exploração do trabalho dos muitos, celebraram o extermínio indígena, acreditaram em heróis como Padre Anchieta, Duque de Caxias, Floriano Peixoto, padres e militares mostrados pisando sobre corpos ensanguentados na avenida, em uma das imagens mais incríveis e chocantes de releitura da nossa história. E que produz um espelho real demais, atual demais, do próprio ideário bolsonarista e ultraliberal. Eram os bolsonaristas espelhados nas mesmas teses e valores dos escravocratas!”.

A professora também rebate as análises daqueles que criticam a politização de outras esferas da vida. “Não tem nada pior para a extrema direita do que a ideia de ‘politizar’ um acontecimento do cotidiano. Politizar a festa, o carnaval, o enterro, politizar a vida. Como se fosse algo escandaloso e condenável.”

Ivana Bentes | Foto: Arquivo Pessoal

Ivana Bentes é professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. É doutora em Comunicação, com graduação e mestrado em Comunicação Social pela mesma instituição. Ainda, foi secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura de 2015 a 2016. Tem se dedicado a dois campos de pesquisa: Estéticas da Comunicação, Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo, e Periferias Globais: produção de imagens no capitalismo periférico. Desde 2009 é coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O assassinato de Marielle e de seu motorista Anderson Gomes completa um ano. Essas manifestações que tomaram o Carnaval e agora a prisão dos suspeitos de assassinato podem impactar essa data? De que forma?

Ivana Bentes - O caso Marielle Franco vem num crescente desde o Carnaval e as homenagens que foram feitas em diferentes escolas de samba, nos blocos apontam para um fenômeno singular de ressignificação da sua morte e a fixação de Marielle Franco em um imaginário político brasileiro e global que atravessa fronteiras. Marielle se tornou um ícone e um símbolo das lutas mais radicais e vitais: das mulheres, das periferias, das negras, dos LGBTs. Ela carrega na sua figura lindíssima, forte e pop, uma síntese de tudo que é contemporâneo.

Vendo a iconografia em torno do seu rosto e sorriso largo, seu cabelo vistoso, suas roupas enfeitadas, me dou conta que Marielle é a nossa Frida Kahlo, no sentido dessas mulheres que suportam ou encarnam todas as dores do mundo com essa vitalidade e beleza que nos afeta e impacta. No caso de Marielle o fato de ter sido brutalmente assassinada no auge da sua potência e juventude produzem um efeito de comoção e empatia gigantescos.

Marielle se transformou em uma ideia e em uma linguagem. É a cara de uma nova esquerda pop e global, por isso é também odiada, porque era a cara de um futuro que precisava ser exterminado, como nesses filmes de ficção científica em que forças retrógradas e abissais enxergam o que chega produzindo uma colisão de mundos.

A sua imagem estava em bandeiras verde e rosa no desfile da Mangueira neste carnaval, no samba-enredo e em uma ala. Nesse sentido, foi muito comovente e feliz o samba-enredo que colocou Marielle, Marias, Mahins e Malês no mesmo samba e na mesma linha evolutiva de uma outra historiografia brasileira.

IHU On-Line - O Rio de Janeiro da Mangueira e de outras escolas de samba que fizeram da avenida o palco de protestos é o mesmo que elegeu nomes da chamada nova direita. Como compreender esse fenômeno?

Ivana Bentes - Não existe contradição. Existe uma disputa narrativa, uma disputa para efetivar mundos e as eleições, o carnaval, os blocos nas ruas, as práticas religiosas lutam em diferentes fronts nessa guerra cultural.

O que é surpreendente é que as esferas que eram consideradas separadas: política e futebol, política e carnaval explodiram. Veja que não tem nada pior para a extrema direita do que a ideia de “politizar” um acontecimento do cotidiano. Politizar a festa, o carnaval, o enterro, politizar a vida. Como se fosse algo escandaloso e condenável.

Os ataques conservadores são sempre pueris: estão querendo “politizar” isso ou aquilo. Usam isso como um xingamento. Pois justamente nós estamos vendo uma carnavalização da política e uma politização do carnaval e do cotidiano. Isso já tinha acontecido em 2013 quando politizamos o futebol, o que parecia impossível, a Copa do Mundo e os megaeventos, e também emergiram outras formas e linguagens que estetizavam e renovavam os discursos políticos. A política entrou para o cotidiano dos brasileiros em um contexto conflagrado e de embate. Uma tempestade semiótica, uma guerrilha comunicacional que chegou no auge nas eleições de 2018.

O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Temos um alinhamento distópico. Pense em uma conjunção infernal: um presidente da República de extrema direita, um governador saído do submundo do WhatsApp propondo premiar matadores, um prefeito evangélico que criminaliza a festa, o carnaval, as manifestações de rua.

O Rio de Janeiro hoje é o cenário do apocalipse em que se trava um embate crucial: o Brasil do capitalismo mafioso, dos poderes fáticos e essas emergências, como Marielle Franco e uma cultura das periferias exuberante em que todos são empreendedores da própria vida e inovadores.

O Rio de Janeiro é a vitrine do capitalismo mafioso, o laboratório de um capitalismo que precisa de violência e desigualdade para florescer. É o que a teórica mexicana Sayak Valencia Triana chama de “capitalismo gore” no contexto do México, mas que serve para o Brasil:

Esse termo se refere ao derramamento de sangue explícito e injustificado, à altíssima porcentagem de vísceras e desmembramentos, frequentemente mesclados com a precarização econômica, ao crime organizado, à construção binária do gênero e aos usos predatórios dos corpos, tudo isso através da violência explícita como ferramenta de ‘necroempoderamento’.” [1]

E o que é esse “necroempoderamento” no Rio de Janeiro, um Estado em que a relação entre política, polícia e milícia se tornou indissociável? Valencia Triana fala de “processos que transformam contextos e/ou situações de vulnerabilidade e/ou subalternidade em possibilidade de ação e autopoder” a partir de práticas distópicas e de autoafirmação perversa. Fala de práticas violentas rentáveis dentro das lógicas da economia capitalista”. E o que mais importa em um contexto em que os “os corpos são concebidos como produtos de intercâmbio que alteram e rompem o processo de produção do capital, já que subvertem os termos deste”.

Por isso falamos de uma necropolítica, como diz o teórico negro Achille Mbembe, em que a vida e os corpos são o objeto de extermínio e destruição. O uso de violência extrema, as execuções, os assassinatos, a tortura, o sequestro, a venda de órgãos humanos, tudo entra nesse contexto do capitalismo gore em que uma Marielle Franco pode ser executada pelo que significava politicamente e pelo que encarnava no seu corpo. As emergências e os corpos disruptivos, que abalam a lógica do sistema.

Ou seja, no México ou no Brasil e em muitos outros contextos, em uma epidemia global, o que vemos são a popularização de práticas criminosas e a violência como ferramenta de enriquecimento rápido que permitirá sustentar não apenas bens comerciais, mas que produz valorização social: narcocultura e milícias.

IHU On-Line - Como compreender o que representa a morte da vereadora Marielle Franco?

Ivana Bentes - Prenderam os executores de Marielle, mas quem mandou matar? Essa é a pergunta que importa agora. Os policiais militares suspeitos do assassinato de Marielle Franco foram presos dois dias antes do 14/03, um ano de sua execução bárbara, talvez para neutralizar os atos em sua memória que acontecerão no Rio, no Brasil e pelo mundo. É difícil imaginar que dois milicianos resolveram matar Marielle de forma “abstrata”, por causa da agenda que ela defendia simplesmente. Mas não é difícil imaginar o mandante ou os mandantes do crime matando dentro da agenda desse “capitalismo gore” que precisa de uma cultura para florescer.

E nesse sentido a cultura das milícias que matou Marielle é a mesma da família Bolsonaro, é a mesma professada por parte do grupo político que chegou ao poder com o presidente Jair Bolsonaro. O Sargento Ronnie Lessa, apontado como o executor e atirador que matou Marielle, mora no mesmo condomínio de luxo da Barra da Tijuca em que mora Jair Bolsonaro. O problema não é apenas factual, apesar da nefasta coincidência.

A família Bolsonaro não precisa estar envolvida diretamente no assassinato de Marielle Franco para ficarmos escandalizados, por exemplo. Estão envolvidos com a cultura das milícias e dos grupos de extermínios, a cultura dos torturadores, como expressam publicamente e como ficou provado com os milicianos que empregam nos seus gabinetes e prestam homenagem na Alerj. Ou com seus aliados políticos que quebraram a placa em homenagem a Marielle em um ato de vandalismo e tantas outras relações de proximidade com o Escritório do Crime no Rio de Janeiro.

PMs, milícias, e a família presidencial defendem esses valores mais nefastos e antidemocráticos e não se comovem com o horror da execução de uma mulher extraordinária e uma vereadora do Brasil. O caso Marielle se tornou hoje algo muito maior, no contexto da eleição de Bolsonaro e de ascensão da extrema direita, no cenário da eleição do governador Witzel no Rio de Janeiro, um “desconhecido” que, associado a Bolsonaro, saiu do submundo do WhatsApp para o governo de um dos mais importantes estados do Brasil.

Marielle ganha um significado gigantesco porque encarna hoje todos os discursos de resistência a esse estado de coisas. Uma onda global diante de um assassinato real e simbólico, que mata valores que prezamos. Marielle morta e tudo em torno desse assassinato talvez seja a maior força para o início de uma derrocada de Bolsonaro e da cultura de extrema direita que foi vocalizada e visibilizada pós-eleições. Marielle é uma peça-chave para sairmos do modo de operação das milícias reais e simbólicas.

IHU On-Line - Como a senhora analisa a postagem do presidente que, em sua conta oficial no Twitter, tenta denegrir a imagem do Carnaval? O que está por trás dessa ação?

Ivana Bentes - O presidente do Brasil respondeu a provocações dos blocos de carnaval de rua, que em todo Brasil viralizaram o “Ei Bolsonaro vai tomar no cu” e outros impropérios, tentando desqualificar a maior e mais amada festa de rua popular brasileira com uma imagem garimpada nas redes para “horrorizar” o cidadão de bem. Como se o carnaval de rua fosse um vídeo pornográfico da deep web proibido para a família brasileira. Mas dessa vez não funcionou porque simplesmente Bolsonaro estava falando da festa mais conhecida do país, e não da “ideologia de gênero”, do “comunismo” ou de outras fantasmagorias abstratas.

Assim, no meio de um carnaval ativista e politizado, com mil blocos contra tudo o que está aí, o presidente da República desceu ao mais baixo com o mesmo modus operandi da “mamadeira de piroca” e das fake news que o elegeram, desqualificando a festa e o seu povo. Bolsonaro e seus mentores parecem desconhecer o básico do carnaval: deboche, ironia, inversão, humor, fazer em público o que se esconde no privado, liberdade. A maior tecnologia de catarse e beleza deste país.

O carnaval de rua brasileiro renasceu, floresceu, cresceu e hoje é orgulho em todo o Brasil! São Paulo, que já foi o “túmulo do samba”, reinventou o carnaval e hoje a cultura carnavalesca faz a felicidade de milhões nas ruas de todo o país — e de graça. Além de aquecer a economia, o turismo e o “FIB”, a felicidade interna bruta dos brasileiros, dos mais pobres aos mais ricos. Um dispositivo de reversão das forças mais hostis, da violência, desigualdade e pobreza em deslumbramento e alegria.

O fascismo bolsonariano é apenas isso: uma promessa de partilha do ódio e do uso da violência real e simbólica. Este é o grande e único projeto de governo e ele foi eleito para isso. Mas com 100 dias de governo, o “projeto” vai se revelando em todo o seu horror.

IHU On-Line - O que o episódio de publicação desse vídeo revela acerca da estratégia de comunicação do presidente Jair Bolsonaro? Que fenômeno é esse e o que implica essa postura do presidente de buscar um canal de comunicação alheio à própria mídia?

Ivana Bentes - O vídeo postado para horrorizar a família é de um jovem gay manipulando o próprio ânus. Pouco depois, o cara que está ali em cima com ele mija nos seus cabelos, o que é catalogado entre as práticas sexuais como “chuva dourada” ou golden shower.

Uma provocação com uma plateia mínima em um lugar qualquer deste Brasil. Muitas outras imagens descontextualizadas e isoladas poderiam ser postadas para “causar”. Mas para quê? O vídeo foi garimpado na web pelos assessores de Bolsonaro para mostrar a verdade do carnaval! Eis a mentira. E isso utilizando-se da conta do presidente da República no Twitter para todo o mundo ver e “odiar” o carnaval do Brasil. O presidente prefere entrar em guerra contra o carnaval em vez de encarar a sua rejeição no campo narrativo.

A estratégia foi a mesma usada para desqualificar as manifestações do #EleNão durante a campanha para as eleições de 2018. Depois das manifestações capitaneadas pelas mulheres contra Bolsonaro em todo o Brasil, as milícias digitais bolsonaristas inundaram o WhatsApp com imagens de mulheres nuas, atos sexuais, pornografia, imagens sem datas e nem origem, como se fossem a verdade sobre as manifestações.

O MBL não hesitou em, mesmo reprovando o post de Bolsonaro, voltar à associação entre artistas, cultura, pornografia e perversão, publicando em 7 de março deste ano um texto intitulado “‘Artistas’ mijões e cagões ganham espaço na imprensa”. Mas a estratégia eleitoral se mostra ela mesma grotesca e “fora de lugar” quando o candidato se torna o presidente da República mantendo o mesmo comportamento aberrante da campanha.

IHU On-Line - Alguns analistas consideraram que a Mangueira ofereceu um caminho de revolução histórica. Que caminho é esse e no que consiste essa ideia de revolução?

Ivana Bentes - Eu prefiro falar simplesmente de uma releitura da história que ressignifica as lutas e os heróis para responder aos desafios um presente urgente. Uma história viva que reconecta passado, presente e futuro. As narrativas históricas podem ser disputadas não apenas pelos historiadores, mas pelos blocos de rua, incontroláveis, ou pelas escolas de samba, na avenida, como vimos nos desfiles da Paraíso de Tuiuti e principalmente da Mangueira, sagrada campeã do Carnaval 2019. Ou seja, estamos falando de uma vitória narrativa contra o Brasil oficialesco, normativo, hierárquico.

A nossa bandeira agora será Mangueira, cantaram as multidões quando a escola de samba apresentou a história do Brasil de ponta-cabeça, com um samba lindíssimo encenando uma sociedade racista, comandada pela branquitude, por escravocratas; um enredo corajoso sambando na cara dos conservadores e nas teses da extrema direita.

O samba-enredo da Mangueira mostrou que parte dos brasileiros e dos eleitores de Bolsonaro acreditaram na história oficial, contada pelos colonizadores brancos e escravistas; acreditaram no patriarcado e na exploração do trabalho dos muitos, celebraram o extermínio indígena, acreditaram em heróis como Padre Anchieta, Duque de Caxias, Floriano Peixoto, padres e militares mostrados pisando sobre corpos ensanguentados na avenida, em uma das imagens mais incríveis e chocantes de releitura da nossa história. E que produz um espelho real demais, atual demais, do próprio ideário bolsonarista e ultraliberal. Eram os bolsonaristas espelhados nas mesmas teses e valores dos escravocratas!

A Mangueira homenageou os indígenas, as mulheres negras, os quilombolas, transformando os heróis oficiais em anões no seu abre-alas. Uma ousadia e um choque. A Mangueira fez uma festa-desfile-protesto contra o assassinato de Marielle Franco na Sapucaí em uma homenagem emocionante que triunfa sobre a morte. Não verás um país fascista no carnaval. O Brasil mostrado apresentou uma bandeira nova, com “índios, negros e pobres” no centro do projeto de país. Uma simbologia forte e esteticamente popular. Uma contranarrativa de tudo que está aí.

Existe hoje um ativismo mainstream que passa pelas grandes manifestações culturais massivas, e o Carnaval é um desses lugares que consolidam outros imaginários e fazem a disputa narrativa. A Paraíso do Tuiuti e a Mangueira levantaram o sambódromo. Tuiuti de volta literalmente ao discurso “alegórico” para contar a história do Bode Ioiô, político vindo do nada, “um bode vindo lá do interior/Destino pobre, nordestino sonhador/Vazou da fome, retirante ao Deus dará/ Soprou as chamas do dragão do mar”, com muitas alusões à saga de Luiz Inácio Lula da Silva e aos coxinhas de arminhas na mão e até um carro alegórico ativista ao final com a faixa “Ninguém solta a mão de ninguém”, símbolo das lutas e resistência antibolsonaristas.

A Mangueira reescreveu uma parte da história: “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento/ Tem sangue retinto pisado/Atrás do herói emoldurado/ Mulheres, tamoios, mulatos/Eu quero um país que não está no retrato”. Vimos o Padre Anchieta e Duque de Caxias, um religioso e um militar, pisando sobre corpos negros, indígenas, corpos de homens e mulheres. O carro que fechou o desfile da Mangueira com as bandeiras verde e rosa de heróis contemporâneos e lutas ancestrais levou à catarse: “Brasil, chegou a vez. De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”.

IHU On-Line - Levando em consideração o samba-enredo da Mangueira, campeã do carnaval carioca, e as manifestações políticas presentes em outras escolas de samba e blocos em todo o Brasil, como analisa este Carnaval dentro do atual contexto político?

Ivana Bentes - O carnaval é um momento em que se pode dizer a “verdade”, escrachar, explicitar o que está reprimido. Então a linguagem carnavalesca, o humor, o escracho, são as linguagens que melhor respondem ao populismo digital e a essa estética do grotesco na política.

Por que os que vestem a camiseta do torturador Ustra se incomodam tanto com uma performance na rua, que é uma exceção e não a regra do carnaval? Por que se incomodaram tanto com a performance no Rio de Janeiro de uma atriz que colocou baratas de plásticos sobre sua genitália, vestida, mas fazendo alusão à tortura praticada pelo Coronel Ustra, ídolo da família Bolsonaro?

Talvez porque essas performances produzam, na sua literalidade e “mau gosto”, a crueza e o horror desses atos inomináveis defendidos pela extrema direita. Porque “igualam” em termos estéticos (mas não nos valores) o horror dos atos de extrema direita e as performances simbólicas que usam o choque como crítica e resistência. Diante do horror e das palavras e dos atos brutais de nossos governantes, só nos resta o “choque do real” na mesma moeda e com o mesmo “mau gosto” e demência?
Censurada pelo governador, a performance no Rio aconteceu na rua e foi enviada à Polícia Militar para quem sabe nos impedir de ver o óbvio e/ou “tirar as crianças da sala”. O que não podemos ver, afinal, que o Coronel Ustra fazia e gabava-se e seus seguidores celebram? Se celebram, por que querem esconder? Porque sabem que é vergonhoso e a performance expõe o óbvio. Aliás, as mulheres também eram mantidas nuas nas sessões de tortura! Por que agora querem censurar a nudez e a sexualidade?

Se estamos em uma “guerra cultural”, a cultura tem o maior poder de produzir um curto circuito em “tudo que está aí”. Uma arte sim brutal, literal, que nos embrulhe o estômago, nos enoje e não nos deixe acostumar com o horror. O que vimos no carnaval não foi sequer uma performance intencional, poderia sim ser considerada “atentado ao pudor”, mas é algo tão pequeno dentro da beleza e grandiosidade da festa que destacar essa imagem explicita a guerra de valores, a guerra narrativa feita da forma mais baixa.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Ivana Bentes - Sim, esse ativismo mainstream no carnaval e nas ruas aponta para outras formas de disputas narrativas, com base nos corpos e comportamentos. A performance de José de Abreu, autoproclamado Presidente da República do Brasil, é outro bom exemplo. Um ator atuando de forma irônica e paródica, escrachando a fragilidade das democracias latino-americanas, incomoda os puristas da direita e da esquerda.

O Presidente da República eleito agora tem um espelho que amplifica seu comportamento tosco. Bolsonaro não é melhor que o personagem de Zé de Abreu: tosco, pimpão, fanfarrão e narcisista. E incomoda a esquerda que acha que qualquer coisa que "não seja séria", qualquer expressão na linguagem popular do deboche, do grotesco e da sátira é "impuro". Parece que não aprenderam nada com a eleição de Bolsonaro, o presidente meme!

A extrema direita tem uma legião de youtubers, fazedores de memes, personagens zueiras e uma milícia digital. O humor, a carnavalização são linguagens políticas. Nós falamos tanto na cultura popular digital e quando ela chega e se massifica, quando ela chega e nos derrota, parte da esquerda toma horror do processo e da linguagem e não do seu uso.

Ou seja, além de trabalho de base, organização, autocrítica, formação, novas lideranças políticas, blá blá blá, nós precisamos de uma legião de zédeabreus, de youtubers, de zoadores, de carnavalescos, uma massa crítica no comentariado das redes que professe e lute por outros valores não conservadores e não fascistas, em todas as mídias e usando todas as linguagens.

Precisamos de escolas de memes, porque só a "comunicação séria", só os panfletos, só os abaixo-assinados para letrados, só os manifestos, só os partidos, só os movimentos organizados, não resolveu não! Continuaremos a fazer letramento, mas no momento um programa de auditório como Amor e Sexo, ou a festa do Oscar, ou o #8M nas ruas ou tudo que é mainstream deveria nos interessar muito.

O campo das esquerdas perdeu as eleições presidenciais por fatores múltiplos e complexos, mas também por não saber renovar a sua linguagem. E ninguém tem a fórmula mágica para isso. Precisamos de um ativismo pop e mainstream. Se o Zé de Abreu fura a bolha e incomoda o Presidente da República que nomeou um aliado, um ex-ator pornô deputado, Alexandre Frota, para processá-lo por "confusão no aeroporto", temos que ficar atentos. O cabaret está vindo abaixo! Não precisamos ficar no “bomgostismo” das nossas verdades complexas apenas.

Como diria o Bandido da Luz Vermelha, personagem genial do cineasta Rogério Sganzerla: "Quando a gente não pode fazer a gente avacalha". Aliás, uma das linguagens potentes das manifestações de 2013.

Não estou discutindo a posição de Zé de Abreu em nenhum caso específico, mas sua performance como bobo da corte em 2019. Aliás, as sátiras presidenciais no Brasil têm sido profícuas e suas personas virtuais também, como a Dilma Bolada e outras. O Zé de Abreu só fez o "download" do personagem virtual para o "real" (que aliás nunca estiveram separados) e ajuda a carnavalizar a política.

Se Zé de Abreu também comete erros, como declarar que "ser branco agora é um privilégio" deve ser trollado até aprender, exatamente como o nosso presidente original. Estamos em uma fronteira confusa em que o grotesco da política e da paródia se confundem. Não precisamos lidar com a política apenas de forma objetiva e racional. Os idiotas da objetividade era como Nelson Rodrigues chamava carinhosamente as pessoas que liam o mundo literalmente e de forma objetiva. Isso em um texto antológico que criticava a "monstruosa e alienada objetividade" jornalística. Por isso acredito que a carnavalização é nossa aliada em um mundo que experimenta a desrepressão bárbara, mas também o que essa desrepressão possa ter de libertária.

Nota:

[1] Capitalismo Gore y necropolítica en México contemporáneo.

 

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