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15 Fevereiro 2018

A escola só escancarou o que já estava claro em pesquisas de opinião.

O artigo é de Laura Carvalho, professora do Departamento de Economia da FEA-USP, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 15-02-2018.

Eis o artigo.

No que tornou-se o segundo assunto mais comentado no Twitter em todo o mundo, uma escola de samba do grupo especial do Rio de Janeiro vulgarizou as associações que, daqui para a frente, pautarão o debate eleitoral no Brasil.

Ao contrário da grande mídia, que tem limitado suas manifestações críticas ao governo Temer ao seu envolvimento escancarado com atos de corrupção, a vice-campeã do carnaval carioca de 2018, a Paraíso de Tuiuti exibiu na avenida seu vampirão neoliberalista, transformando em alegoria a agenda econômica que ainda une boa parte do status quo no país.

A denúncia da Escola quanto à persistência da escravidão no Brasil desaguou em alas que representavam o sofrimento oriundo do trabalho informal degradante na cidade, o trabalho escravo no campo e o ataque a direitos trabalhistas consagrados. Logo após a ala Guerreiros da CLT, manifestoches levados por patos da Fiesp batiam panelas, em alusão às manifestações em favor do impeachment de Dilma Rousseff.

Embora não citado na bibliografia que consta da sinopse do enredo do carnavalesco Jack Vasconcelos, é difícil não associar as alegorias da Tuiuti à controversa interpretação de Jessé de Souza em seu livro A Elite do Atraso da escravidão à Lava Jato.

Segundo o autor, nossa elite econômica também é uma continuidade perfeita da elite escravagista. Ambas se caracterizam pela rapinagem de curto prazo. Antes, o planejamento era dificultado pela impossibilidade de calcular os fatores de produção. Hoje, como o recente golpe comprova, ainda predomina o quero o meu agora, mesmo que a custo do futuro de todos.

Como que explicando a ala Trabalho informal na cidade, em que trabalhadores braçais são representados executando atividades extenuantes, Jessé afirma ainda que a ralé de novos escravos, mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta.

Como se sabe, foi justamente o meio da pirâmide de distribuição de renda que perdeu com o processo de crescimento dos anos 2000: os 40% intermediários reduziram sua participação na renda de 34% para 32% naqueles anos, em um processo que foi chamado pelo pesquisador Marc Morgan de squeezed middle, ou miolo espremido.

Enxergando o crescimento acelerado dos salários na base e o encarecimento do trabalho doméstico e dos serviços em geral, é possível que essa classe intermediária tenha se unido à elite esta sem qualquer razão material para a insatisfação no apoio ao impeachment de 2016. Diante da evidência de que, desde então, sua situação só piorou, tais setores podem vir a mudar de lado.

Parecem ter se enganado os que pensavam que o desafio dos próximos embates eleitorais resume-se a encontrar candidatos ficha limpa dispostos a defender o programa econômico que já está sendo implementado. A Tuiuti apenas escancarou o que já estava claro em pesquisas de opinião: a impopularidade de Temer explica-se também por sua agenda antidemocrática.

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