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15 Março 2019

"Uma vez que os alunos optarem por usar sua voz, é responsabilidade da escola garantir que eles o façam dentro da estrutura de uma experiência de aprendizado, apoiados e seguros para experimentar como se parece e se sente com uma cidadania ativa", escreve Jo Hart, membro da equipe Identidade e Educação Libertadora da Edmund Rice Education Australia — EREA, publicada por Eureka Street, página eletrônica dos jesuítas australianos, 13-03-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

No último mês de novembro, milhares de estudantes pela Austrália sacrificaram uma pequena parte de sua educação formal para sair em greve contra a mudança climática. A ação foi conduzida por estudantes de escola básica e inspirados pela companheira estudante da Suécia, Greta Thunberg. Ao mesmo tempo, o Primeiro-Ministro Scott Morrison chamou para “mais aprendizado e menos ativismo” nas escolas, e o ministro de Recursos Matt Canavan disse que os grevistas somente aprenderão “como entrar na fila de desemprego”.

Seria interessante que nossos mais altos funcionários respondessem da maneira como responderam, em seu próprio documento, assinado por todos os ministros da Educação em todo o país, comprometidos com o objetivo de desenvolver cidadãos ativos e informados, incluindo uma meta para os jovens desenvolverem "valores nacionais de democracia, equidade e justiça, e participar na vida cívica da Austrália" (Declaração de Melbourne sobre Metas de Educação para Jovens, de 2008).

Apesar dessas críticas, a próxima Greve da Escola pelo Clima acontece nesta sexta-feira, 15-03-2019. Desde novembro, no entanto, os eventos em torno dos estudantes da Escola Secundária Católica de Covington, após a Marcha pela Vida em Washington, atingiram as manchetes, levantando sobre qual o lugar que a defesa dessas questões tem nas escolas – particularmente nas escolas católicas – e diretrizes relevantes.

Ao contrário dos EUA, o envolvimento dos estudantes nessas defesas nas escolas australianas tem sido relativamente pequeno, local, muitas vezes nas dependências da escola e com rede coletiva limitada. Nos últimos anos, algumas ações ocorreram em algumas escolas de todo o país por meio do projeto Detenção pelos Detentos, coordenadas por meio de uma rede informal, a ERA for Change. Esta ação exigia que todas as crianças que procuravam asilo fossem removidas da prisão. Isto foi finalmente realizado para crianças em detenção no exterior.

Os estudantes estiveram presentes em eventos públicos, como o Desfile das Lanternas em Brisbane e em vários Ralis de Domingo de Ramos para Refugiados em todo o país. Mas os números foram pequenos e incidentais em termos gerais. Nada estimulou a imaginação dos estudantes na memória recente como o protesto de Thunberg pela mudança climática.

Essa defesa é uma ação muito católica. A Doutrina Social da Igreja nos desafia a trabalhar pela dignidade de toda a criação, a trabalhar pela capacidade de cada pessoa de participar na vida e na tomada de decisões da nossa sociedade. Amplificar as vozes dos que não são ouvidos em nossa sociedade, incluindo o próprio planeta em que vivemos, é em si uma resposta católica ao chamado do Evangelho. O currículo australiano também enfatiza a participação na sociedade e o ensino de habilidades que permitem isso, como cidadania e compreensão ética.

Dadas essas bases, as escolas católicas, em particular, deveriam estar educando para a defesa de direitos. Isso significa que eles vão transportar multidões de jovens para as ações climáticas de 15 de março em todo o país? Não necessariamente.

Não há diretrizes para as escolas sobre como elas trabalham com alunos que estão querendo participar de manifestações públicas dessa defesa. No entanto, a maioria das lideranças escolares é avessa ao risco e adotam uma abordagem conservadora. As diretrizes para as escolas católicas, portanto, vêm de dentro da tradição católica.

A encíclica do Papa Francisco, Laudato Si', nos dá a fórmula para a defesa católica, que pode informar as escolas sobre a forma como educam: isso é urgente e convidativo. As escolas devem educar os jovens para que tenham um envolvimento profundo com as realidades do nosso mundo, um engajamento que resulta na compreensão da urgência de questões como a mudança climática e resulta em mudanças de paradigma como aquelas que Laudato Si' está pedindo. Uma educação que avalia criticamente as realidades do nosso mundo, local e globalmente.

A partir de experiências de aprendizado tão ricas e reais, como nossos alunos podem não questionar nossos líderes institucionais, incluindo políticos? A questão para as escolas é como ensinamos nossos jovens a encontrar sua voz e usá-la bem.

Os professores são treinados para ajudar os jovens a navegar pelas complexidades do mundo real. Eles estão fazendo isso todos os dias enquanto as conversas e os momentos de ensino surgem da mais recente manchete da mídia ou controvérsia nas redes sociais. Os professores também são treinados para fazer as coisas acontecerem; planejar experiências de aprendizado efetivas e relevantes, reservar ônibus, concluir avaliações de risco e organizar formulários de permissão.

Como eles simplesmente sentam e veem como os jovens da escola respondem? Como eles convidam sem expectativa? Isso, para muitos professores engajados e por experiência pessoal, é uma tarefa realmente difícil, mas também completamente necessária. Como ficamos quietos e vemos o que acontece quando podemos ver a urgência do problema? E, no entanto, como levar a sério o princípio de participação da Doutrina Social da Igreja se não permitirmos que os jovens tenham a agência, não apenas decidindo aderir à ação, mas expressando o desejo de responder à urgência em primeiro lugar?

Deve vir dos próprios jovens. Para que eles realmente experimentem a agência, isso deve vir deles.

O que isso significa para as escolas quando ocorrem ações locais, nacionais e internacionais? Pode ser uma época em que a qualidade da educação católica é mais testada. Talvez este seja o verdadeiro teste do NAPLAN das escolas católicas (Nota IHU On-Line: NAPLAN é uma avaliação nacional de aprendizado dos estudantes na Austrália).

A tradição católica nos diz que a defesa nas escolas deve ser convidativa, de base, fundamentada em um profundo entendimento das questões, e realizada através de ações não violentas. Uma vez que os alunos optarem por usar sua voz, é responsabilidade da escola garantir que eles o façam dentro da estrutura de uma experiência de aprendizado, apoiados e seguros para experimentar como se parece e se sente com uma cidadania ativa.

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