“A Igreja chilena deve aproveitar para uma mudança muito radical de sua própria estrutura”. Entrevista com o jesuíta Fernando Montes

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06 Fevereiro 2019

Fernando Montes é um dos grandes conhecedores da realidade da Igreja católica no Chile. De fato, em razão da visita do Papa, foi consultado pela embaixada chilena no Vaticano para mostrar qual era essa realidade. O sociólogo jesuíta desempenhou serviços de grande responsabilidade, como diretor da Revista Mensaje, provincial dos jesuítas chilenos e reitor da Universidade Alberto Hurtado.

Nesta entrevista, reconhece que a Igreja chilena passa por “uma situação completamente delicada”, que não é fácil ser resolvida. Em sua análise aparecem elementos muito presentes na vida da Igreja chilena nos últimos anos, como o tema dos abusos, a visita do Papa e suas consequências, a dificuldade de encontrar pessoas adequadas para conduzir os novos rumos.

Na opinião de Fernando Montes, “a Igreja deve aproveitar esta oportunidade para uma mudança muito radical de sua própria estrutura”. Tornar realidade um cristianismo que seja “verdadeira escola de humanidade”, que escuta, que vive o abaixamento, uma ideia presente em Santo Inácio e assumida pelo Papa Francisco.

A entrevista é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 03-02-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

No seu ponto de vista, qual é hoje a situação da Igreja chilena?

É uma situação completamente delicada, sobretudo caso seja comparada com a maneira como a Igreja ficou ao final da ditadura: era a instituição mais respeitada, os bispos, as pessoas mais credíveis do país, e isso sem discussão nenhuma, da direita à esquerda. Eu diria que há duas causas, a verdadeiramente discutida com a descoberta de abusos, de sacerdotes muito significativos, e isso foi uma e outra vez reiterado pela imprensa. Essa é uma das causas da perda de confiança, mas eu acredito que é necessário adentrar mais.

A mudança do Chile é muito radical nos últimos anos. É o país com maior cobertura em celulares, em internet, na América Latina, no aumento da renda per capita. A aceleração das mudanças é tal que todas as instituições são questionadas, e a Igreja deve aproveitar esta oportunidade para uma mudança muito radical de sua própria estrutura, escolha dos bispos, modo de participação e lugar ocupado pelas mulheres, etc. Isso tem que ser revisado a fundo.

Inclusive, no Chile, estão surgindo muitos movimentos que pretendem uma reforma da Igreja a partir dos leigos, o que dizer diante de tudo isso?

É muito forte sobretudo depois que se nomeou, contra o parecer da Conferência Episcopal do Chile, e isso é importante, um bispo em Osorno, que foi ferozmente rejeitado por um grupo de leigos, os famosos leigos de Osorno. Isso foi motivando agrupamentos no país, mas sobretudo uma carta dirigida pelo Papa, primeiro aos bispos e depois aos católicos do Chile. Pede que haja integração, escuta, responsabilidade, de todos. E isso, certamente, teve um peso enorme.

O problema é que não temos infraestrutura, junta-se um pequeno grupo e se sente responsável e representante de todos. É preciso gerar logo as estruturas de representação que realmente representem a maioria.

Como a Igreja, sobretudo o episcopado, está reagindo a essa carta do Papa Francisco?

O episcopado chileno foi radicalmente modificado após a ditadura, entrou gente muito boa, mas provavelmente com uma visão de conjunto de menos presença social. Esse episcopado apresentou em bloco, após as cartas do Papa, sua renúncia. Foi a primeira vez que tivemos uma conferência episcopal inteira renunciando. Por um lado, isso tira todo o peso, e por outro lado o contínuo golpe da imprensa faz com que os bispos sejam particularmente questionados.

É uma situação muito difícil, porque não se encontra verdadeiramente as substituições dos atuais bispos. Por exemplo, o Arcebispo de Santiago ultrapassou a idade, suplicando que seja retirado e não se encontra seu sucessor.

Inclusive, chegou-se a especular com a possibilidade de chegar alguém de fora. Chegou a aparecer o nome de Jordi Bertomeu, o auxiliar de dom Scicluna.

Falou-se, e muito, da possibilidade de que venha alguém de fora. A maioria de nós acredita que é lógico que seja um administrador apostólico, uma pessoa que venha e tenha autoridade, que tomara que seja conhecido, que o Arcebispo não seja nomeado diretamente.

Qual seria a reação da Igreja do Chile, de Santiago, se chegasse alguém de fora?

Eu acredito que neste momento já estamos disponíveis para tudo, e há uma consciência muito grande de que há uma dificuldade enorme para encontrar no Chile alguém que possa assumir. Neste último ano, em um só ano, sendo uma conferência pequena, foi necessário nomear sete novas autoridades, que não foram novos bispos, mas novos administradores apostólicos. Foram mudados: bispos auxiliares colocados para dirigir dioceses. Mas, para encontrar esses sete foi dificílimo. Encontrar mais, e sobretudo o Arcebispo de Santiago, parece que não há mais onde buscar, de modo que não estranharíamos muito.

O que significou para a Igreja do Chile a visita do Papa Francisco, no ano passado?

Pessoalmente, estive em Roma, convidado pela Embaixada do Chile, buscando tornar conhecida a situação que havia no Chile. Tínhamos sobretudo o caso de um bispo, o bispo Barros de Osorno, onde pela confusão da imprensa foram misturados três problemas distintos. Este bispo, ninguém pode acusá-lo de ser abusador, mas pertencia ao grupo do sacerdote Karadima, que foi o protótipo de abusos sexuais e abuso de poder, e este homem era um dos homens de confiança de Karadima.

Eu sempre disse, não diga que dom Barros é abusador, não há nenhuma prova, mas, sim, é possível dizer que é uma imprudência da Santa Sé o nomear bispo sem consultar o clero do lugar, sem consultar os leigos do lugar. Sobretudo, porque não havia ido muito bem, pelo que parece, em seu cargo anterior nas forças armadas. Então, vem o Papa, e este bispo ocupou lugares relevantes, em todas as atividades do Papa lá estava ele, e a imprensa se centrava nisso, praticamente sem escutar o Papa.

Finalmente, o último dia, no último momento, disse que tudo o que se dizia de dom Barros eram calúnias, acusando os acusadores de caluniadores, confundindo. Poderia ser calúnia dizer que ele era abusador, mas nunca dizer que não era prudente o nomear bispo nessas circunstâncias. E isto ofuscou e foi o centro, e praticamente gerou um mal-estar muito grande, e um antes e um depois. Foi pouco feliz a maneira de se preparar a visita do Papa, foram tomadas medidas de segurança excessiva, localizou-se em lugares que não eram os mais aptos para receber, e houve vezes que as pessoas não puderam comparecer, não conseguiram entrar e, no entanto, ao final, os lugares estavam semivazios. Foi um problema grave de preparação, em parte devido ao excesso de preocupação dos funcionários do Vaticano com problemas de segurança.

Pode-se dizer que isso tirou credibilidade ou autoridade da figura do Papa Francisco no Chile?

No início, foi um golpe muito duro. No entanto, ele pediu perdão, e não só isso, mas enviou as cartas, e algo muito interessante, convidou as vítimas ao Vaticano e lhes fez uma acolhida especial. De certa maneira, isso o reabilitou bem profundamente. Foi delicado para os bispos, e então os bispos ficaram como os maus, quando de fato a nomeação vinha basicamente do Vaticano, não vinha dos bispos chilenos.

Muitos dizem que 2019 será um ano decisivo para o pontificado do Papa Francisco, e como consequência da própria Igreja católica, com a Jornada Mundial da Juventude, recentemente celebrada, o encontro com os presidentes das conferências episcopais sobre o tema dos abusos e o Sínodo para a Amazônia. Em sua opinião, o que estes acontecimentos podem significar?

O Papa tem muita idade, e eu acredito que as mudanças culturais, exceto se há o que nos acontece no Chile, terremotos, as mudanças culturais não são fáceis de fazer, você não pode mudar duzentos pessoas, mil pessoas, trabalhando no Vaticano, de um dia para outro. Você vai dando sinais e gerando nova cultura. Eu acredito que a mudança desta natureza em uma instituição como a cúria vaticana, que leva mil anos após a Questão das Investiduras, centralizando tudo, eu não acredito que as coisas aconteçam de um ano para outro. São sinais, símbolos, deixar semeada uma trilha, e começam as contramedidas, algo que aconteceu no Concílio Vaticano II, e acaba sendo algo que o Papa disse a nós, jesuítas: para que o Concílio chegue a ser aplicado, precisaremos de algo como 100 anos.

Há idas, voltas, vindas e idas. O critério do Concílio de voltar às fontes do cristianismo e de dialogar com a cultura atual pode fazer com que esse vaivém se acelere, mas eu não acredito que neste ano, por esses três eventos, já haja a mudança radical definitiva. Com todo o sistema diplomático do Vaticano, toda a centralização da informação, a cultura de consulta que os próprios bispos possuem, isso não se muda de um dia para outro.

Contudo, também é verdade que vivemos em uma sociedade onde as mudanças são muito rápidas. Nesse sentido, não se produz um conflito com essa estrutura eclesial mais lenta?

Por isso, não é que não haja crise, porque as pessoas estão vivendo a cultura da mudança acelerada, mas mudar a instituição aceleradamente é mais difícil, caso ocorram crises. Não se deve estranhar que haja crise, que haja abandono. É um pouco o que acontece na vida política de muitos países: as instituições são muito resistentes e as pessoas cada vez querem que isso mude mais rápido, e se sentem hoje em dia, diferente do que antes, com o direito de dar uma opinião.

Hoje em dia, os leigos, os católicos, podem opinar, e então talvez traga a sensação de crise maior, quando é o melhor sinal de que passos estão sendo dados, mas com as resistências típicas de instituições que possuem anos de síntese.

Com o fato de que todos se sintam com o direito de opinar, as redes sociais é algo que influenciou muito, às vezes negativamente, com gente que parece que quer saber e opinar sobre tudo, não houve uma divisão, um enfrentamento dentro da própria Igreja?

Em tudo, na vida política, civil e na Igreja. Na vida política, ninguém quer ser representado por outro porque eu posso ir ao ringue. Então, os deputados, os senadores, podem se importar diante de uma participação mais direta. E essa realidade a Igreja não pode não levar em conta.

Como o Papa Francisco, que é jesuíta, a partir do discernimento jesuítico, de contemplar a realidade a partir do tempo de Deus, pode ajudar nesse processo?

Parece-me que Santo Inácio, que nasce um ano antes da Descoberta da América, esses cinquenta anos finais do Século XV, com a descoberta da imprensa, a revolução copernicana, Colombo, as viagens que demonstram que a Terra é redonda, etc., faz com que este homem nasça em um período de enorme confusão. Santo Inácio é uma das pessoas que busca dialogar, sempre se guiava pelo discernimento e encontrar a Deus em todas as coisas, com algo muito lindo, que fez ver que para ele ascender é descender, envolver-se na realidade e encontrar Deus em todas as coisas, seja no trabalho, no jogo, na vida social.

Eu acredito que o Papa tem se envolvido muito nisso: a ideia de saída, a ideia de abaixamento, um se sentir totalmente chamado a escutar. Se apenas isso nos deixasse envolvido com uma atitude nova, seria uma grande contribuição à Igreja.

Poderíamos dizer que o futuro da Igreja está em assumir essa escuta, esse abaixamento, que não é algo que Santo Inácio inventa, mas que já aparece na própria figura de Jesus?

Na própria figura de Jesus, é uma atitude profundamente vital, sobretudo desde a encarnação. A ideia de Inácio de ser contemplativos na ação faz com que tudo seja santo, tudo, se é feito, digamos, com boa intenção: jogar futebol, cantar, divertir-se, é uma maneira de viver humanamente. O cristianismo é uma verdadeira escola de humanidade e é muito interessante discernir, não apenas o que pode contribuir conosco, mas o que a humanidade está necessitando. Há muita solidão, perda de sentido da vida, há raízes que se cortam, porque tudo vai tão rápido, tudo passa. O que Bauman chamou de cultura líquida faz com que o cristianismo, se o apresentamos bem, possa ser de uma humanidade formidável, mas é preciso ter coragem.

Gostaria de acrescentar algo mais?

Tomara que possamos ter cada vez mais jornalistas que tenham uma profunda busca da verdade, que não entrem no mercado da notícia, de qual notícia é a que escandaliza mais, porque hoje em dia, na era das comunicações, o jornalismo é mais poderoso que o capital.

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