O Chile, a Igreja e o churrasco do papa. Entrevista com Fernando Montes

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15 Novembro 2016

Fernando Montes foi reitor da Universidade Alberto Hurtado de Santiago do Chile por um longo período de 18 anos, cargo que deixou recentemente, e superior dos jesuítas chilenos. As crônicas locais o descrevem como um amigo da atual presidente Michelle Bachelet, uma das poucas pessoas alheias à política a ser convidado para o seu aniversário. Ele me recebeu na casa que abriga a pequena comunidade de professores, todos jesuítas, na Calle Cienfuegos, no centro da cidade.

A reportagem é de Claudio Madricardo, publicada no sítio Ytali, 06-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O Chile era realmente o finis terrae. Quando os espanhóis chegaram do Peru com Diego de Almagro, pensaram que esta terra não valia a pena e foram embora. Depois, veio Pedro de Valdivia, que foi o verdadeiro conquistador do país. Temos mais de 1.500 quilômetros de deserto no norte, que é o mais árido da terra. Uma cordilheira a leste, com picos de até 7.000 metros, o Oceano Pacífico e a região antártica. Estamos isolado. Por isso, a internet, para nós, foi duplamente impactante e destruiu as fronteiras."

Assim começa Fernando, como ele prefere ser chamado, sentado em uma poltrona na sala onde os padres jesuítas assistem televisão. Enquanto ele me oferece um café e se desculpa pela sua vaga semelhança com o italiano. Recordação viva da sua estada em Roma.

"Graças à intervenção dos jesuítas no século XVII, a Coroa espanhola reconheceu a soberania do povo mapuche, caso único na América, e removeu a colônia. Porque este povo era terrivelmente guerreiro, e, em relação aos recursos, do país não valia a pena manter um exército que o combatesse."

Eis a entrevista.

Fernando, passemos para a situação atual do país. As últimas eleições municipais do dia 23 de outubro registraram 65% de abstensão. O que está acontecendo com o Chile?

É preciso ver as coisas em perspectiva. Este país teve um desenvolvimento muito desintegrado na sua história. No século XIX, quando obtivemos a independência, em dez anos conseguimos construir um país politicamente organizado, com uma constituição, partidos políticos e eleições democráticas. Não há nenhum país latino-americano e nem mesmo europeu, exceto a Inglaterra, que teve a estabilidade política que nós tivemos no século XIX. Mas esse desenvolvimento político foi totalmente desconectado do social e econômico. E essa situação deflagrou no fim do século, quando houve uma guerra civil como consequência da política de um presidente que quis mudar as coisas. Em suma, diante do desenvolvimento político, as desigualdades sociais, ao contrário, eram enormes. Todo o século XX foi caracterizado por uma luta para superar essa realidade. Foi então que nasceram os sindicatos, o Partido Socialista e o Partido Comunista. Em 1939, o Chile teve um governo de frente popular, com comunistas e socialistas no governo. Para chegar, depois, à experiência de Allende, com enormes esforços de desenvolvimento social. Infelizmente, negligenciou-se o desenvolvimento econômico para que a reforma social fosse sustentável. Novamente obtivemos um desenvolvimento não equilibrado.

Por que o Chile é um país de terratenientes?

Hoje não e, graças à reforma agrária de Eduardo Frei e de Salvador Allende, ele soube pôr fim ao latifúndio. Hoje, a agricultura chilena é extraordinariamente moderna e exporta frutas. Mas é evidente que a antiga classe de terratenientes se transformou e investiu na empresa. O que eu quero dizer é que esse desenvolvimento social sem um desenvolvimento econômico contextual levou à queda de Allende, que foi seguida pelo período militar, durante o qual todas as políticas se concentraram no desenvolvimento econômico a despeito do político e social. No Chile, aplicou-se então a teoria de Chicago. Milton Friedman, e eu mesmo o ouvi, disse que, neste país, aplicou-se a sua teoria com mais força do que o que ele mesmo poderia pensar. Graças ao governo militar, impôs-se uma economia da concorrência. Isso criou um boom econômico absolutamente inesperado, tanto que, hoje, somos o melhor país por renda na América Latina, mas com uma subestimação total do aspecto social e político. Hoje, portanto, temos tudo, mas estamos descontentes em relação à esfera da política e temos uma sociedade competitiva e individualista, na qual cada um defende o próprio direito. Por isso, é normal que você não vá votar, porque cada um está defendendo a própria visão, que é a consequência de uma visão ultraneoliberal. Eu também disse isso a pessoas de esquerda, que não se dão conta de serem neoliberais. Falam de direitos, sem falar de quais são as responsabilidades.

Muitos países da América Latina são governados pela esquerda, e, na Europa, a social-democracia não sabe encontrar receitas diferentes em relação ao welfare do pós-guerra.

Ao contrário dos países europeus, os latino-americanos muitas vezes tiveram deficiências democráticas. Além disso, é preciso lembrar que o fim do Muro de Berlim produziu a crise da ideologia e do marxismo. Agora, Cuba não é o ideal de desenvolvimento, embora, como país, tenha alcançado resultados notáveis em muitos campos. Mas, sem dúvida, agora, ela não representa nenhum exemplo para a América Latina, como nos anos 1960.

Voltemos ao Chile. A Igreja chilena se opôs à ditadura.

A Igreja chilena foi muito importante para a defesa dos direitos humanos. O cardeal Silva teve um papel crucial para o país, e agora até mesmo uma nota de dinheiro traz a sua imagem. No Chile, a seu respeito, fala-se do "Cardeal". Quando ele morreu, nas ruas de Santiago, as pessoas gritavam: "Raúl, amigo, el pueblo está contigo". Um homem notável que se consumiu pela defesa dos direitos sem qualquer fechamento contra ninguém, fosse comunista ou anarquista. Isso provocou uma situação extremamente privilegiada para a Igreja, graças ao prestígio adquirido.

Além disso, é preciso lembrar o papel que teve Dom Sodano, que começou a sua carreira diplomática no Chile e, depois, também foi núncio apostólico e, em seguida, secretário de Estado vaticano. Ele teve uma visão bastante diferente do país em relação à maioria dos bispos locais. E, em particular, muito diferente da do cardeal Silva em relação ao governo de Pinochet.

Quando o Cardeal apresentou a sua renúncia, elas foram aceitas imediatamente, e começou um lento processo de mudança no episcopado nacional. Esse processo se acentuou quando Dom Sodano chegou a ser secretário de Estado. Ele designou núncios muito afins ao seu modo de pensar e acompanhou de perto a evolução da Igreja chilena. Foram nomeados bispos com uma sensibilidade diferente. Agora, tivemos uma mudança radical na Conferência Episcopal Chilena, com pessoas de valor, mas muito focadas em torno das questões da sexualidade e da família. Muito menos sensíveis a uma visão de conjunto.

Provavelmente, pesou o escândalo do padre Fernando Karadima que atuou junto a ambientes católicos da alta sociedade, determinando muitas vocações. Depois, descobriu-se que, naquela experiência, houve abusos de consciência, incluindo casos de fundo sexual, que provocaram um enorme escândalo durante anos. Hoje, não há ninguém no Chile que não fale do caso Karadima. E, infelizmente, cinco bispos estiveram envolvidos. Isso criou uma crise de credibilidade da Igreja chilena, que agora está se ocupando mais de questões ético-sexuais e menos daquelas ligadas à situação política e econômica e de justiça.

Como você vê o futuro do Chile?

Vejo muita crise nos partidos políticos diante de um desejo de participação por parte dos cidadãos, especialmente através das redes sociais. Isso explica a abstenção nas eleições de autoridades públicas. No entanto, não vejo programas coerentes e com possibilidades reais. Estamos impressionados com os escândalos que atingiram os ambientes políticos, mas, em um ano, foram feitas muitas leis de transparência. Hoje, por exemplo, a polícia, normalmente, não é corrupta. Continuamos sendo um país de baixa produtividade, muitas vezes não colocamos tecnologia e inteligência na produtividade. Eu acredito que o Chile tem a possibilidade e acho que ele não pode subsistir sem uma relação com os seus vizinhos. O caminho da América Latina é o que a Comunidade Europeia seguiu. Agora, entre os nossos países, temos muitos tratados, mas não uma União. O nosso futuro não é o de um país sozinho. Somos um país muito pequeno, marginal, que conheceu um desenvolvimento econômico, mas conservamos uma estrutura de classe. E isso pode ser explosivo.

Parece-me reconhecer os traços da mensagem de Bergoglio.

Fomos colegas de estudo. Ele foi formador dos jesuítas na Argentina, quando eu o era no Chile. Depois, ele foi superior dos jesuítas argentinos quando eu era superior no meu país. Desse modo, tivemos inúmeras oportunidades para nos vermos e trabalhar juntos, e também como estudantes fomos colegas. Quando eu ia à Argentina, ele me convidava para a sua casa e, muitas vezes, me preparava asados. Eu não sei como ele consegue, pobrezinho, em Santa Marta, onde não pode preparar asados. Ele os prepara muito bem com a sua carne argentina.

E uma recordação particular do Papa Paco?

Quando jovem, Bergoglio teve um problema em um pulmão. Assim, quando estudávamos juntos na Argentina, no fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, durante a recreação, enquanto os outros faziam esportes, nós tomávamos mate, e o mate é um rito que favorece a conversa. Ele é muito bom para prepará-lo. Por isso, é famoso o caso na América Latina que ocorreu quando chegou a presidenta argentina, que presenteou a Bergoglio um mate, comprometendo-se até a lhe explicar como se preparava. Foi uma coisa ridícula, porque provavelmente ele o prepara muito melhor.

Como é Bergoglio?

Eu acho que, para entender o papa, é superimportante entender o peronismo. Que é uma força muito distante do marxismo, mas enormemente próxima do povo. Nesse sentido, bastante distante da teologia da libertação, já que esta fez uso do método marxista. Eu acho que o peronismo e a teologia da libertação coincidem na sua preocupação com o povo, mas diferem nos métodos e nos instrumentos de análise. Ambos aplicam o Concílio Vaticano II para a América Latina, dirigindo-se aos pobres e, obviamente, coincidem em uma intuição fundamental. Sem dúvida, a teologia da libertação fez uso das Ciências Sociais, e isso era sinônimo de marxismo. E, por outro lado, também era bastante distante da piedade popular. Entretanto, o peronismo era muito mais próximo do sentimento e da expressão popular. Bergoglio, como bispo de Buenos Aires, foi muito próximo aos pobres, não na linha da teologia da libertação, que usou uma análise marxista. Além disso, o Concílio indicou para abrir as portas, usou uma teologia em saída, como diria o Papa Francisco, partindo da convicção de que o bem não está só dentro da Igreja, assim como o mal não está apenas fora dela. O bem e o mal podem estar dentro e fora da Igreja. Podemos nos abrir ao mundo e aprender com ele. Os bispos latino-americanos, pela primeira vez em Medellín, decidiram ir conhecer a realidade social. E, nesse contexto, nasce a teologia da libertação, que usou as Ciências Sociais e o marxismo principalmente em uma visão althusseriana. Como sociólogo, eu pratiquei Marx por muito tempo e, todas as vezes em que eu voltava para o Chile, me surpreendia ao ver o quão pouco ele era conhecido.

Portanto, uma relação substancialmente superficial com o marxismo?

Eram usados três ou quatro slogans dele, e por isso eu acredito que ele caiu. Desapareceram esses instrumentos. Eu acho que o mais importante da teoria da libertação é que ela saiu do ambiente fechado das faculdades de teologia. O seu diálogo não foi com os eruditos. E abandonou o diálogo com os ambientes acadêmicos, querendo escutar o povo e voltar para o povo.

E esse é o seu aspecto positivo.

Muito positivo. Quando lemos o magistério de João Paulo II, percebemos o quanto ele tomou da teoria da libertação. Para dar um exemplo, o conceito de Reino de Deus como reino de justiça e não moralista intimista. São legados de uma teologia que sai do claustro para poder compreender os problemas da sociedade.

Você falou com o Papa Bergoglio depois da sua nomeação ao sólio pontifício?

Uma vez, mas muito brevemente. Pudemos conversar por um tempo limitado no ano passado, em Roma, durante um congresso da Universidade Católica. Estamos esperando por ele e não sabemos se ele virá ao Chile. Se ele vier ao Cone Sul, deve visitar Argentina, Uruguai e Chile. E, no nosso país, atualmente existem problemas delicados. Um é representado por um bispo do grupo de Fernando Karadima, que era vigário militar, contra o qual levantou-se um verdadeiro protesto dentro da catedral de Osorno, a sua nova sede. O papa, a esse respeito, se manifestou com uma frase infeliz, dizendo que as pessoas eram loucas por protestarem contra o bispo. E isso criou muitos problemas.

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