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07 Novembro 2018

Il giorno del giudizio [O dia do juízo, em tradução livre] é o título que Andrea Tornielli e Gianni Valente escolheram para o livro que chegou às livrarias [italianas] nessa terça-feira, 6. Os dois jornalistas se concentram na história do ex-cardeal estadunidense T. E. McCarrick e nas acusações movidas contra o Papa Francisco pelo ex-núncio C. M. Viganò; questões que têm estado nas primeiras páginas dos jornais nestes últimos meses de 2018.

O comentário foi publicado por Il Sismografo, 06-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O livro abre com uma dedicatória bastante singular e que logo enquadra um ponto de vista muito específico, o daqueles que servem à Igreja sem egoísmos e ganhos pessoais: “Este livro é dedicado a todos os sacerdotes que, todos os dias, abrem as igrejas e anunciam o Evangelho, administrando os sacramentos sem ambições pessoais ou sonhos de carreira. E aos muitos padres da Cúria Romana que prestam o seu serviço com humildade e sem protagonismos”.

Capa do livro | Divulgação

Na Introdução, falando do Grande Acusador ao qual o Papa Francisco se referiu no encerramento do recente Sínodo sobre os jovens, eles escrevem:

“O anúncio chegou de surpresa ao meio-dia de um sábado de setembro. (...) É um anúncio revelador daquilo que, aos olhos do Papa Francisco, está em jogo dentro da Igreja Católica, durante o sexto ano do seu pontificado. Está em curso um ataque ‘demoníaco’ que visa a dividir a própria Igreja, afligida pelo escândalo dos abusos de poder, de consciência e sexuais perpetrados por sacerdotes e religiosos contra menores e adultos vulneráveis. Mas afligida também por operações político-midiáticas, todas internas aos aparatos eclesiásticos que tentam demoli-la através da acusação do pontífice e da tentativa de obrigá-lo a renunciar. Ataques que não têm precedentes históricos recentes. (...) Por isso, Francisco, apelando diretamente ao povo de Deus, pediu que os fiéis de todo o mundo rezem o terço no mês de outubro para ‘proteger a Igreja do diabo, que sempre visa a nos dividir de Deus e entre nós’. Ele fez isso no dia 29 de setembro de 2018, dia em que se celebra a memória litúrgica dos três santos arcanjos, particularmente de São Miguel, que no livro do Apocalipse conduz a batalha contra o dragão, o demônio, e o derrota. Ele fez isso trazendo novamente à tona duas orações antigas, uma a Nossa Senhora e uma ao próprio São Miguel.”

O livro se desenvolve em 11 capítulos. Eis os assuntos:

1. Bomba midiática em Dublin
2. A nomeação de McCarrick e as omissões de Viganò
3. As instruções desatendidas de Bento
4. Francisco na mira de Viganò
5. Aquelas escolhas do passado
6. A “montagem política” contra o papa
7. O cisma “amerikano”
8. A traição dos “grupos dos clérigos”
9. Pedofilia, clericalismo e lutas de poder
10. Pastores e povo. Respostas (esquecidas) de dois papas
11. Bento XVI no moedor de carne
12. Igreja do teclado e das corporações
13. O acordo com a China na mira
14. Fim da Igreja?

Perto da conclusão, o livro de Tornielli e Valente oferece esta reflexão, que resume muitas interrogações postas sobre a mesa:

O ano de 2018 foi o ano de um novo dilúvio universal de notícias sobre escândalos financeiros e sobre pecados e crimes sexuais perpetrados até por cardeais e bispos católicos, encobertos no passado pelos aparatos eclesiásticos. Os principais meios de comunicação logo relataram que a imagem de uma Igreja assolada por escândalos e abusos provocaria também um obscurecimento de autoridade moral e um déficit de credibilidade midiática para o pontificado do Papa Francisco.

Nesse terreno, tentou-se desencadear uma tentativa clamorosa de pôr o papa em estado de acusação, orquestrada por uma parte da rede global dos círculos midiático-clericais de marca neoconservadora ou neotradicionalista, desde sempre impacientes em relação ao atual bispo de Roma. Houve uma extravagante solda entre os códigos politicamente corretos das grandes redes midiáticas – geralmente tolerantes e gay-friendly – e as estratégias das redes que, dentro da Igreja Católica, são alistadas sem parar para confeccionar críticas e ataques contra o atual sucessor de Pedro. Jogando de tabela com a indignação geral em relação aos escândalos de abuso e à pedofilia, esses grupos visaram a difundir a caricatura do Papa Francisco como cúmplice da “ideologia homossexual” desenfreada entre as fileiras do clero católico, apontada por eles como a autêntica raiz “cultural” da pedofilia e dos abusos clericais.

Na Igreja Católica, a nova onda de notícias sobre os abusos sexuais do clero e sobre os ataques contra o Papa Francisco abriu perguntas dilacerantes, ligadas não só aos problemas de responsabilização e de credibilidade midiática da Igreja. Alguns bispos e cardeais, nas suas declarações públicas, afirmaram que os abusos sexuais e a pedofilia do clero católico puseram em crise a fé de muitos. Alguns fiéis começaram a se perguntar se não é o caso de inverter a ordem da conexão: o câncer de pedofilia clerical, a chaga endêmica de abusos sexuais cometidos por padres e bispos, não seriam talvez sintomas e efeitos do desaparecimento da fé, que já é percebido até entre o clero? Não se trataria, talvez, de um desmoronamento total, um sinal clamoroso do apagamento da fé católica no mundo? Perguntas semelhantes surgiram em muitos também diante da operação Viganò, que, no dia 26 agosto de 2018, fez chover sobre o mundo o seu dossiê em que pedia a renúncia do Papa Francisco, acusando-o de ter “encoberto” o cardeal Theodore Edgar McCarrick.

Após a publicação desse dossiê, dezenas de bispos expressaram atestados públicos de solidariedade ao arcebispo Carlo Maria Viganò e defenderam a urgência de tomar impulso do seu dossiê como volante para “purificar” a Igreja dos seus males. Em outras palavras, pela primeira vez na história, dezenas de bispos valorizaram publicamente um documento escrito por um arcebispo para pedir a renúncia do papa. E muitos, dentro e fora das comunidades eclesiais, tiveram que se perguntar: mas os bispos católicos sabem o que é a Igreja Católica? E ainda: a Igreja Católica está realmente destinada a continuar o seu caminho na história até o fim dos tempos, como Cristo prometeu, ou está prestes a acabar? E como é possível sair dessa confusão, de toda essa desorientação?

O Papa Francisco, diante de tudo isso, não forneceu respostas para proteger a sua reputação ou a imagem pública da Igreja. Com um comunicado divulgado na festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, ele pediu a todos os fiéis do mundo que rezassem a oração do Terço todos os dias, durante todo o vindouro mês mariano de outubro de 2018, unindo-se “em comunhão e em penitência, como povo de Deus, para pedir à Santa Mãe de Deus e a São Miguel Arcanjo que protejam a Igreja do diabo, que sempre visa a nos dividir de Deus e entre nós”.

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