Fundadores da Red Hat Report prometem investigar e “graduar” cardeais, mas negam agenda política

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05 Outubro 2018

Na sequência das revelações de que um poderoso cardeal norte-americano ascendeu na hierarquia da Igreja apesar das alegações de má conduta sexual e das acusações pendentes de abuso sexual cometido por padres contra crianças, um grupo de católicos quer arrecadar mais de um milhão de dólares para investigar cardeais e publicar suas descobertas.

A reportagem é de Michael J. O’Loughlin, publicada por America, 03-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Chamando-se de Better Church Governance (Melhor Governança da Igreja, em tradução livre), o grupo planeja mobilizar a ajuda de antigos agentes do F.B.I. para investigar os cardeais que irão votar no próximo conclave, avaliar como eles lidaram com as alegações de abuso sexual e se eles permaneceram fiéis aos seus próprios votos.

“Esperamos separar o trigo, que é a acusação credível, do joio, que é o boato ou a calúnia, por meio de uma investigação objetiva e desapaixonada”, disse Michael Foley, professor de teologia patrística da Baylor University, em entrevista por e-mail.

Foley se identificou como editor do grupo, que foi divulgado pela primeira vez pelo Crux no início desta semana. O grupo realizou uma reunião preliminar no campus da Catholic University of America em 30 de setembro, embora tanto a universidade quanto os representantes do grupo digam que não há afiliação com a universidade.

De acordo com um folheto anunciando a reunião, publicado na segunda-feira pelo National Catholic Reporter, o “projeto de destaque” do grupo é chamado de Red Hat Report (Relatório do Chapéu Vermelho, em tradução livre), que pesquisará cada cardeal eleitor, incluindo “suas respostas aos abusos, seu patrocínio e laços financeiros e suas prioridades teológicas e pastorais”. O grupo planeja “graduar” cada cardeal a fim de promover “uma clara compreensão de seu histórico de governo e fidelidade” e então publicar os relatórios antes do próximo conclave papal.

Em seu panfleto, o grupo disse que “não é uma divisão de um grupo lobista”, mas é “motivado por nosso senso de dever e amor pela Igreja e queremos oferecer nossas habilidades profissionais em apoio aos nossos padres e líderes”.

Mas a reportagem inicial do Crux, que obteve uma gravação de áudio da reunião, sugere que algumas políticas da Igreja podem estar em jogo. Os membros do grupo foram críticos do Papa Francisco e de seu representante, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que é visto como um possível sucessor de Francisco.

O Better Church Governance usará investigadores, jornalistas e pesquisadores para compilar os dossiês sobre cada cardeal votante e distribuirá as informações online. Um representante do grupo disse que as investigações serão administradas por Philip Scala, ex-investigador do F.B.I.

Uma carta compartilhada com a America do diretor executivo do novo grupo, Philip Nielsen, discorda dos primeiros relatos sobre a gênese e os objetivos do grupo.

Nielsen escreveu que sua organização tem “um longo caminho a percorrer para atingir nossa meta de um milhão de dólares, que será necessário para investigar apropriadamente todos os cardeais eleitores do Colégio” e refutou as alegações do artigo do Crux de que os políticos ricos católicos conservadores e liberais eram instrumentais na fundação do grupo.

Melinda Nielsen, professora de literatura clássica da Baylor University e esposa de Philip Nielsen, escreveu em um e-mail que o grupo não recebeu apoio financeiro de Timothy Busch, o cofundador politicamente conservador do Instituto Napa, que, diz-se, desempenhou o papel de ajudar a publicar alegações contra o Papa Francisco feitas por um ex-diplomata papal. Busch, que tem conexões profundas com a Catholic University of America, negou que estivesse envolvido na elaboração da carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, que acusa o Papa de encobrir acusações de má conduta sexual contra um ex-cardeal.

Melinda Nielsen acrescentou que o grupo, até 1º de outubro, “não tinha doadores significativos”. Ela se recusou a explicar quem contribuiu para o projeto.

“A verdade é que nosso projeto não poderia ter tido um começo mais humilde, já que eu pessoalmente concebi esse projeto como um [leigo] preocupado em resposta à mais recente onda de escândalos”, escreveu Philip Nielsen. “O tremendo impulso que nosso projeto ganhou vem do fato de que muitos outros simpatizaram com essa visão desde o início. Não é devido a financiamento externo.”

Alguns católicos questionaram se o novo grupo pretendia influenciar um conclave papal, o que poderia ser uma violação da lei canônica.

Nielsen escreveu em sua carta que, embora algumas de suas primeiras ideias incluíssem influenciar a eleição de um Papa, o grupo não busca mais isso como um objetivo. Ele escreveu: “nosso objetivo é destacar os poucos cardeais credivelmente ligados à corrupção e ao abuso.”

Desde que surgiram alegações no início deste verão de que o ex-cardeal Theodore McCarrick assediou e agrediu seminaristas, alguns católicos tentaram pintar a crise dos abusos como uma questão homossexual, apesar da reação negativa de líderes de alto escalão da Igreja.

Um dos dois membros em tempo integral da equipe do Better Church Governance, Jacob Imam, supostamente disse em resposta a uma pergunta durante a apresentação do dia 30 de setembro na Catholic University of America: “Se houver algum boato de [um cardeal] ser homossexual, isso será observado com muito cuidado... mas precisamos ter certeza.”

Imam disse em entrevista à revista America que o grupo procura destacar se os bispos encobriram padres abusivos ou se eles próprios se envolveram em conduta sexual imprópria. Ele disse que a orientação sexual não é um fator motivador quando se trata de reportar cardeais e bispos, mas que as acusações de que um bispo quebrou seus votos seriam incluídas nos relatórios, que serão publicados online.

“Há muitos cantos escuros na Igreja e devemos lançar luz sobre eles para que possamos ajudar os leigos a ficarem vigilantes”, disse Imam. “Uma vez que os pecados são identificados, esperamos que as pessoas possam se arrepender.”

Foley disse que concordou em se juntar ao Better Church Governance, em parte, por causa da “clara convicção entre seus fundadores de que isso não seria uma caça às bruxas de nenhum tipo”.

“Se você examinar as questões que estamos investigando em nossa declaração de missão, verá que o comportamento sexual não está listado entre elas”, escreveu Foley em seu e-mail para a America. “Dito isso, se houver relatos confiáveis de que um bispo, por exemplo, tem uma amante e filhos ilegítimos, essa informação tem influência em seu ‘desempenho no trabalho’ e é relevante para nossas preocupações; no mínimo, esse estilo de vida provavelmente distorcerá o julgamento moral desse homem e o tornará suscetível a chantagem e manipulação.”

Ele acrescentou: “E não, nós certamente não vamos ‘expulsar’ um padre ou bispo apenas por ter atração pelo mesmo sexo; isso seria repreensível. Nossa investigação está limitada a atividades e decisões que comprometem gravemente o exercício fiel do ministério ordenado de uma pessoa e infligem danos aos inocentes.”

Em sua carta, Philip Nielsen ecoou esses comentários.

“O Sr. Imam não disse que procuraríamos cardeais com ‘tendências homossexuais’ ou cardeais com ‘ensinamentos homossexualmente simpatizantes’. Ele simplesmente observou que, se nossos investigadores descobrissem um bispo declaradamente celibatário ou um cardeal envolvido em atos homossexuais, observaríamos isso em nosso relatório”, Nielsen escreveu. “Nós também, obviamente, observaríamos se o mesmo bispo declaradamente celibatário estivesse envolvido em quaisquer atos heterossexuais.”

Houve uma série de respostas leigas às revelações do abuso sexual do clero. No início dos anos 2000, vários grupos liderados por leigos foram fundados após as revelações de que os líderes da Igreja haviam encoberto por décadas.

Alguns, assim como o Voice of the Faithful (“Voz dos Fiéis”), queriam que a Igreja mudasse seu ensinamento, de modo que leigos e mulheres fossem incluídos nos processos de tomada de decisão. Outros, como o National Leadership Roundtable on Church Management (“Mesa Redonda da Liderança Nacional sobre a Gestão da Igreja”), procuraram implementar as melhores práticas gerenciais nas estruturas existentes da Igreja. O grupo BishopAccountability.org começou a publicar documentos e artigos de notícias sobre como os bispos lidavam com alegações de abuso, e outros grupos de mentalidade reformista, incluindo o Call to Action (“Chamado à Ação”) e o grupo de defesa de vítimas do Survivors Network for those Abused by Priests (“Rede de Sobreviventes para os Abusados por Padres”), ou SNAP, receberam uma nova atenção após a primeira onda de escândalos.

Alguns líderes católicos da época viam esses grupos com ceticismo, com medo de que usassem a crise dos abusos para pressionar por reformas, como mulheres sacerdotisas, leigos votando para bispos e mais controle leigo nas paróquias.

Após a mais recente onda de alegações, que inclui um relatório do júri, de quase novecentas páginas, relatando décadas de abusos cometidos por padres na Pensilvânia, vários grupos liderados por leigos se organizaram - embora desta vez pareçam incluir tanto indivíduos que apoiam o Papa Francisco quanto aqueles que se opõem a muitas de suas reformas.

Em junho, um grupo baseado nos Estados Unidos chamado Ending Clergy Abuse: Global Justice Project (“Acabando com o Abuso Clerical: Projeto de Justiça Global”), iniciou em Seattle. O Life Site News desvelou um projeto chamado Faithful Shepherds (“Pastores Fiéis”), que coleta dados sobre os bispos dos EUA, “especialmente aqueles que se desviam do magistério da Igreja”.

Foley elogiou o BishopAccountability.org, mas disse que o Better Church Governance será diferente porque conduzirá suas próprias investigações.

O grupo, escreveu ele, “não está limitando nossa investigação ao abuso sexual ou seu encobrimento; estamos preocupados com todas as formas de grave corrupção clerical”.

“Simplesmente queremos trazer a corrupção grave à luz do dia para que as autoridades responsáveis da Igreja possam fazer algo a respeito”, acrescentou.

“Não estamos tentando mudar a estrutura da hierarquia; em vez disso, estamos promovendo a santidade e a credibilidade de seus membros.”

A reação ao conceito do Better Church Governance, que planeja divulgar mais informações sobre seus objetivos e membros no final deste mês, tem sido mista.

Cathleen Kaveny, professora que leciona na faculdade de direito e no departamento de teologia do Boston College, disse que quando se trata da resposta leiga à crise dos abusos sexuais, ela gostaria de ver “grupos não partidários buscando mais estruturas de responsabilização e transparência”.

“Acho que existem duas narrativas concorrentes sobre a causa da crise e o que fazer sobre ela”, disse. “A posição conservadora diz que o problema são os gays no sacerdócio e a posição liberal diz que o clericalismo é o problema.”

Ela disse que apoiaria uma versão católica de um processo de verdade e reconciliação, mas acrescentou que é desconfiada com iniciativas leigas que investigariam cardeais e bispos antes que uma alegação específica seja levantada.

“Se houver uma acusação, ela deve ser investigada, mas não uma investigação geral”, disse ela. “É como uma caça às bruxas.”

“Estamos felizes em ver católicos tentando novas e criativas maneiras de abordar o problema do abuso sexual clerical”, o SNAP tuitou na segunda-feira, adicionando a hashtag #EnoughIsEnough.

Mas Daniel Horan, O.F.M., popular escritor e orador, adotou uma visão mais sombria.

“É uma coisa doentia, desonesta e caluniosa o que está para acontecer”, tuitou o padre Horan. “Quando é que ideólogos justiceiros indo atrás de seus alvos políticos já foi uma boa ideia?”

Bill McCormick, S.J., escrevendo no Jesuit Post, disse que a existência de um grupo como o Better Church Governance não é surpreendente, dado o baixo nível de confiança que os católicos depositam em seus líderes hoje.

“Com cidadãos mundialmente ambivalentes sobre as instituições políticas e sociais, talvez fosse apenas uma questão de tempo até que os leigos se encarregassem de investigar os escândalos independentemente das estruturas eclesiais”, escreveu ele.

“Além disso, não é de surpreender que esse grupo Better Church Governance tenha surgido nos EUA”, acrescentou McCormick. “Os Estados Unidos tornaram-se um ponto de partida para muitos conflitos intraeclesiais e um profundo reservatório de desconfiança em direção ao poder. Agora essas dinâmicas estão se cruzando de maneiras que desafiam profundamente a vida da Igreja.”

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