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30 Junho 2016

“A civilidade, portanto, está a serviço da promoção de um discurso que visa o bem comum. Como uma virtude, ela requer uma expressão de boa vontade entre todos os cidadãos, que se expressa não apenas em posições de respeito e tolerância, mas também na devida diligência para verdadeiramente expressar as posições reais da própria contrapartida. Mas essa boa vontade, de acordo com o contexto, deve propor o seu argumento de uma forma prudente e, portanto, proporcional, de maneira a promover o bem comum”, escreve James F. Keenan, jesuíta, professor de teologia no Boston College, EUA, em artigo publicado por Commonweal, 26-06-2016.

Eis o artigo.

A sociedade civil depende de virtudes. Sem elas, a sociedade não é civil. Hoje, elas parecem estar em falta em todos os lugares. Mesmo correndo o risco de parecer banal, ou pior, hipócrita, listarei várias virtudes que podem colocar uma variedade de eventos em um contexto mais socialmente responsável, incluindo o Brexit e as próximas eleições dos EUA. Postarei uma a cada dois dias. Hoje é a vez da virtude mais fundamental: a civilidade.

Tom Ashcroft apresentou na WGBH um programa sobre Internet Shaming (em português, humilhação virtual em massa) na quinta-feira, 23 de junho. Ao longo dos 46 minutos de programa, o público que participou por telefone sugeriu repetidas vezes que não há regras para twitar ou postar nas mídias sociais. O apresentador e os entrevistados claramente não concordavam, mas para a duração do programa, ninguém mencionou a necessidade de civilidade, de nenhum dos lados.

Anos atrás eu pensava que a civilidade era uma virtude minimalista, por se esperar tão pouco dela. Minha opinião mudou quando eu estava editando uma coleção ecumênica de ensaios sobre virtudes que poderia ser usada para as Igrejas, em conjunto com o teólogo menonita Joseph Kotva. Nós a intitulamos ‘Pratique o que você prega’. Entre os colaboradores, Vigen Guroian apresentou um ensaio sobre civilidade que me fez pensar, em um primeiro momento, que algo a mais poderia ter sido oferecido. Em vez disso, ele apresentou um "debate" cristológico sobre o quanto a Igreja armênia precisava desesperadamente de civilidade. Faltava uma grande dose de proporcionalidade no tom geral do debate. Não havia justificativa para as explosões, os ataques pessoais, etc.

Eu aprendi com Guroian que, apesar da civilidade pedir tão pouco, muito está em jogo. Como disse o Dr. Johnson, a civilidade nos distancia da barbárie. Enquanto ouvia o programa de Ashcroft, fiquei pensando sobre o quão bárbara é a humilhação em massa. Sem civilidade, a barbárie mostra sua face, como acontece com considerável frequência, tornando-se, mais uma vez, uma ferramenta política.

A civilidade não é uma questão de educação, mas sim de proporcionalidade; não é uma virtude rígida em suas regras, mas sim uma virtude de moderação. Esta proporcionalidade não é uma previsão privada. O protesto, de várias maneiras, tem tido uma expressão legítima nas sociedades civis, inclusive protestos ilegais, especialmente em sociedades onde as leis servem mais à censura do que à promoção do bem comum das sociedades.

No entanto, este sentido duradouro de respostas boas, apropriadas e comedidas sempre foi constitutiva da civilidade, pois combina método racional e estilo, no discurso contemporâneo.

Aprendi muita coisa sobre isso com Michael Jaycox, professor da Universidade de Seattle, que escreveu sua tese aqui no Boston College, que descreve como "uma ética de raiva social baseada na virtude, considerando essa emoção como uma forma de agência moral que motiva grupos a buscar resistência política profética e reforma institucional em resposta à injustiça sistêmica".

Ele publicou recentemente o trabalho "The Civic Virtues of Social Anger: A Critically Reconstructed Normative Ethic for Public Life" (As virtudes civis da raiva social: uma ética normativa criticamente reconstruída para a vida pública, sem edição em português) na Revista da Sociedade de Ética Cristã. Durante a agitação civil em Ferguson, Jaycox testemunhou como as pessoas e os líderes da cidade lutaram com o que poderia constituir expressões civis de raiva social.

A civilidade, portanto, está a serviço da promoção de um discurso que visa o bem comum. Como uma virtude, ela requer uma expressão de boa vontade entre todos os cidadãos, que se expressa não apenas em posições de respeito e tolerância, mas também na devida diligência para verdadeiramente expressar as posições reais da própria contrapartida. Mas essa boa vontade, de acordo com o contexto, deve propor o seu argumento de uma forma prudente e, portanto, proporcional, de maneira a promover o bem comum.

A civilidade é a virtude que destaca as reivindicações dos principais estudiosos que escreveram textos fundamentais para o bom funcionamento de suas sociedades. O texto De Officiis (Sobre os Deveres), de Cícero, escrito no final da sua vida (44 aC), foi fundamental não só para a Roma, mas para toda a cristandade. Assim como ele, Santo Ambrósio também escreveu seu próprio De Officiis (391 dC). George Washington percebeu a necessidade de estabelecer um código próprio de civilidade para os Estados Unidos, para que não caíssemos na anarquia bárbara. Ele nos apresentou o texto Regras de Civilidade e Comportamento Decente na Companhia dos Outros e Durante a Conversação.

Mais recentemente, Cathleen Kaveny, minha amiga e colega, juntou-se a Cícero, Ambrósio e Washington com seu magnífico trabalho Prophecy Without Contempt: Religious Discourse in the Public Square (em português, Profecia sem desdém: o discurso religioso na esfera pública, sem edição brasileira). Ao examinar os contornos e a história do discurso profético, Cathleen Kaveny propõe suas próprias diretrizes - humildes e compassivamente civis -, que foram recentemente trabalhadas pelo Commonweal. Todos estes textos têm grande relevância.

Ontem, ao discutir sobre o Brexit com os colegas, alguém comentou: 'Espere até depois da convenção, Trump vai atacar Hillary com uma selvageria jamais vista antes'. Outra pessoa respondeu: 'Ela pode responder à altura'.

Nessa conversa, assim como no programa sobre humilhação em massa, a civilidade nunca foi invocada.

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