O cálculo caudilhesco e a falta de projetos para o país. Entrevista especial com Idelber Avelar

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Por: Patricia Fachin | 08 Agosto 2018

O quadro eleitoral deste ano “é bem mais confuso” se comparado a outros da história brasileira e tem arranjos que são “uma jabuticaba”, como é a candidatura Lula, Haddad e Manuela D’Ávila, diz Idelber Avelar à IHU On-Line. “O arranjo prevê mais uma jabuticaba que esta eleição conseguiu inventar: a estepe de vice, a vice do vice, já que o acordo pressupõe que Manuela será vice na chapa de qualquer forma, substituindo Haddad caso a candidatura de Lula sobreviva ou sendo a vice de Haddad caso ele tenha que substituir um Lula impugnado”, afirma. E adverte: “Obviamente, quem perde é a discussão que deveria pautar um processo democrático, o confronto de projetos para o país”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Avelar analisa o isolamento da candidatura de Ciro Gomes no cenário político e frisa que “essa postura já era esperada porque o PT tem tido muito sucesso nas últimas quatro eleições apostando em um quadro de polarização com o PSDB, no qual ele, PT, aparece como a alternativa progressista. Quando essa estrutura binária ameaça desmoronar, o movimento do PT é sistematicamente no sentido de restaurá-la”. Já a aliança do PSDB com o Centrão, frisa, não tem o interesse de “isolar Ciro Gomes, mas acumular apoios de partidos fisiológicos, aumentar ainda mais o seu tempo de televisão e ganhar acesso à rede de prefeitos, deputados e vereadores dos feudos locais, que são das apostas do PSDB para catapultar uma candidatura que até agora não empolgou o seu eleitorado”.

Ele também comenta a candidatura de Jair Bolsonaro e menciona que “as principais leituras” do candidato são “bastante viciadas”. “Por um lado, o petismo tenta associá-lo ao ‘golpe’, apresentando sua ascensão como manifestação do ódio ao PT pelas conquistas sociais dos governos Lula e Dilma. Segundo essa leitura, Bolsonaro seria uma expressão do racismo, sexismo e homofobia que afloraram como reação aos avanços da última década e meia. Por outro lado, há uma leitura que o vê como expressão de uma desilusão com o sistema representativo, de uma revolta contra a captura da pólis pelos interesses privados dos agentes políticos — uma espécie de tradução distorcida das revelações da Lava Jato, em suma”.

Embora essas leituras contenham “seu momento de verdade”, elas não explicam a gênese do fenômeno Bolsonaro, pondera. “Na leitura petista, falta atenção ao fato de que o partido no qual se criou e floresceu Bolsonaro, o PP, não chegou ao Executivo nacional por acaso. Ele foi levado pelas próprias mãos de Lula, que lhe entregou o Ministério das Cidades em 2005, durante a crise do mensalão. Um ano depois o pacto lulista incorporaria o PP à coalizão que governou o próprio estado de Bolsonaro, o Rio de Janeiro, durante a década que se seguiria. Amplas alianças locais patrocinadas pelo pacto lulista em todo o país alimentaram o PP ao longo da década”. Além disso, afirma, “Bolsonaro ocupa um vácuo: o movimento que se arregimenta em torno dele traduz o colapso do sistema político inventando uma ficção de ordem possível. É uma resolução moral imaginária de um conflito político real. Aqui, a pior coisa a se fazer é assumir uma postura de superioridade moral e julgar seus seguidores como toscos, burros, alienados, como parte da esquerda tem feito. Deveria ser possível combater a extrema direita sem recorrer a essa estereotipia. É uma disputa política que se impõe. E ela não vai ser vencida com arroubos de indignação moral”.

Idelber Avelar | Foto: Reprodução - Facebook

Idelber Avelar é professor de Teoria Literária e Estudos Culturais na Tulane University, em New Orleans, EUA, e doutor em Estudos Espanhóis e Latino-Americanos pela Duke University.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que significa a estratégia do PT, de isolar Ciro Gomes, do ponto de vista político e da esquerda? Essa postura já era esperada ou não? Pode-se dizer que há uma estratégia, tanto do PT quanto do PSDB, de isolar a candidatura de Ciro Gomes? Por quê?

Idelber Avelar - Essa postura já era esperada porque o PT tem tido muito sucesso nas últimas quatro eleições apostando em um quadro de polarização com o PSDB, no qual ele, PT, aparece como a alternativa progressista. Quando essa estrutura binária ameaça desmoronar, o movimento do PT é sistematicamente no sentido de restaurá-la. Isso aconteceu em 2014, quando todos os esforços da campanha petista no primeiro turno foram dirigidos ao objetivo de que Aécio Neves, e não Marina Silva, fosse o adversário no segundo. Essa estratégia facilita a representação do pleito como uma oposição entre o neoliberalismo privatizante e o progressismo popular.

Nem sempre foi assim na história do partido. Trata-se de uma evolução que é posterior à emergência do lulismo. Este, mais que o petismo enquanto tal, precisa de um antagonista. O próprio surgimento do fenômeno do lulismo (que em seu sentido estrito, que lhe confere André Singer, data da época do mensalão) demanda a existência de um antagonista claro. Esse antagonista pode variar, evidentemente: em diferentes momentos, ocuparam esse lugar o neoliberalismo tucano, a classe média com complexo de vira-latas, a tão demonizada mídia ou mesmo os ambientalistas que querem salvar pererecas e impedir que a energia elétrica chegue à casa do pobre. Em período eleitoral, o antagonista de preferência são as forças políticas que possam ser caracterizadas como neoliberais ou privatizantes.

Nas eleições deste ano, o quadro é bem mais confuso, tanto pela prisão de Lula como pelo maior número de candidaturas viáveis. Nesse contexto, a prioridade de Lula e do PT tem sido manter sua hegemonia sobre a esquerda, mesmo que isso implique um fortalecimento do outro extremo do espectro político. Isolar a candidatura de Ciro Gomes passou a ser a principal tarefa, já que Ciro vinha se reciclando como líder de centro-esquerda, opositor das forças que capitanearam o impeachment e suposto porta-voz da ética na política. A estratégia representa, então, um contra-ataque que tenta impedir que Ciro Gomes herde algo do legado do lulismo.

No caso do PSDB, o interesse não me parece ser exatamente isolar Ciro Gomes, mas acumular apoios de partidos fisiológicos, aumentar ainda mais o seu tempo de televisão e ganhar acesso à rede de prefeitos, deputados e vereadores dos feudos locais, que são das apostas do PSDB para catapultar uma candidatura que até agora não empolgou o seu eleitorado.

IHU On-Line - Qual é o significado do acordo do PT com o PSB? Que desdobramentos esse acordo deve ter no cenário das candidaturas estaduais?

Idelber Avelar - Em termos literais significa o bloqueio da aliança de Ciro Gomes com o PSB, que ele esperava constituir como seu aliado prioritário e eixo central da chapa. Foi um duro golpe para Ciro. Como resultado, o PSB se mantém não alinhado nas eleições presidenciais, com o seu tempo de televisão sendo dividido proporcionalmente entre todas as coligações. A maior parte desse tempo, portanto, vai para a coligação de Geraldo Alckmin, o que é mais um entre muitos exemplos de como a estratégia hegemonista do petismo vai produzindo um fortalecimento do campo da direita.

Aqui há que se entender a dinâmica estadualizada do processo. A neutralidade acabou sendo a única saída para o PSB, já que uma coligação nacional com o PT significaria o beijo da morte para as pretensões de reeleição de Márcio França em São Paulo, estado em que o PT é muito impopular. Para o PT, o principal desgaste foi a desmoralização de seu maior quadro em Pernambuco, Marília Arraes, que liderava as pesquisas para o governo do estado e foi obrigada a retirar sua candidatura em favor de Paulo Câmara (PSB).

Já a concessão pessebista acontece em Minas Gerais, e ali a coisa está mais complicada. Segundo o acordo, o ex-prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), retiraria sua candidatura em favor de Fernando Pimentel (PT), que tenta a reeleição. Mas Lacerda peitou a direção nacional do partido, confirmou sua candidatura na convenção e na noite deste domingo conseguiu o apoio do MDB, que não aceita ser parte de uma chapa que inclua Dilma Rousseff como candidata ao Senado. De qualquer forma, em Minas se anuncia uma briga judicializada, com recursos ao TSE.

O principal saldo desse processo é a confirmação de que já não há qualquer sombra de democracia interna que diferencie o PT dos partidos tradicionais, que têm uma história tão diferente da sua. O PT já se conformou como partido submisso à vontade de um soberano, de um caudilho, e no qual as instâncias de base não têm outra função além de reverberar, legitimar e defender a decisão do líder.

No caso do PSB, confirmou-se sua natureza estadualizada, peemedebizada, por assim dizer. O partido continua alinhado ao tucanato em São Paulo, descolou-se dele em Minas para navegar com vida própria em um programa com fortes traços autoritários, e desenvolve um projeto seu, de forte caráter oligárquico no Nordeste. A conversa entre esses projetos é tensa e complexa, e a neutralidade do PSB nas presidenciais é um resultado disso.

IHU On-Line - Como avalia a possível chapa Haddad e Manuela, considerando que Lula não possa concorrer? O que essa escolha representa e significa?

Idelber Avelar - O arranjo prevê mais uma jabuticaba que esta eleição conseguiu inventar: a estepe de vice, a vice do vice, já que o acordo pressupõe que Manuela será vice na chapa de qualquer forma, substituindo Haddad caso a candidatura de Lula sobreviva ou sendo a vice de Haddad caso ele tenha que substituir um Lula impugnado.

As razões para essas escolhas me parecem ter a ver com uma estratégia de manter o nome de Lula no centro do processo o maior tempo possível e impedir que se inicie o processo de crítica e desconstrução de seu substituto pelos adversários. A retirada do pedido de soltura de Lula, feita por sua própria defesa nesta segunda-feira, deve ser entendida neste contexto: o pedido de soltura poderia levar o STF a se pronunciar sobre a elegibilidade de Lula já nesta semana, o que não é o interesse do partido agora. Quanto mais se protelar a decisão sobre a elegibilidade, mais tempo terá Lula para se manter no centro do processo.

É um cálculo caudilhesco, que já nada tem a ver com projetos de governo ou rumos do país, e subordina até mesmo o principal objetivo de sua defesa jurídica, que supostamente seria a sua libertação. Obviamente, quem perde é a discussão que deveria pautar um processo democrático, o confronto de projetos para o país.

IHU On-Line - Como deve se dar a relação do PT com os demais partidos da esquerda, PCdoB, PSB e PSOL, daqui para frente?

Idelber Avelar - São relações bastante diferentes, porque trata-se de três partidos que têm muito pouco em comum. O PCdoB é um partido centralizado, fechado em si, em que as estratégias locais são todas submetidas a um comando nacional. O PCdoB deve manter com o petismo a relação que tem tido com ele desde 1989, ou seja, um apêndice que abocanha espaços na medida em que esses espaços se tornam possíveis e acumula cargos e verbas para seus próprios nichos de mercado: o movimento estudantil, o setor de esportes e alguns nacos do aparato estatal (como a Agência Nacional do Petróleo, que atravessou todos os governos petistas em mãos do PCdoB). Dentro dessa aliança, o PCdoB desenvolve algumas iniciativas próprias, como no Maranhão.

A relação do PSB com o PT se anuncia mais complicada, porque é muito improvável que o PSB se submeta como um bloco ao hegemonismo petista para o bem de uma aliança de esquerda. A relação do PT com o PSB deve passar a ser mais semelhante à relação que o petismo tem mantido com o MDB nos últimos tempos: aliados ocasionais segundo dinâmicas estaduais, adversários ocasionais também segundo essas dinâmicas, e partícipes de algum acordo nacional que seja mutuamente benéfico e consiga atropelar as resistências locais. A evolução da relação entre PT e PSB nas últimas semanas revela o que poderíamos chamar de peemedebização das alianças de esquerda.

Já o PSOL é um caso curioso, porque seria ele o grande candidato a capitalizar politicamente com os rumos do país pós-Junho. Não estava e não está envolvido em corrupção, sempre esteve atento a várias das pautas que animaram as manifestações e havia feito críticas pertinentes aos governos petistas, mas já nas eleições de 2014 se realinha com o petismo de forma totalmente acrítica, com várias de suas lideranças declarando apoio a Dilma ainda na noite em que eram apuradas as urnas do primeiro turno, sem impor nenhuma pauta e sem negociar nada em troca.

A partir do impeachment, o PSOL, com algumas poucas exceções, como a pequena corrente de Luciana Genro, se assume como eco de reverberação da narrativa petista, um apêndice da retórica do golpe. Com isso, perde todas as chances de capitalizar a crise petista, já que o PT na oposição pode assumir um discurso de esquerda sem ambiguidades. Essa capitulação é coroada com a escolha do candidato do PSOL à presidência, Guilherme Boulos, um quadro sem nenhuma história no partido e praticamente um porta-voz de Lula. É incrível que depois das revoltas de Junho e do colapso do governo petista o PSOL ainda esteja com os mesmos níveis de intenção de votos que tinha na época da candidatura Plínio, em 2010, quando havia calmaria social e um governo de esquerda com 85% de aprovação.

IHU On-Line - De outro lado, qual é o significado da aliança entre o PSDB e o Centrão?

Idelber Avelar - Em suma, é a realização do sonho dos agentes do mercado. O mercado desconfia de Ciro e de Bolsonaro, e apesar de ter tido excelentes relações com Lula durante seus governos, não quer embarcar na aventura que seria uma administração petista no contexto atual. O seu sonho é Alckmin, mas trata-se de um candidato que patentemente não empolga ninguém, tem péssimo desempenho em vastas zonas do país, como o Nordeste, e não decola nas pesquisas. Ante esse quadro, sua chance é acumular tanto tempo de televisão e tantas alianças com máquinas partidárias locais que termine vencendo por W.O., graças à diferença de recursos, à grande pulverização dos votos e à alta taxa de rejeição dos concorrentes. Alckmin aposta em uma campanha que ele vença por não ter cometido erros.

Do lado do centrão, o acordo com Alckmin foi um baita drible da vaca em Ciro Gomes. Ao longo do último ano, a estratégia de Ciro tem sido, como dizemos em inglês, tentar comer o bolo e guardá-lo para depois. Por um lado, Ciro tem avançado sobre a base da esquerda com um discurso que conjuga indignação contra os “bandidos da política” e autoapresentação como paladino da ética, além de vários gestos na direção da retórica do golpe. Por outro lado, desenvolvia sua estratégia de tentar atrair o centrão, composto pelos mesmos que ele chama de golpistas, para acumular palanques estaduais e tempo de TV. Ciro queria, ao mesmo tempo, capitalizar sobre um discurso que antagoniza o sistema político e atrair para si um naco significativo desse sistema. Ele ainda tem chances, mas é fato que ficou sem uma coisa nem outra. Perdeu boa parte da base de esquerda levando um drible de Lula e perdeu o centrão levando um drible de Alckmin.

IHU On-Line - Diante desse cenário, que tipo de alianças pode-se esperar do MDB?

Idelber Avelar - O MDB tem um candidato nacional, Henrique Meirelles, mas não tem uma estratégia nacional. Ele fará o que sempre fez: costurará alianças segundo a conveniência dos seus caciques locais e se aliará ao bloco de poder segundo o sistema de chantagens e vetos que o caracteriza. A candidatura de Henrique Meirelles não representa exatamente um projeto. Ela é uma espécie de para-raios da alta impopularidade do governo Temer. Apesar de ser eminentemente um homem do mercado, Meirelles não é o depositário das esperanças desse mercado. O mercado sabe que Meirelles não tem chances e deposita suas esperanças alhures, especialmente em Alckmin.

IHU On-Line - De outro lado, como o senhor avalia a candidatura de Bolsonaro? Algumas pesquisas mostram que entre os jovens ele parece ter bastante aceitação. O que isso significa?

Idelber Avelar - As principais leituras do fenômeno Bolsonaro me parecem bastante viciadas. Por um lado, o petismo tenta associá-lo ao “golpe”, apresentando sua ascensão como manifestação do ódio ao PT pelas conquistas sociais dos governos Lula e Dilma. Segundo essa leitura, Bolsonaro seria uma expressão do racismo, sexismo e homofobia que afloraram como reação aos avanços da última década e meia. Por outro lado, há uma leitura que o vê como expressão de uma desilusão com o sistema representativo, de uma revolta contra a captura da pólis pelos interesses privados dos agentes políticos — uma espécie de tradução distorcida das revelações da Lava Jato, em suma.

Essas duas leituras contêm o seu momento de verdade. É fato que Bolsonaro capitaliza sobre um discurso antipetista virulento e também é indiscutível que ele expressa, para muitos, uma revolta contra o sistema político, independente de ele ser um produto acabado desse mesmo sistema, como todos os fascismos o são. Mas listar as características de um fenômeno não é explicar a sua gênese. Na leitura petista, falta atenção ao fato de que o partido no qual se criou e floresceu Bolsonaro, o PP, não chegou ao Executivo nacional por acaso. Ele foi levado pelas próprias mãos de Lula, que lhe entregou o Ministério das Cidades em 2005, durante a crise do mensalão. Um ano depois o pacto lulista incorporaria o PP à coalizão que governou o próprio estado de Bolsonaro, o Rio de Janeiro, durante a década que se seguiria. Amplas alianças locais patrocinadas pelo pacto lulista em todo o país alimentaram o PP ao longo da década.

Mas só esses fatores não explicam o surgimento dessa figura em particular, com as características que ela tem e a projeção que ela alcançou. Se olhamos a longa duração, a emergência de Bolsonaro expressa uma amnésia particularmente brasileira, que nos distingue dos nossos vizinhos. A falta de um acerto de contas com o passado da ditadura militar é uma das condições de possibilidade da ascensão de Bolsonaro. Basta lembrar, por exemplo, o quão impensável seria um Bolsonaro argentino, que fizesse e dissesse na Argentina o que faz e diz Bolsonaro no Brasil, e ainda assim conseguisse amealhar 20% das intenções de voto. É inimaginável, tanto na Argentina como no Uruguai. Mesmo no Chile, onde há uma poderosa direita com grande expressão eleitoral, um fenômeno como Bolsonaro seria impossível.

Na curta duração, Bolsonaro também expressa a revolta contra a incapacidade do sistema político de responder às demandas das manifestações de Junho de 2013. Trata-se de um fenômeno eminentemente thermidoriano, que não é raro depois de grandes rebeliões populares. Bolsonaro ocupa um vácuo: o movimento que se arregimenta em torno dele traduz o colapso do sistema político inventando uma ficção de ordem possível. É uma resolução moral imaginária de um conflito político real. Aqui, a pior coisa a se fazer é assumir uma postura de superioridade moral e julgar seus seguidores como toscos, burros, alienados, como parte da esquerda tem feito. Deveria ser possível combater a extrema direita sem recorrer a essa estereotipia. É uma disputa política que se impõe. E ela não vai ser vencida com arroubos de indignação moral.

IHU On-Line - Nos últimos anos, especialmente neste ano eleitoral, retomou-se a discussão sobre o que seria um projeto nacional para o país. Na sua avaliação, quais são as questões fundamentais que deveriam estar no centro de um projeto para o Brasil?

Idelber Avelar - São as questões que todos conhecemos e que estavam no coração das revoltas de 2013: um sistema político que seja minimamente permeável a pressões democráticas da pólis; serviços públicos administrados com transparência e que ofereçam contrapartidas ao que a cidadania paga em impostos; reversão das políticas de encarceramento massivo que atingem desproporcionalmente pobres e negros; uma compreensão da Amazônia que não a reduza a colônia energética de um modelo predatório de desenvolvimento; o entendimento dos desafios que se impõem com o aquecimento global. Enfim, muitas coisas poderiam ser citadas dentro do que se convencionou chamar de ideário da esquerda.

Mas também seria positivo que esse ideário fosse pensado no interior de uma compreensão de que “disciplina fiscal” não deveria continuar sendo um palavrão para a esquerda; de que a discussão sobre alocação de recursos é inevitável, não tem saídas fáceis, que “auditoria da dívida” não é uma fórmula mágica para que sobre mais dinheiro e que “usar os bancos públicos para reduzir juros” é uma estratégia já experimentada e fracassada.

Essa seria a minha utopia de campanha eleitoral: um debate em que estivessem presentes os componentes fundamentais do ideário de esquerda combinados com os ensinamentos do pensamento econômico brasileiro mais lúcido, que na minha opinião está expresso no trabalho de autores como Marcos Lisboa. Não vejo grandes sinais de que esse debate vá acontecer.

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