A cartada pragmática do PT deixa sequelas

Revista ihu on-line

Sistema público e universal de saúde – Aos 30 anos, o desafio de combater o desmonte do SUS

Edição: 526

Leia mais

Karl Marx, 200 anos - Entre o ambiente fabril e o mundo neural de redes e conexões

Edição: 525

Leia mais

Junho de 2013 – Cinco Anos depois.Demanda de uma radicalização democrática nunca realizada

Edição: 524

Leia mais

Mais Lidos

  • PT não pode ficar dependente de Lula, diz Olívio Dutra

    LER MAIS
  • Resistência Democrática, unidos pela Justiça e Paz! Manifesto dos Organismos e Pastorais Sociais da CNBB

    LER MAIS
  • Composto do Agente Laranja começa a contaminar o Mato Grosso

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

03 Agosto 2018

Partido opta por rifar Marília Arraes para fortalecer Pimentel em Minas. Diretório petista em Pernambuco se rebela.

A reportagem é de Gil Alessi, publicada por El País, 02-08-2018.

De dentro de uma cela na sede da Polícia Federal em Curitiba foi costurada uma das negociações mais controversas destas eleições até o momento, com a anuência e participação direta do ex-presidente Lula. Em troca do apoio do PSB à candidatura do governador de Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel - o principal palanque do partido no Sudeste -, a sigla se dispôs a abrir mão de lançar Marília Arraes na disputa para o Governo de Pernambuco. Ela era a petista mais competitiva no Estado em anos. Por um lado, além do ganho eleitoral em Minas, o compromisso dos socialistas – não de forma pública e oficial ainda - de manterem uma neutralidade no âmbito nacional deixa o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) isolado e fortalece a posição do PT como o grande polo da esquerda na corrida para o Planalto. Por outro, no entanto, ao rifar Arraes, 34, a legenda reforça sua lulodependência e irrita apoiadores, especialmente em Pernambuco, e quadros ilustres, tanto históricos como neófitos. O diretório petista de Pernambuco cumpriu a promessa de se rebelar e vai exigir que o PT nacional discuta a questão.

O ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, por exemplo, um crítico contumaz de um certo pragmatismo do PT e considerado à esquerda no partido, lamentou a manobra, e chamou a jovem Arraes de "o grande quadro renovador da esquerda do Nordeste". “Peço a Deus e às forças do além que eu não esteja entendendo bem que foi feito um acordo PT-PSB", Um dos parlamentares mais próximos de Lula, o deputado federal Wadih Damous (RJ), que visita o ex-presidente com frequência em Curitiba, usou o Twitter para lamentar. “A decisão pró-PSB em Pernambuco dói na minha alma e na alma da militância. Em nome de um acordo regional, afasta-se uma liderança promissora como Marilia Arraes. Um grave erro político”, escreveu. Procurado pela reportagem, Damous afirmou que não iria mais se manifestar sobre o assunto. A petista pernambucana recebeu também o apoio de Marcia Tiburi, a filósofa candidata ao governo do Rio. "Declaro total apoio à Marilia Arraes. Acabei de falar com ela e estaremos juntas a partir do que ela decidir", escreveu no Twitter.

A movimentação do PT não foi, no entanto, uma surpresa. Há meses o PT negociava com o PSB. O pacto se soma a outros semelhantes feitas pelo partido este ano em Estados do Nordeste e Norte do país. Em Alagoas, por exemplo, o PT abriu mão de candidatura própria ao Senado e formalizou apoio à reeleição do senador Renan Calheiros (MDB), que votou de forma favorável ao impeachment da então presidenta Dilma Rousseff - o que lhe valeu o rótulo de "golpista" por parte dos petistas. No Ceará, Amazonas, Amapá e Piauí a legenda fez acordos similares em detrimento de seus próprios quadros.

“A decisão envolvendo Minas e Pernambuco é estrategicamente correta tendo em vista a disputa nacional”, afirma o cientista político da Unicamp Oswaldo Amaral, autor de um livro sobre o partido. “Nas eleições em que o PT se coligou com o PSB, a legenda do ex-presidente Lula já havia aberto mão de várias disputas nos Estados nordestinos em troca deste apoio nacional”. De acordo com Amaral, a aposta da legenda é, tendo em vista a articulação de Geraldo Alckmin com o Centrão, forçar a polarização entre esquerda e direita que tem se repetido nos últimos pleitos. “Neste cenário é preciso reduzir o número de oponentes, para isso servem as coligações, além do tempo de TV, claro. Se você tira estrutura de alguém que pode disputar seu eleitorado fica mais fácil”, completa, referindo-se à manobra petista para isolar Ciro. Assim, Arraes se tornou uma espécie de dano colateral do plano petista. "Felizmente ela é nova, terá outra oportunidade no próximo pleito", diz.

Do ponto de vista pragmático, Minas é um Estado-chave que representa o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com mais de 10% do total de eleitores, atrás apenas de São Paulo. Já Pernambuco concentra pouco menos que 5% dos votantes. “Com o acordo o PT reforça um Estado importante do ponto de vista nacional, mas também se fortalece regionalmente: Minas é um dos poucos do Sul e Sudeste onde a legenda tem chances de se manter no poder, tendo em vista que nestas regiões a crise de popularidade pela qual o partido passa é mais forte”, afirma o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

"Não adianta mais tentar unir a esquerda por meio de chantagem"

Seja como for, a decisão deve demorar para decantar. Preterida em Pernambuco, Marilia Arraes, que ocupa a segunda colocação nas pesquisas mais recentes e é herdeira do legado político do ex-governador Miguel Arraes, foi referendada pelo PT de Pernambuco como candidata nesta quinta e haverá recurso. O senador petista Humberto Costa foi recebido aos gritos de "golpista" no encontro estadual do PT, registrou em vídeo o jornal Diário de Pernambuco. Marília discursou e falou duro: "Não adianta mais tentar unir a esquerda por meio de chantagem. É o que o PSB Está fazendo. O PSB chantageia o PT", disse.

Em Minas Gerais Márcio Lacerda (PSB) também não viu com bons olhos ser rifado na negociação. Em nota o ex-prefeito disse que tomou conhecimento da decisão do PSB de apoiar o atual governador Pimentel com “indignação, perplexidade, revolta e desprezo”. Ele também afirmou que não pretende disputar o Senado pela legenda, opção sugerida pelo presidente nacional do partido Carlos Siqueira, e também sinalizou que deve recorrer.

Esta não foi a primeira vez que a cúpula do PT tomou decisão polêmica em Pernambuco. Nas eleições de 2012 a legenda desconsiderou a vitória nas prévias do então prefeito do Recife e candidato à reeleição, João da Costa, para impor a candidatura de Humberto Costa. A decisão, ungida por Lula, que participou ativamente da campanha de Costa, dividiu o partido e levou a uma vitória de Geraldo Júlio (PSB).

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A cartada pragmática do PT deixa sequelas - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV