Protestos no Brasil desnudam nova classe média e a lulodependência

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27 Junho 2013

O protesto nacional brasileiro parece uma crise de livro: "O Antigo Regime e a Revolução", de Alexis de Tocqueville. Depois de vários anos de progresso inédito por sua rapidez e extensão, se represou uma enxurrada de expectativas não realizadas, provocando a derrapagem da comoção cidadã, talvez mais que indignação, mas muito menos que uma revolução.

A reportagem é de M. Á. Bastenier, publicada pelo jornal El País e reproduzida pelo portal Uol, 27-06-2013.

Os termos a associar são classes médias e lulodependência. Entre 2002 e 2012 as classes médias brasileiras passaram de 38% para 53% dos 180 milhões de cidadãos. Quase 20 milhões saíram da pobreza para se inserir, segundo o Banco Mundial, em uma ainda frágil camada social batizada de vulnerável, e 35 milhões têm um nível de renda que a instituição considera próprio das classes médias - de US$ 10 a 50 por membro da família e dia. A avalanche que nas últimas semanas deixou de congregar alguns milhares para mais de um milhão de manifestantes em todo o Brasil, não é portanto a insurreição das favelas. Ao contrário, são essas classes médias que alimentam o protesto, com profusa representação de universitários em um país onde o gasto em educação cresceu de abissais 3,7% do PIB em 1995 para decentes 5,5% em 2010, já perto da média da OCDE, de 6,2%. É assim que milhões de famílias aspiram pela primeira vez a ter um filho com carreira profissional.

Esse protesto, que cabe situar na esteira das manifestações de universitários em 2011 no Chile e dos panelaços argentinos deste ano e do último, é a demonstração de que o progresso econômico não traz necessariamente paz social, e sim classes médias, as mais difíceis de contentar e as que o poder mais teme, porque são as que mais votam.

Diagnóstico

A lulodependência é um subproduto provavelmente inevitável de um período de êxito tão copioso quanto os dois mandatos sucessivos de Lula da Silva, cujo principal sintoma é a embriaguez do ego. O Brasil é o gigante da América Latina, e ainda mais da América do Sul. Possui o exército mais forte da Iberoamérica; fabrica armamentos sofisticados; sua diplomacia é tão nacionalista quanto competente; conta com grandes reservas de petróleo subaquático, e com Lula a elite brasileira se convenceu de que o país chegaria a grande potência. O líder do PT havia escolhido cuidadosamente os cenários para a implantação e desenvolvimento de sua gigantomaquia. Entre 2013 e 2010 visitou 20 países da África negra, duplicando para 37 o número de legações no continente, com o qual o Brasil de cor - a metade da população - sente afinidade cultural e étnica.

O outro campo privilegiado de atuação tinha que ser a América Latina. E o mundo ocidental, que deseja que esse grande em gestação não saia do rumo, comemorava a concessão ao Brasil da organização da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016.

Somando-se a Copa das Confederações, em andamento hoje, o custo da obra é de cerca de 20 bilhões de euros.

Em apoio à hipótese que Tocqueville teria assinado com gosto, há estatísticas muito recentes: 59% dos pesquisados consideram boa a conjuntura econômica do país, o que não impede que 55% se mostrem insatisfeitos; e, ainda melhor, enquanto 74% dizem estar em boa situação econômica, 75% apoiam os protestos. Estes são dirigidos contra:

a) a inflação, porque o Brasil também acusa a crise mundial;

b) a corrupção, ressaltada pelos julgamentos do mensalão, em 2012, pelos quais foram condenados 25 políticos, banqueiros e empresários;

c) o desperdício em megaeventos esportivos, com a concessão de privilégios exorbitantes à Fifa, a qual o jogador Romário, em um arroubo social que não se conhecia nele, qualificou de "Estado dentro do Estado"; e

d) a brutalidade da repressão de uma polícia que não progrediu como o resto do país.

O "establishment", anestesiado pelos índices de popularidade da presidente Rousseff, não parecia esperar a explosão popular, que proclama sua condição anônima com cartazes que dizem: "Nenhum partido me representa", ou "O gigante despertou", a 14 meses das eleições presidenciais.

Já foi lugar-comum dizer que "O Brasil é o país do futuro, mas que sempre continuará sendo". Esse futuro, entretanto, já chegou, e com ele o rosto perturbado pela cólera das classes médias.

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