Resistência de Marília Arraes coloca Pernambuco no centro da eleição

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03 Agosto 2018

Diretório estadual do PT confirma candidatura de Marília Arraes e contraria decisão da Executiva Nacional.

A reportagem é de Murilo Matias, publicada por CartaCapital, 02-08-2018.

A maioria do PT de Garanhuns seguiu as palavras do conterrâneo ex-presidente Lula quando o líder petista afirmou de Curitiba que se militasse em Pernambuco trabalharia pela confirmação da candidatura da vereadora Marília Arraes para concorrer ao governo do estado.

Diante de uma administração que consideram desgastada, a preferência de diferentes setores da sociedade pela neta de Miguel Arraes se espalhou por diferentes regiões a ponto de colocar-se em condições de igualdade na disputa pelo comando da máquina pública e ameaçar o acordo nacional entre petistas e socialistas desenhado em São Paulo, que prevê a saída de jogo da petista em troca da neutralidade do PSB na eleição presidencial.

"A maioria dos 312 delegados está com Marília, segundo o estatuto a decisão do colegiado é soberana. Entraremos com recurso para garantir a sua candidatura", defende Marcus Aurélio Rodrigues, membro da executiva do PT de Garanhuns.

O apoio das bases do PT em Pernambuco à candidatura própria foi confirmado em uma impressionante votação em favor de Marília. Na deliberação do diretório estadual, 230 delegados defenderam a participação da neta de Arraes na disputa, 20 foram contra e um se absteve. A decisão pode sofrer uma intervenção do PT federal, mas certamente haverá um alto custo político. 

Do outro lado, direto do Palácio do Campo das Princesas, o governador Paulo Câmara (PSB) sonha com o acordo nacional que retiraria a candidatura própria do PT para perfilar-se junto à atual gestão e garantir a permanência dos socialistas no poder no estado há mais tempo liderado pelo partido no Brasil, desde 2007, data da primeira eleição do ex-governador Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo quando disputava as eleições presidenciais de 2014.

A aposta de Câmara de afirmar que no estado só existem duas forças políticas antagônicas, uma alinhada ao presidente Michel Temer e outra opositora aos golpistas, encontra resistência junto ao eleitorado local, sobretudo relacionado ao campo progressista.

O recente histórico desautoriza o discurso do governador. À época da votação do impeachment de Dilma, Câmara exonerou quatro de seus secretários para que voltassem ao Congresso e votassem a favor do impedimento da presidenta eleita. Além disso, o PSB foi fundamental para o prosseguimento da denúncia com 29 de seus parlamentares apoiando a denúncia, contra somente três contrários entre os deputados.

Curiosamente, o inchaço do partido agregando inclusive nomes da direita ocorreu nos anos em que Eduardo Campos buscava fortalecer a sigla para cacifar-se na luta pela presidência. Em virtude da expansão, ingressaram nomes como Tereza Cristina (MT) e Heráclito Fortes (PI), sem qualquer afinidade ideológica com os preceitos da legenda.  A situação provocou a saída de referências históricas dos socialistas, incluindo Marília Arraes, que inconformada com a postura decidiu pela desfiliação ao PSB e filiação ao PT.

"Faz um ano que o diretório estadual definiu a candidatura própria e politicamente nada mudou. Nós temos um governo ruim, um governador desgastado, que cambaleia ideologicamente, refletindo na gestão. Podíamos concorrer para marcar posição, para garantir palanque a Lula, mas além disso construímos um projeto com apoio da população, assustando nossos adversários. Concordamos que o apoio formal do PSB era importante e Pernambuco representa o coração do partido, mas Paulo Câmara não tem força política para levar o partido como um todo para a coligação nacional, por isso discordamos dessa tática de retirar uma candidatura com chances de ganhar", garantiu Marília Arraes, em entrevista coletiva concedida em 1º de agosto.

Além da preferência regional, nomes importantes do PT demonstraram apoio à Marília. "Peço a Deus e às forças do além, que eu não esteja entendendo bem que foi feito um acordo PT-PSB, que descarta a candidatura da Marília Arraes ao Governo de Pernambuco, o grande quadro renovador da esquerda do nordeste! Aguardemos!", escreveu o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Educação, Tarso Genro.

"A decisão pro PSB em Pernambuco dói na minha alma e na alma da militância. Em nome de um acordo regional, afasta-se uma liderança promissora como Marilia Arraes. Um grave erro político", complementou o deputado federal e advogado do ex-presidente Lula, Wadih Damous (PT-RJ). A estratégia equivocada de eleições anteriores trouxe a consequência de o partido não ter representação na Câmara dos Deputados, a exceção é presença de Humberto Costa  no senado.

A crise política refletida na esfera social

O exemplo mais severo da crise vivenciada pelas classes populares brasileiras está relacionado ao retorno da miséria e da subnutrição. Em virtude da fragilização das políticas de transferência de renda o país voltou ao mapa da fome, situação que vem sendo denunciado por movimentos sociais que organizaram a Caravana do Semiárido contra a Fome, projeto que percorrerá mais de 4.300 quilômetros desde o sertão de Pernambuco até a capital federal.

Diretamente ligado à produção de alimentos, o campo pernambucano sofre com a falta de investimentos e com o estancamento das desapropriações e dos assentamentos do MST, atualmente 14 mil acampados no estado aguardam sem perspectiva a regularização de um pedaço de terra para produzirem.

"Os golpistas tem por estratégia minar a reforma agrária, aumentar a concentração para favorecer o agronegócio, as multinacionais, os usineiros, eliminado assim os movimentos campesinos. Pernambuco teve projeção no cenário econômico, nos centros industriais, na agricultura, ainda assim muitas lideranças votaram a favor do impeachment de Dilma", afirma Francisco Terto, da direção estadual do MST.

"Por isso, o movimento foi uma locomotiva para construir uma nova candidatura, defendo em Marília uma jovem liderança com habilidade e proximidade com as bases. Tivemos uma presidenta eleita que perdeu o mandato, nossa maior liderança está presa, isso mostra que precisamos fazer a luta política em um novo formato, sem compor com os que apunhalaram o povo no Brasil. Já temos doze milhões de famintos."

Do interior aos centros urbanos,em Jaboatão dos Guararapes, situado na área metropolitana de Recife, a violência e as dificuldades de infraestrutura se avolumam. A cidade que ficou conhecida como a "moscouzinho" de Pernambuco, em alusão à eleição de Doutor Manoel Rodrigues Calheiros, em 1947, considerado o primeiro prefeito comunista do Brasil, convive agora com grupos políticos conservadores associados à elite religiosa e às oligarquias, com destaque para o prefeito Anderson Ferreira (PR).

"O custo de vida é altíssimo e não há saneamento, pavimentação nas ruas e isso nas áreas nobres, nas periferias e zonas pobres os problemas são ainda maiores. A única obra recente de maior impacto foi realizada na orla da praia e ainda assim é mais para maquiar os problemas do que para resolve-los", critica a moradora do bairro Candeias, Maria Bazaia.

Entre Recife e o Porto de Suape, passando pelo agreste à região da mata, a realidade de piora dos índices sociais tem na falta de oportunidades profissionais um dos retratos mais graves, colocando Pernambuco na condição de segundo estado com mais desemprego, aproximando-se de 20% conforme o IBGE.

Na saúde, a elevação da mortalidade infantil, segundo o Ministério da Saúde, que chegou ao patamar de 8%, em 2016, ano de alta incidência de doenças entre gestantes interrompeu uma série histórica de queda dos óbitos depois de quase 30 anos. 

"Estamos assistindo em Pernambuco um quadro muito difícil pois o governador não tem liderança e não estava preparado para governar sem Eduardo Campos. Temos mil e quinhetas obras paralisadas conforme o Tribunal de Contas e a violência cresceu mais de 50% entre 2015 e 2018. O programa Pacto pela Vida não teve continuidade e há uma falência do sistema prisional. Tudo isso coloca Câmara como o pior governador da história, deixando pra trás conquistas recentes. O vento que sopra por aqui é o da mudança", aponta o líder da oposição, deputado estadual Silvio Costa Filho (PRB), entusiasta da candidatura do senador Armando Monteiro (PTB) para o executivo, terceiro colocado nas sondagens de intenção de voto.

Os situacionistas, por seu turno, exaltam a instalação de 113 empresas nos últimos três anos e o crescimento recente do PIB como marcos da reação.

"Atravessamos a crise nacional de maneira diferenciada, sem perder o controle das finanças. Desde a época de Lula e Campos, duplicamos a rede de saúde e recebemos muitos investimentos, a refinaria Abreu e Lima, o estaleiro Atlântico Sul, responsáveis por diversificar nossa matriz econômica. Com a posterior recessão era natural haver limitação de recursos as consequências do impacto são numa escala maior. Sobre as alianças, a decisão do PT obedece a um movimento maior nacional, mesmo os deputados do PSB que votaram pelo impeachment não apoiaram a agenda de Temer. Com relação a posição pessoal de Marília não nos cabe avaliar", opina o deputado estadual Waldemar Borges, ex- líder de Campos e Câmara.

Enquanto os três principais candidatos aparecem em situação de empate técnico rondando os 20% nas pesquisas realizadas, o ex-presidente Lula lidera com folga de 60% as intenções de voto no estado. Diante de tantas dúvidas, a certeza é de que mesmo da distante Curitiba, a voz e liderança do petista e pernambucano ecoará com força em sua terra natal.

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