Surge o nome do provável sequestrador do Padre Dall'Oglio

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28 Julho 2018

Há alguns meses, após a queda de Raqqa, capital síria do reino das trevas do ISIS, Iyas Dehs, um dos amigos do Pe. Paolo Dall’Oglio, que o acolheu e o acompanhou até ser engolido na escuridão síria, finalmente pôde contar ao jornal Raqqa Post as últimas horas do Pe. Paolo antes de seu sequestro.

A reportagem é de Riccardo Cristiano, publicada por Vatican Insider, 27-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na noite de domingo, no canal italiano Rai Uno, Amedeo Ricucci, do Tg1, por ocasião do quinto aniversário do sequestro do Pe. Paolo, dará a palavra a ele e a outras testemunhas das horas que antecederam o sequestro de Pe. Paolo, no documentário intitulado Abuna (“Nosso pai”, em árabe), que, realizado em Roma e Raqqa, mostrará essa cidade espectral, ainda em grande parte destruída.

São perturbadoras as imagens de uma fossa onde teriam sido jogados os corpos de 2.000 vítimas, entre as quais poderiam estar também as de prisioneiros do ISIS. A câmera de Amedeo Ricucci chegou lá após ter enquadrado os escombros de uma cidade quase arrasada, chegando também lá onde estava o quartel-general do ISIS, que, na época do sequestro de Dall’Oglio, era a sede de várias formações jihadistas ainda não unidas no Estado Islâmico.

Encontrando-se com os sobreviventes e com as atuais autoridades de Raqqa, Ricucci pôde confirmar que o homem com quem o Pe. Paolo teria falado lá ainda está vivo (naqueles dias, ele estava detido pelas autoridades de Raqqa). Trata-se de Abd al-Rahman al Faysal Abu Faysal, que depois se tornou um dos homens-chave do ISIS.

Basta procurar alguns rastros na internet para ler que, ainda em junho, alguns ativistas dos direitos humanos falavam da sua libertação por parte daqueles que hoje, entre enormes dificuldades, gerenciam Raqqa. Sobre ele, Ricucci falou diretamente com as autoridades de Raqqa, mas não pôde entrevistá-lo.

Ao saber disso, o Vatican Insider pediu notícias às autoridades curdas do Rojava, que, depois de terem sido contatadas, relataram que os detentos interpelados, infelizmente, não recordariam os fatos de 2013 ou o nome do Pe. Paolo.

No documentário, muitos cidadãos, ao contrário, recordam o Pe. Paolo, e uma moça, velada, relata as manifestações que ocorreram na cidade para pedir a sua libertação, e os vibrantes coros de muitos manifestantes contra o ISIS.

Portanto, seria importante falar com Abd al-Rahman al Faysal Abu Faysal, frequentemente trancado e, depois, libertado da penitenciária al-Mansour. O Vatican Insider confirmou que, hoje, ele estaria novamente livre, depois de uma recente detenção, possivelmente controlado a distância: ele poderia guardar uma verdade que é procurada há cinco anos, porque, em 29 julho de 2013, ele teria estado presente no esconderijo onde o Pe. Paolo entrou.

Iyas Dhes, o amigo de Dall’Oglio que, em 29 de julho de 2013, acompanhou-o até o último minuto e foi longamente entrevistado por Ricucci, em seu artigo-testemunho que foi publicado no jornal Raqqa Post, recorda o amor do jesuíta pelos sírios, pelo seu direito à liberdade e à construção de uma sociedade baseada na igualdade de cidadania para todos. Uma vez, ele disse: “Colorida pelo Islã assim como a nossa é colorida pelas raízes cristãs”.

Haviam passado mais de quatro anos desde o sequestro do Pe. Paolo Dall’Oglio, um desaparecimento seguido por muitas notícias contraditórias sobre o seu destino, quando Iyas escreveu: “o Pe. Paolo dirigiu-se à cidade de Raqqa após a sua libertação em 2013 e, durante a sua visita, pôde se encontrar com muitos ativistas e cidadãos comuns com os quais se sentava nas ruas e nos bares, falando, ouvindo”.

A sua principal intenção, continua o relato, era falar sobre os destinos dos cristãos após o aumento do poder do ISIS, um futuro que o alarmava particularmente, e para buscar a libertação de alguns ativistas sequestrados, incluindo Firas Alhaj Saleh. Ele é um jovem ativista sírio, leigo de família muçulmana, que havia se tornado um componente do órgão de autogoverno cidadão e que, assim que Raqqa havia sido cercada por muitos refugiados, havia imediatamente se mobilizado para arrecadar fundos em seu favor e para organizar a assistência.

Assim, já emerge uma primeira circunstância relevante: um dos principais opositores do regime de Assad, animador dos protestos em Raqqa, primeira cidade síria a sair do controle do regime de Damasco, foi sequestrado pelo ISIS assim que possível.

A família de Iyas Dhes hospedou o Pe. Paolo até o momento do sequestro. Estava em andamento o mês do Ramadã, e o sacerdote também decidira jejuar, para rezar pela paz e pela liberdade com os sírios. “Recordo-me do primeiro dia em que ele entrou na nossa casa. Ele perguntou onde estava a dona da casa. Minha mãe veio, cumprimentou-o, e ele perguntou se ela estava jejuando. Ela respondeu: ‘Certamente sim’. Então ele saiu e voltou cerca de meia hora depois trazendo um saquinho com doces que presenteou para a minha mãe”. É um costume muito difundido dar doces para o Ramadã, de modo que aqueles que os recebem possam consumi-los após o pôr do sol. quando o jejum se interrompe até o amanhecer seguinte.

“Em 28 de julho de 2013, o Pe. Paolo foi até a sede central do ISIS no edifício do governatorado pedindo para poder se encontrar com um responsável ou um emir. Houve uma discussão na entrada com os guardas. Um deles lhe disse para voltar à noite, que poderia encontrar o emir. À noite, ele voltou para ser avisado para voltar novamente no dia seguinte, às 13 horas. Apesar das nossas recomendações e da nossa insistência em não ir até lá, ele foi ao encontro, porque queria ajudar as pessoas e acreditava profundamente naquilo que fazia. Em 29 de julho de 2013, dia do seu sequestro, ele estava na nossa casa e recomendou ao meu pai que divulgasse a notícia caso não voltasse em até três dias. Desejamos-lhe que nada lhe acontecesse, para nos encontrarmos novamente em breve. Nunca esquecerei o seu olhar enquanto nos cumprimentava. Eu sentia que ele tinha medo, mas não sabia que seria a última vez que o veria. Naquele dia, estava sendo preparado um almoço em casa, daqueles que se preparam em honra a um membro da família. Era em sua honra.”

O Pe. Paolo Dall’Oglio, portanto, preparava-se, governando ansiedade e medo, a um passo sobre o qual sabia tudo. “Ele caminhava sozinho, sem dizer uma palavra. Depois parou na frente da porta, e lá meu pai e eu o cumprimentamos. Depois, ele subiu com o Dr. Muhammad al-Haj Salih que o acompanhou e, antes de chegar, o Pe. Paolo insistiu em descer. Ele temia que o ISIS fizesse mal a quem estivesse com ele. O Pe. Paolo se dirigiu até a sede do ISIS e, a partir daquele momento, não soubemos mais nada dele. Após uma ausência de três horas, as pessoas reunidas decidiram enviar duas delas para pedir notícias suas na sede do ISIS. De fato, fomos Qussay al-Huwaidi e eu e, chegando à porta, pedimos para encontrar o emir da organização. Levaram-nos para o porão, onde nos sentamos em um corredor à espera. Depois de cinco minutos, chegou uma pessoa, eu acredito que fosse o emir do fronte oriental, trazia um cinturão explosivo acompanhado por pessoas armadas que apontavam suas armas para nós. Perguntamos ao emir: ‘Veio ao encontro de vocês uma pessoa chamada Paolo que depois desapareceu?’. O emir nos respondeu que não o tinha visto e que não sabia nada dele. Naquele momento, não podíamos fazer nada mais além de voltar para casa desiludidos. Não esperamos os três dias e imediatamente denunciamos o sequestro do Pe. Paolo. O desaparecimento desse nobre homem foi e ainda é uma grave perda para a revolução e para todo o povo sírio, um homem que buscava semear o amor entre as pessoas para que se ajudem umas às outras.”

Os boatos, que afirmavam que ele foi morto imediatamente ou foi mantido em uma prisão na represa no rio Eufrates, não merecem ser reconstruídos. Interesses, protagonismo, despistagens são o pão nosso de cada dia nessas circunstâncias. O que importa dizer é que o homem que se encontrava lá aonde Dall’Oglio foi, mas que nega tê-lo visto, que sabia que pedia a libertação de reféns e que falava do futuro dos cristãos poucas horas depois da destruição de uma igreja , está vivo, está em Raqqa, o seu nome e a sua fotografia parecem certos para aqueles que o conhecem.

Ele sabe? Quem pode, deveria interrogá-lo? Claro, com base no relato dos companheiros de viagem do Pe. Paolo, poderia haver, pelo menos teoricamente, a possibilidade de que alguém tenha raptado o jesuíta romano enquanto ele dava os últimos passos até aquele tétrico edifício, forçando-o a entrar em um carro. Mas parece uma hipótese improvável.

As novidades sobre o caso do Pe. Paolo não se esgotam no seu sequestro. Seu testemunho sempre oferece novas intuições de incrível atualidade, apesar desse silêncio de cinco anos. Aqui, não são as câmeras ou os jornalistas que trazem indícios muito importantes, mas sim o cardeal Mario Zenari, núncio apostólico na Síria.

Durante uma conferência na Pontifícia Universidade Gregoriana, ele informou que, no dia 7 de março de 2013, poucos meses antes de ser sequestrado, o Pe. Paolo Dall’Oglio, de acordo com um artigo do principal jornal cristão do Líbano, L’Orient Le Jour, afirmara: “Se os cristãos apoiam o regime (de Assad) porque têm medo do islamismo, deixarão o país em massa. Foi o que aconteceu no Iraque, é o que vai acontecer na Síria e, se não se encontrar uma solução, é o que vai acontecer também no Líbano. Os cristãos do Oriente Médio não sabem mais por que Deus os mandou viver com os muçulmanos. Quando alguém não encontra mais uma resposta para isso, então parte, deixa o país. A resposta deles deve ser espiritual, não apenas social ou econômica”.

Essas palavras indicam que a perspectiva da cidadania, central em muitos documentos pontifícios e também no discurso feito em Bari pelo Papa Francisco, é a única que restitui o sentido profundo da presença cristã naquelas terras, fazendo delas uma janela que se abre ao mundo e, portanto, um precioso instrumento de paz.

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