O Patriarcado de Moscou: o “cisma ucraniano” provocaria um “derramamento de sangue”

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02 Julho 2018

Na Ucrânia “correria sangue”, caso se legitimasse canonicamente a criação de uma Igreja ortodoxa nacional, fora do controle do Patriarcado de Moscou, e os “cismáticos” procurariam se apossar dos santuários símbolo da memória ortodoxa ucraniana, como o Mosteiro das Grutas de Kiev.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 30-06-2018. A tradução é de André Langer.

A infausta profecia foi feita pelo metropolitano russo Hilarion Alfeyev, do Patriarcado de Moscou para as relações exteriores. Ele a fez em uma entrevista concedida à agência de informações eclesiais Romfea, um portal greco-ortodoxo considerado em sintonia com o Patriarcado de Moscou.

A terrível mensagem representa a passagem mais surpreendente dentre todas as coisas importantes que contém a entrevista. Através da agência grega “amiga”, o influente representante da Ortodoxia Russa não deixou de fornecer detalhes e informações reservadas para que os ortodoxos gregos conheçam a visão do Patriarcado de Moscou sobre a “questão ucraniana”, que está complicando as relações na família das Igrejas greco-ortodoxas.

Por trás da intenção de criar uma Igreja ortodoxa ucraniana independente do Patriarcado de Moscou, disse Hilarion, existem “três forças”: a atual classe política ucraniana, os ortodoxos “cismáticos” do auto-proclamado Patriarca Filarete de Kiev e os “uniatas” da Igreja greco-católica ucraniana.

Cada uma dessas forças, afirmou Hilarion, age “de acordo com seus próprios interesses”. De acordo com o encarregado do escritório para as relações exteriores do Patriarcado de Moscou, os líderes políticos ucranianos estão buscando um argumento que vai ajudá-los a vencer as eleições, o que o hierarca russo considera improvável no momento, “tendo em conta a baixa aceitação das forças no poder”.

Por sua vez, os seguidores do auto-proclamado Patriarcado ortodoxo de Kiev (não reconhecido canonicamente por nenhuma das Igrejas ortodoxas) iriam querer “legitimar tudo o que fizeram nos últimos 25 anos”. Os greco-católicos ucranianos, ao contrário, apostariam no ‘enfraquecimento da Ortodoxia’, já que para eles a nova Igreja nacional ucraniana “deve estar unida ao Sucessor de Pedro” e deixar de ser “ortodoxa” para tornar-se “católica”.

Hilarion também reflete sobre a recente visita que fizeram a El Fanar – sede do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla – os representantes da Igreja ortodoxa ucraniana ainda vinculada ao Patriarcado de Moscou. O metropolitano russo ofereceu um resumo detalhado desse encontro para desmentir que o Patriarca Bartolomeu esteja disposto a oferecer apoio canônico ao projeto de uma Igreja nacional ucraniana independente.

Hilarion rejeitou algumas explicações históricas (atribuídas ao metropolitano Ioannis Zizioulas de Pérgamo, importante teólogo do Patriarcado de Constantinopla), segundo as quais a incorporação sob o Patriarcado de Moscou da Metropolia de Kiev, primeiro sob a Igreja de Constantinopla, foi canonicamente disposta em 1685 como medida temporária e, portanto, revogável.

De qualquer maneira, insistiu Hilarion, nas conversações com a delegação ucraniana o próprio Patriarca Bartolomeu “enfatizou que para ele um cisma é um cisma, e considera Filarete Denisenko (o auto-proclamado ‘Patriarca’ de Kiev, ndr) como causa do cisma”. De acordo com o mesmo Hilarion, o Patriarca Bartolomeu teria dito que são “inimigos do Patriarcado de Constantinopla” todos aqueles que espalham falsos rumores sobre um suposto documento de concessão da autocefalia da Igreja ucraniana já preparado pelo próprio Patriarcado ecumênico.

As preocupações eclesiais de Bartolomeu

De fato, a “questão ortodoxa” ucraniana segue sem ser resolvida. O Patriarca Bartolomeu, em 11 de junho passado, em uma mensagem divulgada pelo Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, recordou o dever da Igreja de Constantinopla de procurar soluções para a questão ucraniana, para “reconduzir todos à verdade e à canonicidade da Igreja”.

Nessa ocasião, Bartolomeu recordou que “quando um irmão é definido cismático ou herege, e muito mais ainda, quando todo um povo é definido como tal, razão pela qual acaba se excluindo da canonicidade da Igreja, então somos chamados, todos e sem reservas, a nos colocar espiritualmente em alerta”.

Por isso, uma delegação do Patriarcado de Constantinopla está fazendo uma visita às Igrejas ortodoxas autocéfalas (nestes dias o metropolitano Emanuel visitou o Patriarcado greco-ortodoxo de Alexandria), com a intenção de ouvir os pontos de vista de cada uma sobre a possibilidade de conceder a autocefalia a uma Igreja nacional ucraniana. No próximo dia 9 de julho, disse Hilarion, a delegação do Patriarcado Ecumênico também visitará o Patriarcado de Moscou.

Esta posterior complicação da situação torna mais evidente ainda o erro que o Patriarcado de Moscou cometeu em 2016 ao boicotar o Concílio pan-ortodoxo de Creta, desprezando uma cúpula conciliar na qual também poderiam ter discutido os desconfortos ortodoxos concentrados em torno da questão ucraniana.

Agora, Hilarion reconhece que “o mais importante” é iniciar um diálogo apropriado entre o Patriarcado ecumênico e o Patriarcado de Moscou, evitando trocas de opiniões “através da mídia” e “entrando em negociações” com a consciência de que “a Igreja ortodoxa russa está interessada, tanto quanto a Igreja de Constantinopla, em levar os cismáticos a formarem parte novamente da Igreja”.

Ao mesmo tempo, o metropolita russo não desistiu de dar uma alfinetada no metropolita de Pérgamo, Ioannis, atribuindo-lhe uma visão sobre a questão ucraniana baseada em uma “leitura facciosa” de fontes de 300 anos atrás.

O encontro em Bari

Fontes russas indicam que será “muito provável” a presença de Hilarion no encontro com os Patriarcas e chefes das Igrejas do Oriente Médio que o Papa Francisco convocou para Bari em 7 de julho. Mas as disputas intra-ortodoxas sobre a questão ucraniana não deveriam afetar o encontro, que se destina a rezar e enfrentar juntos as emergências dos cristãos no Oriente Médio.

Na ordem do dia estão os problemas vitais e os riscos concretos enfrentados pelas Igrejas nos países da região, e tudo isso desloca para um segundo plano as disputas jurisdicionais dentro da Ortodoxia.

O próprio Papa Francisco trata de neutralizar as tentações de líderes ortodoxos de usar a Igreja católica como um “aliado” para fazer prevalecer a própria postura nos confrontos internos: “A Igreja católica, as Igreja católicas”, esclareceu o Bispo de Roma em 30 de maio passado, ante uma delegação russa de ortodoxos, liderada precisamente por Hilarion, “não devem intrometer-se nas questões internas da Igreja ortodoxa russa, nem mesmo em questões políticas”.

Naquela ocasião, referindo-se indiretamente aos pedidos da Igreja greco-católica ucraniana para ser reconhecida como um Patriarcado, o Papa Francisco também insistiu em que “a Igreja católica nunca permitirá que dos seus nasça uma atitude de divisão. Nunca vamos permitir uma coisa dessas. Eu não quero isso. Em Moscou, na Rússia, há um só Patriarcado: o vosso. Nós não teremos outro”.

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