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16 Abril 2018

Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, comenta a reunião realizada em Roma, recentemente, organizada por cardeais, bispos, padres e leigos que não aceitam o magistério do Papa Francisco.

Segundo La Valle, “o encontro sedicioso de sábado, pelo menos teve o mérito de mostrar por que os conservadores implicam com o Papa Francisco e que Igreja eles gostariam e da qual sentem saudade”.

O texto é publicado no blog chiesadituttichiesadeipoveri.it, 13-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

Caros amigos,

A ambiciosa Assembléia antipapista que se realizou em Roma no sábado, 6 de abril, mostrou toda a fraqueza da facção que está tentando dividir o Igreja: uma sala na periferia de Roma, cem presentes, dois cardeais, dois bispos, um diácono e Marcello Pera (político italiano, ndt); o ato de acusação contra o pontificado franciscano consagrado na "declaratio final (mas na verdade há tempo pronta para ser usada) limitou-se unicamente à controvérsia bem conhecida sobre a eucaristia para os divorciados novamente casados para os quais a Amoris Laetitia pós-sinodal abriu o caminho através do discernimento e cuidado pastoral. No entanto, a substância teológica do pronunciamento romano é extremamente grave, porque através da dissertação do Cardeal Burke surgiu a proposta de destituição do Papa mediante o recurso - singular para um canonista - ao "direito natural", aos Evangelhos e à tradição.

Porém, apesar da fraqueza da iniciativa, que um pequeno grupo de dissidentes frustrados possa chegar a apresentar tais teses não muito longe da porta de São Pedro, também demonstra a vulnerabilidade do papado bergogliano. Vulnerabilidade por força do Evangelho: porque se o papa ainda se coroasse com a tríplice coroa, vestisse a mozeta vermelha imperial e como representante de Deus fosse o mestre dos anjos, poderia mover suas legiões, mobilizar a Ação Católica, os boinas verdes, os Comitês Cívicos e os Legionários de Cristo, para deter seus adversários; mas ele não tem legiões, e não quer nem mesmo defender-se, porque sabe que quem defende a própria vida a perde. E até mesmo os católicos "progressistas" continuam a perseguir as reformas que sempre pensaram, certamente importantes, mas não percebem que enquanto isso aconteceu um fato mais importante ainda, mudou a pregação de Deus, desapareceu o Jano da face dupla que salva e destrói "fascinante e terrível" e existe apenas o Deus que ama e perdoa. Eles continuam a olhar para o próprio dedo, e não percebem que mudou a face da lua, porque reflete um novo sol.

Como recordaram tanto Francisco como o Patriarca Bartolomeu, os antigos pais diziam que a Igreja é o "mysterium lunae" porque não reluz com luz própria, mas refrata a luz de Deus. Existe outra luz na Igreja de hoje que pressiona para irromper no mundo, ainda enredado na antiga escuridão e que corre para a guerra. Toda a Igreja, o clero e o povo, deveriam defender e acompanhar de perto o pastor, porque desta vez é ele que percebeu o cheiro do caminho, que caminha na frente das ovelhas, mas, ao contrário, grande parte dessa Igreja, bispos, clero e povo, não fazem nem mesmo a única coisa que ele sempre pede: que é orar por ele.

Em qualquer caso, o encontro sedicioso de sábado, pelo menos teve o mérito de mostrar por que os conservadores implicam com o Papa Francisco e que Igreja eles gostariam e da qual sentem saudade.

Eles gostariam de uma igreja onde não fosse lícita a liberdade do cristão, onde fosse banido o discernimento, excluída a autoridade da consciência, e cada decisão ética fosse heterônoma em relação à pessoa, escrita em um manual e adotada mediante um clique: este é, de fato, o anátema lançado sobre 'Amoris Laetitia' contra a liberdade do cristão e do homem, muito além da questão dos divorciados.

Eles gostariam de uma igreja onde não fosse lícito aos bispos pedirem a opinião dos fiéis, como foi feito antes do último Sínodo, devendo a fé das pessoas ser expressa apenas através de mobilizações específicas, como as marchas pela vida, as petições ou as correntes humanas sobre os princípios não-negociáveis: isso foi dito pelo cardeal Brandmüller.

Eles gostariam de uma Igreja em que os cônjuges vindos de um primeiro casamento fracassado ou desfeito, tivessem que impostar sua união de forma assexuada e viver na espera impaciente da morte do primeiro cônjuge, único evento capaz de dissolver o vínculo; seria assim a morte da "boa nova" do Evangelho para eles: é essa a essência da "declaratio" do cardeal Burke.

Eles gostariam de uma Igreja cuja mensagem fosse a salvação, que é uma coisa espiritual, mas não a libertação, que seria uma coisa mundana. E esta é a coisa mais anticristã de todas, que com imensa ingenuidade e grosseria foi proclamada pelo ex-presidente do Senado Marcello Pera, como se não tivesse havido a encarnação, como se Jesus não tivesse anunciado a libertação dos prisioneiros e a redenção dos pobres, como se a crítica da modernidade ao cristianismo não tivesse sido, com Hegel, de "dispersar os tesouros nos céus", e, com Marx, de fazer da religião o ópio e a alienação dos povos.

Essa é a proposta dos novos, velhíssimos campeões da ortodoxia: uma Igreja que não é de todos, muito menos dos pobres. Mas parece mais uma patética exumação do passado do que uma proposta para a atualidade, porque nem o cardeal Burke é um cardeal Caetani que pode eliminar um papa, nem o Papa Francisco é um Celestino V, eremita vindo do monte Morrone, com sua imensa compaixão, mas pobre de teologia e temeroso da Cúria.

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