Cardeais críticos não compreendem o Papa Francisco

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10 Dezembro 2016

Vários pensamentos me ocorrem quando me ponho refletir sobre o desafio que quatro cardeais puseram ao magistério do Papa Francisco em Amoris Laetitia.

O comentário é de Pat Perriello, professor aposentado da rede pública de ensino de Baltimore, trabalhou como coordenador dos Serviços de Orientação e Aconselhamento e professor associado na Universidade Johns Hopkins, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 07-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Um primeiro pensamento tem a ver com os cardeais virem a público com seus questionamentos só porque o papa não respondera às suas preocupações. Até que ponto eles tentaram? Suspeito que não é tão difícil se comunicar com este papa, caso fosse esta a intenção inicial.

Estes cardeais queriam vir a público. Buscaram embaraçar o papa e, diretamente, refutar o seu magistério. Escolheram empurrá-lo para um canto, e embora suas dúvidas estejam expressas em perguntas, estas se destinam a mostrar a Francisco os erros de seus trajetos.

Isso me faz pensar que se clérigos mais progressistas tivessem feito algo assim ao Papa João Paulo II ou ao Papa Bento XVI, teria havido uma indignação.

Além da má-fé e do desejo de divisão, estes cardeais demonstram não compreender Francisco. Eles não compreenderam o ponto central da exortação apostólica Amoris Laetitia. O “link” faltante é o de não se centrarem na recepção da Eucaristia. Como disse Francisco, a Eucaristia não é um prêmio por sermos bons. É o alimento para a alma ajudar o sujeito a ser bom.

Isso significa que os cardeais estão equivocados por inteiro no debate que propõem sobre a indissolubilidade do matrimônio e a situação dos católicos divorciados e recasados. A questão não tem a ver com a doutrina do casamento, de forma alguma. Tem a ver com a recepção da Comunhão.

Se estes cardeais querem questionar a doutrina, então podem questionar sobre a recepção da Comunhão no estado de pecado mortal. No entanto, sabemos que ninguém conhece o estado de espírito de um indivíduo. É por isso que o foro interno é usado para explorar se uma pessoa está em boa fé com a Igreja e genuinamente busca o alimento disponível na comunhão com o Senhor Ressuscitado. A ninguém devemos negar a possibilidade de se encontrar com Jesus no sacramento. Afinal, sabemos que Jesus não tinha problema algum em comer e beber com pecadores e estar em seu meio.

O Jesus dos evangelhos foi para a Samaria, onde não deveria ir. Falou com uma samaritana, com quem não deveria falar. Aparentemente ela tinha cinco maridos, mas ele a ofereceu a salvação. Mostrou que a água viva da salvação está disponível a todos, sem exceção.

Mais uma vez, estes tristes cardeais ficaram tão envoltos nas minúcias da doutrina que não conseguiram enxergar a mensagem amorosa e misericordiosa daquele a quem professam seguir. Estes cardeais (Burke, Caffarra, Meisner e Brandmüller) sentem-se tão compelidos a preservar a doutrina que, de forma alguma, está ameaçada. Em todo o seu papado, Francisco tem tido cuidado para não desafiar nenhuma das doutrinas da Igreja.

Estes cardeais não conseguiram ver que Francisco está tentando nos tornar mais parecidos com o Jesus que andou por esta terra muitos séculos atrás. Com certeza isso é um ponto em que todos podemos concordar.

Para concluir, me pergunto onde isso tudo vai acabar. Até que ponto os dissidentes de Francisco levarão os seus questionamentos? Estaremos nos encaminhando para um cisma? É possível que a Igreja possa se romper por causa do medo de estarmos sendo demasiado misericordiosos? Estamos demais preocupados com as pessoas a quem servimos?

Creio que o Papa Francisco esteja silente para dar a estes clérigos uma oportunidade de recuar. Ele está lhes dando uma oportunidade para repensar o que estão dizendo.

Será que eles vão compreender?

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