Ter 20 anos em 2018. Cinquenta anos depois de maio de 1968, a geração atual que relação tem com a fé?

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03 Abril 2018

"Ter 20 anos em 2018. Cinquenta anos depois de maio de 1968, a geração atual que relação tem com a ? Em nosso mundo individualista, o comprometimento religioso nem sempre é fácil para os jovens crentes. Embora, para muitos, dá sentido às suas vidas", escreve Raphaëlle Rérolle, em artigo publicado por Le Monde, 31-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Deus não morreu nas barricadas. Meio século após o Maio de 1968, podemos dizer que resiste: 46% dos jovens entre 18 e 30 anos entrevistados pela Opinion Way do LaCroix, em junho de 2016, consideravam a existência de Deus "certa" ou "provável".

No entanto, eles vivem em um mundo muito diferente daquele que viu floresceu as esperanças e fúrias daquela febril primavera. Naquela época, 20% dos franceses frequentavam a missa todos os domingos, e 80% se declaravam católicos. Foi, entre outras coisas, contra tal ordem social que os manifestantes lançaram slogans como: "É proibido proibir" ou "prazer ilimitado".

Cinquenta anos depois, o cenário mudou: os católicos praticantes são apenas 4%, 55% indicam graus de crenças muito diferentes. Os jovens se afastaram em massa das instituições: de acordo com um estudo europeu publicado pelo semanário La Vie em 22 de março, 23% dos franceses entre 16 e 29 anos declaram-se católicos e 64% sem afiliação religiosa.

As manifestações de maio de 68 tiveram uma influência sobre essas mudanças, mas também o desenvolvimento de religiões pouco representadas nos anos 1950, especialmente o islamismo e o cristianismo evangélico, um ramo do protestantismo que atrai hoje quase o dobro de pessoas com menos de 35 em relação a outros ramos protestantes (pesquisa Ipsos de outubro de 2017 para Reforme e para a Federação protestante da França). Quanto aos judeus, a chegada de judeus sefarditas do norte da África depois das independências revitalizou a prática religiosa.

Esses grupos não foram afetados pelos abandonos maciços que atingiram os católicos após o fim dos anos 1960.

"A geração de 1968 não criou seus filhos em uma perspectiva religiosa, ou permitiu que se afastassem", afirma Denis Pelletier, professor da Ecole Pratique des Hautes Etudese especialista em história do catolicismo. Aquele abandono criou uma lacuna difícil de ser preenchida mesmo que, apesar de um declínio contínuo do número de praticantes, "desde então, nenhum outro movimento de regressão forte tenha sido registrado", observa Nathalie Becquart, responsável pelo serviço nacional para a evangelização dos jovens e vocações da Conferência episcopal francesa.

Então, qual é a maneira de crer dos filhos rebeldes do Maio de 1968? Em um panorama da situação que varia de acordo com as religiões, de suas interpretações e até mesmo das regiões geográficas, podem ser traçados alguns movimentos básicos. Começando com o que Hélène, protestante de vinte e dois anos, chama de "uma busca existencial em um mundo profundamente desencantado".

É o que expressa Malik, um educador de 23 anos, que vive na região de Paris: "Crer e praticar significa encontrar tanto uma disciplina como uma razão para existir, muito mais rica do que pode oferecer a sociedade de consumo".

Mesmo tipo de raciocínio de Nathalie, uma enfermeira de 21 anos. Batizada no catolicismo, mas afastada da religião a tal ponto de ter sentido "ódio e amargura em relação a um Deus que se acredita que exista", redescobriu o caminho da fé através de um escoteiro assistente. "Em uma sociedade que se diferencia em relação ao próprio passado, ela afirma, muitos jovens querem recuperar o seu legado e encontrar um significado mais profundo para as suas vidas".

Voltam regularmente à tona os problemas metafísicos: Deus se manifesta na vida dos crentes, envia sinais, é buscado pela oração e, acima de tudo, ele tem as chaves da vida após a morte. O medo da condenação e o problema da redenção das culpas preocupam especialmente os jovens muçulmanos de bairros populares.

O sociólogo Fabien Truong, professor na Paris-VIII e autor de "Loyautés radicales, l'Islam et les 'mauvais garçons' de la nation" (Lealdade radical. Islã e os 'garotos maus' da nação), ed. La Découverte, 2017 – constatou isso muitas vezes: "Para muitos deles, a morte é uma realidade. O acerto de contas é a principal causa das mortes dos jovens ao seu redor, muitas vezes portanto eles perderam seus companheiros. E seus pais são parte das categorias sociais daqueles que desaparecem antes dos outros".

Na vida de Sarah, 16, estudante do ensino médio em Trappes (Yvelines), o paraíso é uma ideia sempre presente. "No dia do juízo final, iremos caminhar sobre um fio mais fino que um cabelo humano e iremos cair de um lado ou de outro". Por "não cair no inferno", procura acumular as ações que lhe darão pontos positivos de boa conduta e consulta diariamente no Instagram, mensagens destinadas a lembrar mandamentos às vezes bem estranhos. Filha de mãe cristã e pai muçulmano, esta adolescente que rejeita o extremismo escolheu o Islã por causa do ambiente em que vive. "Se eu não vivesse em Trappes, eu não seria muçulmana, mas estou feliz com esta religião porque Deus me ajuda".

O apoio oferecido pela fé está presente em todos os testemunhos. "É um farol na minha vida, relata Guillaume, estudante no Politécnico. Garante-me sabedoria e conforto e me serve como uma referência quando preciso tomar uma decisão que me preocupa do ponto de vista moral, mesmo não me considerando um bom crente ou um devoto".

Para muitos, o consolo é combinado a um sentimento de paz, de amor e até mesmo de uma verdadeira "alegria", palavra recorrente nos lábios católicos.

"Ser cristão significa começar com a escolha de amar e acabar tendo a alegria de amar", afirma Pierre, 23 anos, estudante da Universidade Paris-Dauphine.

A religião também pode ser "uma fonte de coragem", como relata Ali, um muçulmano de 23 anos. E, na maioria dos casos, um incentivo para querer fazer o bem ao seu redor, mesmo quando existe a dúvida e também a tentação.

"Com o advento das redes sociais, constata Thomas, 17 anos, ficamos constantemente distraídos, e isso muitas vezes afasta a ".

Finalmente, o sentimento de pertencimento a uma comunidade protege e tranquiliza. Define uma identidade, de acordo com Adam, judeu do ensino médio: "Eu gosto da ideia de estar em relação com aqueles que me precederam através dos ritos que são praticados na minha família, como o Shabat".

Mesmo respeitando a noção de legado, a maioria dos jovens crentes nega perpetuar mecanicamente uma tradição religiosa.

"Quanto aos católicos, estamos testemunhando o desaparecimento de uma prática religiosa por obrigação social, ressalta Denis Pelletier. Como resultado, a minoria que a prática é muito mais comprometida, senão militante, em relação às gerações anteriores".

A religião dos filhos não é exatamente é a mesma dos pais, em qualquer confissão. No caso do Islã, a obrigação pode ser mais forte em determinados bairros, mas "todo jovem tem a impressão de entrar por sua própria maneira", observa Fabien Truong. “Tornando-se melhor, torna-se melhor que os outros".

Em relação ao judaísmo, o desenvolvimento de escolas religiosas, desde os anos 1980, mudou muito a situação, diz Yonathan Arfi, vice-presidente do CRIF (Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França): "Um menino judeu em cada três estuda nessas escolas. Muitas vezes são eles que 're-hebraizam' seus pais, às vezes distantes da religião".

"O legado é uma coisa boa, mas eu não sou apenas o fruto da minha educação, afirma Emmanuel, estudante evangélica. O que me construiu e me criou 'de novo', é ter tido a experiência de um Deus vivo, embora apresentado através de uma letra morta, a Bíblia".

Em um mundo cada vez mais individualista, a religião não é exceção. A maioria dos jovens reivindica um vínculo pessoal com Deus, ao ponto de praticar uma espécie de relativismo zen como Amélie, estudante de sociologia em Marselha e católica: "Há tantas maneiras de praticar quanto existem praticantes, e isso é o que é maravilhoso em todas as religiões! Todo mundo as adapta a sua maneira de pensar, aos seus desejos ...".

Outros, como Alissa, estudante de Lyon em comunicações, 25 anos, "fabricaram" para si uma religião muito pessoal para evitar ter que escolher entre pais de diferentes confissões: "Eu rezo sozinha em casa, mas eu me sinto à vontade tanto em uma mesquita como em uma igreja".

Esse aspecto muito pessoal não coloca os crentes a salvo de um delicado problema: é preciso falar da própria religião ou mantê-la escondida? Alguns tomaram uma decisão clara como Ali: "O Islã define um esquema para minhas interações com os outros. Neste sentido, parece-me impossível praticá-lo apenas na esfera privada".

O mesmo vale para Lucile, estudante de 22 anos de Toulouse: "A fé cristã é baseada em um mandamento, ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Portanto, eu não tenho nenhuma razão para vivê-la apenas em privado".

Mas, eles também relatam que às vezes a religião é mal percebida, difícil de viver publicamente. "Na França, dizer 'Deus', é falar uma obscenidade. Tenha um pouco de vergonha!", exclama ironicamente Gustave, um protestante que instalou a Bíblia em seu celular, mas não declara suas crenças religiosas na vida cotidiana. Temos que admitir que o olhar dos agnósticos não é nada amável. Não só os crentes são percebidos como "ovelhas idiotas", lamenta Helier, 22 anos, estudante católico na Sorbonne, mas sofrem por ser sempre reportados à imagem veiculada pela sua religião. A partir de 11 de setembro e, especialmente após os atentados de 2015, a afiliação religiosa dos jovens muçulmanos é percebida como um perigo, a dos judeus como um possível risco. Para alguns muçulmanos, "essa pressão social foi inclusive um fator de retorno à religião", observa Abdelhak Sahli, presidente dos escoteiros muçulmanos da França.

Quanto ao catolicismo, é considerado uma religião para idosos, na melhor das hipóteses.

"Na França, muitas vezes se associam os católicos aos reacionários", observa David Leonard, 22 anos. As poucas vezes que eu abordei o assunto com meus amigos na universidade, senti que me olhavam de maneira estranha, e muitas vezes tive que ouvir frases como: 'Mas você percebe todo o mal que a Igreja fez?'.

Alguns relatam que foram injustamente considerados de extrema direita ou ter virado alvo de colegas na escola por ter declarado serem cristãos.

"Seria isso, o secularismo?", pergunta-se amargamente Gabrielle, uma estudante de literatura. “É possível aceitar que seu vizinho seja um católico sem jogar sobre ele todos os defeitos da Igreja? A Igreja não é Deus, é feita por seres humanos...".

Para tentar superar esses clichês que geram discórdia, alguns movimentos de escoteiros organizam reuniões interreligiosas. Isso também é feito pelos escoteiros muçulmanos, grupos criados há vinte e cinco anos. "Nós convidamos os jovens a realizar atividades com outros escoteiros, judeus, católicos ou protestantes, especialmente durante os acampamentos de verão, explica Abdelhak Sahli. “Para formar cidadãos responsáveis e imbuídos de uma cultura de paz, queremos que eles possam se questionar sobre a sua identidade através do olhar dos outros".

Como prova de que a ideia funciona: a cada ano o movimento não consegue absorver todos os jovens que pedem para a entrar nele, por causa do número insuficiente de voluntários para atendê-los.

Deus não está morto, talvez ele simplesmente tenha mudado de rosto.

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