Maio de 68: "O balanço vai da idolatria à flagelação". Entrevista especial com Fernando Eichenberg

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12 Março 2008

"Há os que consideram Maio de 1968 uma “festa”, e, outros, uma rebelião contra a “religião do progresso”. Teses não faltam." Essa é a opinião do jornalista Fernando Eichenberg. Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Eichenberg afirma que Maio de 1968 foi um terremoto de utopias que estremeceu a França. Segundo ele, o período ainda passa por avaliações e divide opiniões sobre suas contribuições. Neste diálogo, o jornalista falou ainda sobre as contribuições daquele período para a França contemporânea, dos direitos individuais e sobre o reflexo de 1968 no cinema. "O consenso é o de que Maio de 68 permanece para os franceses como um acontecimento complexo e fortemente simbólico", disse.

Fernando Eichenberg é graduado em História e Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros. É autor do livro Entre aspas - diálogos contemporâneos (São Paulo: Globo, 2006), uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os reflexos de Maio de 1968 na França de hoje?

Fernando Eichenberg A cada comemoração de data redonda desse terremoto de utopias que estremeceu o país, os franceses ainda não sabem muito bem o que fazer com Maio de 68. As recordações se multiplicam na forma de exposições fotográficas, documentários na tevê, suplementos especiais na imprensa, debates e lançamentos de livros. O balanço desse período vai da idolatria à flagelação.

IHU On-Line –  Então, há pontos altos e baixos a serem ponderados?

Fernando Eichenberg Há os que evocam ideologias, e, outros, números. Para alguns, o idealismo foi substituído pelo pragmatismo. Para outros, as severas contestações do movimento ao excessivo poder do Estado abriram caminho para as ambições desmesuradas do neoliberalismo. Há os que dão razão aos manifestantes: a sociedade produtivista elimina mais empregos do que cria; o número de 326 mil desempregados da época, na França, foi multiplicado por dez.

IHU On-Line – O senhor acredita que o movimento repercutiu positivamente no campo dos direitos individuais?

Fernando Eichenberg – Todos elogiam a espontaneidade das manifestações e concordam que as conquistas no campo dos direitos individuais, da ecologia, da liberdade sexual – da busca pelo Ponto G à popularização da pílula – e da igualdade entre homem e mulher foram consideráveis. Embora, pouco tempo depois, a sociedade de consumo, na mira do movimento, tenha se apropriado de todos os seus símbolos e que, no mercado de trabalho francês, a mulher receba um salário menor do que o dos homens, ou que direitos individuais tenham se transfigurado em egoísmo virtuoso de discursos neoliberais.

IHU On-Line – No mercado de trabalho, existe disparidade salarial entre homens e mulheres?

Fernando Eichenberg – Embora muitos progressos tenham sido alcançados, a igualdade entre homens e mulheres no trabalho ainda é uma conquista a ser alcançada na França. Segundo alguns estudos, a desigualdade salarial é, em média, de 44% a favor dos homens. Outras pesquisas apontam uma média de 25% a 30%. O fato é que as mulheres ainda não estão em condições de igualdade no mercado de trabalho. Hoje, as mulheres representam menos de 10% dos dirigentes de empresas do país e menos de 5% dos membros de conselhos de administração.

IHU On-Line – Quais outras evidências demonstram o quanto esse movimento foi polêmico?

Fernando Eichenberg – Há os que consideram Maio de 68 uma “festa”, e, outros, uma rebelião contra a “religião do progresso”. Teses não faltam. Há mesmo quem considere o movimento maléfico para a prestigiada gastronomia francesa: as exigências de democratização à mesa, contra uma concepção de “pratos burgueses”, teriam sacrificado especificidades da culinária nacional em nome da criatividade absoluta. O espectro da primavera de 1968 pode ressurgir nas quatro estações do ano, em maior ou menor intensidade, como bom ou mau exemplo, embora seja por seus desacertos que, de uns tempos para cá, tem sido lembrado com mais constância pelos franceses. O fato de, recentemente, um ministro da Educação ter incriminado o movimento como responsável pela ausência de autoridade nas escolas públicas do país é mais um entre os tantos ecos no imaginário francês dos gritos reverberados nas ruas do Quartier Latin (1) há algumas décadas.

IHU On-Line – E no cinema, como Maio de 1968 tem sido retratado?  Quais filmes tratam dessa temática?

Fernando Eichenberg – As vozes de tempos longínquos também têm sido percebidas nas salas de cinema da França. Dois filmes lançados há pouco tempo, por exemplo, abordam diferentemente temas relacionados ao período e à chamada geração de 68. Curiosamente, nenhum dos dois é de autoria de cineasta francês. Em As invasões bárbaras, o canadense Denys Arcand (2) trata de forma afetiva o balanço de uma geração que vivenciou o desencanto das utopias da segunda metade do século 20, deixando um certo rastro de desassossego. Em The dreamers (Os sonhadores), simbolicamente traduzido em francês para Innocents (Inocentes), o italiano Bernardo Bertolucci utiliza o movimento das barricadas como pano de fundo para manifestar sua devoção à sétima arte por meio de explícitas referências cinematográficas, e, ao mesmo tempo, retratar um singular ménage à trois entre adolescentes às voltas com descobertas do sexo e do amor, encerrados em um apartamento burguês, enquanto as ruas se tornam palco de confrontos entre manifestantes estudantis e a polícia de choque. O consenso é o de que Maio de 68 permanece para os franceses como um acontecimento complexo e fortemente simbólico. Vide as múltiplas reações à atitude do atual presidente Nicolas Sarkozy (3), que durante sua campanha fustigou repetidamente o movimento e acusou a todas as suas heranças.

IHU On-Line – Os jovens franceses são atuantes na política? Quais são as suas reivindicações?

Fernando Eichenberg – A preocupação dos jovens franceses, hoje, é majoritariamente com o seu futuro profissional e a dificuldade em acender ao mercado de trabalho ao sair da universidade. Desde 1980, o índice de desemprego dos jovens variou entre 20% e 30% na França. Nos anos 1990, metade dos desempregados tinha idade entre 21 e 30 anos. Em 2006, milhares de estudantes foram às ruas para se manifestar contra o Contrato Primeiro Emprego (CPE), projeto do governo que flexibilizava a contratação de jovens de até 26 anos, um movimento equivocamente comparado por parte da imprensa internacional às passeatas de Maio de 68. Para os trabalhadores, as preocupações são semelhantes: as reivindicações estão centradas no aumento do poder aquisitivo e na oferta de emprego. É o bolso que faz hoje, na grande maioria dos casos, jovens e trabalhadores franceses protestarem nas ruas.

IHU On-Line – Hoje, a França pode ser considerada um modelo quanto à liberdade de expressão?

Fernando Eichenberg – Contrariamente ao que ocorre em regimes autoritários e ditatoriais, a França é uma democracia consolidada e a liberdade de expressão não sofre censura e ataques. As queixas surgidas mais recentemente, expressas por jornalistas, veículos ou organizações como a Repórteres sem fronteiras (4),  dizem respeito a uma crescente intimidação e intromissão por parte do poder no noticiário. É conhecida a íntima relação de amizade do presidente Nicolas Sarkozy com grandes patrões da imprensa, hoje cada vez mais concentrada, e diversas denúncias já foram feitas como casos de censura, com origem no Palácio do Eliseu (5).  Os franceses têm sido bastante vigilantes em relação a essa questão. Mas tudo tem sido discutido e denunciado abertamente, prova de que, por um lado, a liberdade de expressão existe.

Notas:

(1) O Quartier Latin, localizado entre o Rio Sena e o Jardim de Luxemburgo, é a área mais antiga da França, hoje repleta de livrarias, galerias de artes e cafés. E em seus arredores podemos encontrar uma quantidade enorme de atratividades históricas, como a universidade representante de Pari,: Sorbonne.

(2) Denys Arcand é diretor de filmes como O declínio do império americano.

(3) Nicolas Sarkozy é o atual presidente da França.

(4)  Repórteres sem Fronteiras (RSF) é uma organização não-governamental internacional que visa defender a liberdade de imprensa no mundo. É membro e fundadora da organização Intercâmbio Internacional pela Liberdade de Expressão (IFEX), uma rede mundial de mais de 70 ONGs de defesa da liberdade de expressão, que monitora violações à liberdade de imprensa.

(5) Palácio do Eliseu (em francês Palais de l`Élysée), situado em Paris, é a residência oficial do presidente da República Francesa.

A entrevista foi realizada pela jornalista Alessandra Barros

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