"Bergoglio encontrou os mesmos obstáculos de Ratzinger. Agora denuncia perigosos lobbies do poder". Entrevista com John Allen

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05 Janeiro 2018

"Da mesma forma que Bento, Francisco está frustrado pelo entrave à reforma da Cúria. Com essas palavras, ele quer explicar os motivos e superar os obstáculos". Esta é a leitura do vaticanista estadunidense John Allen sobre o discurso proferido no dia 21-12-2017 pelo Papa Francisco aos colaboradores e seus familiares que trabalham na Cúria Romana.

O Papa Francisco, falando livremente, ou seja, sem um texto previamente preparado, centrou a sua saudação natalícia em quatro palavras: trabalho (denunciando a presença do trabalho ‘nero’ no Vaticano, família, ‘chiacchere’ (fofocas) e perdão.

A entrevista é de Paul Mastrolilli, publicada por La Stampa, 22-12-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A íntegra das palavras do papa Francisco, em italiano, podem ser conferidas no vídeo abaixo:

Eis a entrevista.

De onde provêm as críticas feitas à Cúria?

Acredito que nasçam da experiência de tentativas de reforma, que durante o ano passado estancaram. O Papa está tentando explicar os problemas que têm enfrentado, e identificou-os na atitude de algumas pessoas da Santa Sé que buscam vantagens financeiras, poder e outras coisas materiais, em vez do bem da Igreja e da comunidade. São reflexões sobre um ano durante o qual o projeto de reforma do Vaticano não teve sucesso.

Parece que estamos ouvindo novamente Bento. Nada mudou em cinco anos?

Sim, é verdade. A impressão é que, como o Papa Bento XVI, Francisco também tenha partido com a intenção de limpar a Cúria Romana, reformá-la, mas ao longo dos anos encontrou várias resistências e problemas. Aos poucos ele percebeu que há um grupo na Cúria que não só não quer reformas, mas as dificulta. Em minha opinião, o Papa está também um pouco ressentido com algumas personalidades da Cúria que se afastaram durante este ano, como cardeal Mueller ou Libero Milone. Eles saíram dizendo-se vítimas de manobras sujas, não colocando exatamente a culpa em Francisco, mas dizendo que talvez não esteja bem informado sobre os acontecimentos. O Papa ficou um pouco ressentido com essas pessoas e quis responder. Seu discurso deve ser visto no contexto da situação das reformas, que se paralisaram em 2017. Existem diferentes interpretações sobre o motivo, é esta é a de Francisco.

Quais são as reformas que ele considera mais importantes?

Especialmente a financeira. O Papa criou três novos órgãos para dirigir as reformas, e dois ainda não tem ninguém no comando. O cardeal Pell está na Austrália por acusações de abuso sexual, Milone foi afastado em circunstâncias misteriosas, a secretaria e o escritório do diretor geral estão sem liderança. Enquanto isso, o poder real sobre as finanças do Vaticano voltou às mãos da Secretaria de Estado. Não voltamos ao status anterior a Francisco, mas ao do século passado. A reforma desejada pelo Papa não aconteceu, e ele quer explicar o porquê.

Na época da renúncia de Bento foi denunciada a presença de um "lobby gay". Ainda é um problema?

O Papa não usou essa frase. É evidente que ele acha que há um lobby que não quer as reformas e busca interesses pessoais ao invés do bem comum. Ele falou de pequenos círculos de poder. Como Bento, Francisco acredita que exista no Vaticano um lobby mal intencionado e perigoso. Nenhum dos dois, contudo, citou nomes.

No discurso, ele também pensava nas críticas teológicas recebidas?

São duas questões diferentes. Há bispos no Vaticano contrários à linha teológica e política deste Papa, mas é algo separado da oposição às reformas da Santa Sé, dos sistemas financeiros e da gestão. A ironia é que muitos dos bispos estadunidenses mais contrários a temas como a exortação apostólica "Amoris laetitia" e a abertura para divorciados recasados, como Dolan, Di Nardo ou Chaput, também são os mais favoráveis ao projeto de reforma da Cúria, especialmente a financeira. Outro exemplo é Pell, o mais conservador entre os conservadores quando se trata de teologia e doutrina, mas empenhado em reforma. Essencialmente, diversos amigos de Francisco no lado teológico são, pelo menos potencialmente, seus inimigos quanto à reforma, enquanto seus inimigos na teologia são em muitos casos seus aliados sobre as reformas. Uma situação bastante complexa para o Papa, e em seu discurso ouvimos o reflexo dessa frustração.

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