Qual a verdadeira história sobre Dolan e Tobin em NY? Que tal "EUA para além da amargura"?!

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19 Julho 2017

Um artigo recente do New York Times destacou as diferenças entre os cardeais Timothy Dolan, de Nova York, e Joseph Tobin, de Newark. Certamente há várias, mas o que se perdeu é que ambos têm um profundo respeito com os outros e suas ideias e, nesse sentido, agem como um contraexemplo em um momento profundamente polarizado nos EUA.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 18-07-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

No domingo, o New York Times publicou um artigo sobre dois pesos pesados católicos na área da Grande Maçã: os cardeais Timothy Dolan de Nova York e Joseph Tobin de Newark, Nova Jersey. A ideia era sugerir que os dois representam um verdadeiro contraste, com o seguinte título: "Cardeais dos dois lados opostos do Hudson refletem dois caminhos do catolicismo".
Antes de ir a fundo, há dois pontos que merecem ser plenamente destacados.

Primeiro, fui citado no artigo, então estou abordando-o como parte interessada. Em segundo lugar, conheço Dolan e Tobin há anos, considero ambos meus amigos pessoais tanto quanto jornalistas e, portanto, também não posso fingir objetividade nesse sentido.

Em certo âmbito, o artigo certamente está certo em afirmar que Dolan e Tobin "agradam duas circunscrições bem diferentes". É inegável que Tobin se dá melhor com muitos liberais e Dolan com muitos (embora nem todos) conservadores. Além disso, seus instintos às vezes os levam em direções opostas, como em um recente debate na conferência dos bispos dos EUA sobre a formação de um comitê ad hoc sobre liberdade religiosa.

Há também algumas diferenças pessoais: Tobin é um administrador mais prático, enquanto Dolan prioriza missão à manutenção, muitas vezes se satisfazendo em delegar detalhes administrativos a outras pessoas.

No entanto, há algo que não foi destacado o suficiente, pelo menos na minha opinião: fundamentalmente, esses dois cardeais têm mais em comum do que o que os separa, e o temperamento de ambos faz com que eles tendam a enfatizar o antigo em detrimento do novo o tempo inteiro.

Na verdade, eu sugeriria que Dolan e Tobin capturam no microcosmo - embora, honestamente, não seja assim tão micro, já que os dois são bem grandes - uma verdade fundamental sobre a Igreja dos EUA que muitas vezes passa despercebida, que é que, sim, temos nossas diferenças, mas pessoas racionais nem sempre as enxergam como divisões.

Por exemplo, o artigo começa sugerindo um forte contraste no modo como Dolan e Tobin abordam as questões LGBTQ. Depois, descreve a decisão de Tobin de receber uma peregrinação LGBTQ na Catedral do Sagrado Coração de Newark e sua repercussão negativa.

O que falta nessa conta são dois pontos fundamentais.

Primeiro, Dolan foi, no mínimo, tão criticado quanto Tobin, se não mais, por conservadores da Igreja por sua decisão de participar de desfiles de São Patrício em Nova York que incluem grupos abertamente homossexuais, o que vai ao encontro de sua filosofia básica de tentar, o máximo possível, manter a comunicação aberta com todos.

Em segundo lugar, os ensinamentos religiosos de Tobin sobre o casamento não são mais "vagos" do que os de Dolan, e o fato de ele receber a peregrinação não significava que uma revolução doutrinária estava sendo anunciada.

"Se perguntarem, eu prego o que a Igreja prega e ensino o que a Igreja ensina, e creio nisso com grande serenidade", disse ele ao Crux em uma entrevista recente, acrescentando que "não acredito que toda pessoa que se identifique como LGBTQ seja sexualmente ativa. Se eles estão tentando ter uma vida casta, certamente precisam do apoio da comunidade religiosa, uma chance de orar e saber que são bem-vindos no corpo de Cristo."

Se isso é inovador de alguma forma, pode-se colocar Dolan e praticamente todos os bispos católicos no país como revolucionários também.

O que você precisa saber sobre Dolan e Tobin é que, em grande parte do que realmente importa, eles são basicamente duas versões da mesma pessoa.

Ambos são populistas, sentem-se confortáveis com as pessoas simples, não deixaram sua importância subir à cabeça e cultivam um ótimo senso de humor. (Com certeza, a abordagem de Tobin é mais suave, enquanto Dolan é como um rei Henny Youngman das piadas prontas, mas ambos sabem rir de si mesmos acima de tudo.)

Os dois vêm de famílias de trabalhadores: Dolan cresceu em St. Louis e Tobin em Detroit. Ambos, por instinto e experiência, sabem como unir diferentes tipos de pessoas - Dolan foi reitor do seminário e Tobin, superior religioso. (Nota de IHU On-Line: Tobin foi superior geral dos Redentoristas)

Dolan e Tobin têm suas opiniões, mas também conseguem se afastar delas e levar os outros em consideração de verdade. No caso de Dolan, isso se deve em partes por ser doutor em História da Igreja sob orientação de John Tracy Ellis, o que promoveu a disciplina de procurar entender de onde as pessoas vêm antes de julgar. Para Tobin, deve-se à experiência de liderar a ordem redentorista mundial, aprendendo rapidamente que a perspectiva estadunidense não era a única forma de avaliação.

Ambos se preocupam profundamente com as pessoas ao seu redor. Por exemplo, citaram-me dizendo que Dolan não tem "interesse algum" nos detalhes básicos sobre como os sacerdotes fazem as tarefas. Essa é uma maneira injusta de colocar as coisas, pois ele passa muito tempo observando onde os sacerdotes servem, ao passo que também respeita as opiniões das pessoas ao redor e abaixo dele sobre como isso deve ser feito.

De qualquer modo, isso não significa que ele não tenha interesse em seus sacerdotes. Pelo contrário, lembro muito bem de estar com ele em uma SUV no final de um dia cansativo pouco depois de ele ter chegado a Nova York, a caminho de uma reunião com paroquianos no condado de Westchester. Esse momento, de cerca de uma hora, no carro, foi realmente seu único intervalo durante todo o dia, e pensei que talvez ele quisesse cochilar, ler um pouco, ou fazer o que as pessoas comuns fazem.
Pelo contrário, ele ficou ligando para todos os padres da arquidiocese que estavam de aniversário naquele dia, dizendo que o arcebispo estava pensando neles.

Tanto Dolan como Tobin são instintivamente reconciliadores, pessoas que não procuram brigas ou desavenças. Dolan atribui esse elemento, em parte, a seu pai, que costumava convidar todo mundo no bairro de St. Louis para almoçar no quintal de sua casa, independentemente de seu histórico ou de política.

"Eu fui criado em um ambiente em que se acredita que não há muitas coisas na vida que não possam ser resolvidas, ou pelo menos remediadas, tomando algumas cervejas e comendo um cheeseburger no pátio", disse ele, em 2011, em uma entrevista para um livro.

"Precisamos estar constantemente em contato, dispostos a conversar, se esforçando para tornar realidade nossa linguagem elevada sobre a Igreja ser como uma família", disse ele. Acrescentou, ainda, que se tivesse que escolher, ele priorizaria estender a mão aos que caíram pelo caminho e aos descontentes com a pregação ao coro, porque, segundo ele, é isso que o Evangelho o chama a fazer.

Feche os olhos, e fica fácil imaginar que Tobin está falando também.

Na verdade, Tobin disse o seguinte ao Crux: "Sinto que é meu trabalho acolher as pessoas. Quando recebi o báculo na praça de São Pedro, em Roma, rezei uma oração que diz: "você deve prestar atenção aos corações das pessoas que lhe foram confiadas".
Para concluir, tanto Dolan como Tobin têm um profundo respeito pelos outros e não querem se colocar em uma situação de tirar vantagem.

Sem revelar nenhum segredo, posso dizer que, quando Dolan chegou pela primeira vez a Nova York, houve uma tendência em alguns círculos de compará-lo positivamente ao seu antecessor, o cardeal Edward Egan, e Dolan foi longe para não alimentá-la. Da mesma forma, Tobin nos disse recentemente que não quer ser colocado contra Dolan e que não vai seguir qualquer tentativa de fazê-lo. (Observe que ele se recusou a ser entrevistado para o artigo do Times.)

O que temos, em outras palavras, são dois clérigos comprometidos com o ensino e a tradição católicas, sendo que um deles inclina-se um pouco mais à direita e outro à esquerda, mas ambos são comprometidos com uma visão mais ampla da Igreja em que há muito espaço para o outro e estão igualmente empenhados em administrar as diferenças com civilidade e dando aos outros o benefício da dúvida.

Eis a manchete que eu teria proposto se tivesse escrito o artigo: "Cardeais em lados opostos do rio Hudson são exemplos de um país para além da amargura".

Talvez não atraísse tantos olhares - e, Deus sabe que, como jornalista, me preocupo com isso -, mas pelo menos teria a virtude de estar um pouco mais próximo do que torna a interseção entre essas duas grandes personalidades no maior mercado de mídia do país tão excepcionais.

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