Hipocrisia marca resposta inadequada de DiNardo a Weinandy

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06 Novembro 2017

Não sei o que é pior, o fato de o Capuchinho Tom Weinandy, ex-diretor da Comissão Episcopal dos Estados Unidos para a doutrina, ter escrito uma carta tão ridiculamente presunçosa para o Papa, ou de a atual liderança da Conferência dos Bispos dos EUA ter respondido de forma completamente inadequada.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 03-11-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O Mons. John Strynkowski, antecessor de Weinandy no Comitê de doutrina, já publicou uma resposta contundente à carta de Weinandy, refutando cada um de seus pontos. Não preciso repetir seus argumentos e, além disso, não quero me associar a eles.
Ainda assim, tenho algumas outras preocupações. Weinandy não apenas se opôs a isto ou aquilo que o Papa Francisco disse ou fez; todo o tom da carta, a escolha de palavras, mostrou uma terrível falta de respeito e humildade.

Por exemplo, depois de citar a "confusão" sobre a interpretação de Amoris Laetitia, ele escreve: "Ensinar com tanta falta de clareza pode inevitavelmente levar ao pecado contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade. O Espírito Santo foi entregue à Igreja, e sobretudo a Vós, para dissipar o erro, não para fomentá-lo. ... No entanto, Vós pareceis censurar e inclusive ridicularizar aqueles que interpretam o capítulo oito de 'Amoris Laetitia' segundo a tradição da Igreja, rotulando-os de fariseus apedrejadores, representantes de um rigor sem misericórdia. Este tipo de calúnia é alheio à natureza do Ministério Petrino. Lamentavelmente, parece que alguns de seus conselheiros se dedicam a este tipo de atitude. Este comportamento dá a impressão de que vosso ponto de vista não sobrevive a um escrutínio teológico, e por isso deve ser sustentado mediante argumentos 'ad hominem'." Atenção às palavras: "pecado contra o Espírito Santo", "pareceis censurar", "promover [o erro]”, "calúnia", "argumentos 'ad hominem' ".

Primeiro, é muito irônico que Weinandy esteja preocupado com a censura, não? Foi ele quem por várias vezes censurou teólogos íntegros quando trabalhava na Conferência Episcopal dos EUA.

Em segundo lugar, pecar contra o Espírito Santo é uma acusação muito grave contra qualquer pessoa, ainda mais o Papa. O mesmo vale para promover o "erro" e cometer calúnia. É o tipo de coisa que causaria uma demissão. E eu não lembro de o Papa ter apresentado nenhum argumento ad hominem, muito menos que indicasse os receios do Papa de algum "escrutínio teológico".

Para mim, parece que o Papa permitiu muito escrutínio teológico de seus ensinamentos.

Weinandy escreve: "Os fiéis católicos estão desconcertados pela vossa escolha de alguns bispos, homens que não só parecem abertos àqueles que têm pontos de vista contrários à fé cristã, mas que também os apoiam e inclusive os defendem".

Tradução rápida: O Papa Francisco não nomeou meus amigos para bispo. Vamos lá, padre: Dê nomes. Não seja covarde. O Papa escolheu o Cardeal de Washington, Donald Wuerl, para a Congregação dos Bispos. O senhor quer dizer que ele apoia e defende os que sustentam essas opiniões? Francisco nomeou seu companheiro capuchinho, o Cardeal de Boston, Sean O'Malley, para o Conselho de Cardeais. O senhor tinha O'Malley em mente? O Papa escolheu o Cardeal Kevin Farrell para atuar no Vaticano, o Cardeal Blase Cupich como arcebispo de Chicago e o Cardeal Joseph Tobin como arcebispo de Newark, Nova Jersey. Eles são brincando com os hereges?

Weinandy continua acusando o Papa de ficar ressentido com as críticas dos bispos. "Muitos [bispos] temem que, se falarem abertamente, serão ser marginalizados. Ou algo pior."

Novamente, é irônico isso vir de Weinandy, que estava muito disposto a tentar marginalizar teólogos. Mas vamos dar uma resposta diferente a esta observação. Se qualquer bispo analisar o que este obviamente bom pastor está tentando fazer na Igreja e ficar com medo, espero que seja marginalizado. Quem me dera essas - supostamente várias - pessoas descontentes fizessem as malas e fossem para casa.

Weinandy e sua turma preocupam-se com todos os fiéis católicos que estão escandalizados por Francisco. Mentira. Francisco deve ser o papa mais popular da história, talvez não na Universidade Franciscana de Steubenville, mas na maior parte dos lugares em que estão os fiéis católicos leais começam a gostar dos novos apelos do Papa por mais misericórdia e menos julgamento. Os católicos mais conservadores adoram este Papa. Há oponentes, claro, e eles são bem financiados e muito barulhentos, mas são uma parcela ínfima da população.

As pessoas que se incomodam com Francisco, e Weinandy será o principal deles por um tempo, são infelizmente sobrerrepresentados no clero e em instituições católicas poderosas. Assim como ele, pensavam que a interpretação da doutrina cristã era deles. Eu escrevi sobre um desses aspirantes a teólogo no início da semana passada. Eles agem como uma criança mimada que perdeu seus brinquedos. São eles que estão cheios de ressentimento e espalhando a calúnia. São eles que estão causando confusão.

Algum tempo atrás, quando algum teólogo católico discordava de um ensinamento da Igreja, não se dizia que o Papa João Paulo II estava "pecando contra o Espírito Santo". Dizia-se que estava errado. A hiperventilação entre os adversários estadunidenses do Papa, e a maioria deles é estadunidense, é tão notável quanto sua arrogância.

Não posso deixar de mencionar a explicação de Weinandy sobre como chegou à conclusão que devia escrever ao Papa. Ele pediu um sinal de Deus e recebeu. Existem alguns trechos da Escritura, que acredito que ele conheça, que advertem contra esse tipo de pedido. Lembra-se de Meribá? A tentação no deserto?

Toda a história sobre o encontro com um velho amigo que disse exatamente o que Weinandy pediu na noite anterior, que é pura besteira supersticiosa. E é chocante que uma superstição saia do coração de alguém a quem, por nove longos anos, confiou-se a análise da doutrina para os Bispos dos EUA.

O que nos leva à resposta do Cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, à carta. DiNardo, presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, declarou que a carta, bem como sua renúncia do cargo de consultor da Conferência, "oferece uma oportunidade para refletir sobre a natureza do diálogo dentro da Igreja. Ao longo da história da Igreja, ministros, teólogos e leigos têm debatido e expressado suas opiniões pessoais em uma gama de questões teológicas e pastorais."

Não lembro de uma chamada à reflexão depois de a Conferência dos Bispos dos EUA, sob a tutela de Weinandy, ter atacado a Irmã de São José Elizabeth Johnson ou outros teólogos. Eu não lembro de nenhuma linguagem inócua, "ao longo da história", ser utilizada quando o Pe. Charles Curran foi banido da Universidade Católica da América em 1986. E, mais recentemente, não lembro de os bispos serem muito abertos ao debate em relação à liberdade religiosa. A hipocrisia é assustadora.

DiNardo afirma:

Como bispos, reconhecemos a necessidade de ter discussões abertas e humildes sobre questões teológicas e pastorais. Devemos ter sempre em mente o “pressuposto" de Santo Inácio de Loyola sobre seus exercícios espirituais: "... que deve-se presumir que todo bom cristão deve ter maior disposição para interpretar de forma positiva uma afirmação do próximo do que para condená-lo". Esse pressuposto deve ser mantido ainda mais no ensino de nosso Santo Padre.

Ufa. Pelo menos ainda temos que dar ao Papa o benefício da dúvida. DiNardo não distingue nenhuma vez entre a reclamação maldosa de Weinandy e o ensino magistral do Santo Padre. Na verdade, a palavra magistério não aparece nenhuma vez na instrução. Um amigo judeu, ao ler a declaração de b, observou: "Pensei que sua Igreja era hierárquica".

Não me interpretem mal. Sou a favor do diálogo e da civilidade. Mas isso não tinha nada que ver com a multidão achar que controlava a interpretação do diálogo, quando tinham canais secretos de comunicação com o Papa. Foram rápidos demais em castigar e marginalizar os que questionaram algo que João Paulo II disse.

E há a suspeita de que se houvesse um novo papa amanhã, de que gostassem mais, os apelos à civilidade acabariam, o diálogo cessaria e alguém como Weinandy voltaria para alegremente censurar os teólogos.

Finalmente, como Weinandy decidiu divulgar a maneira como buscou um sinal divino, cabe à Conferência Episcopal distanciar-se dessa superstição maluca. Ou será que, em vez de votar em outra pessoa para a presidência da Comissão doutrinal, como planejam fazer em duas semanas, em Baltimore, DiNardo vai matar uma galinha e ver na direção de qual candidato flui o sangue?

Vivemos numa época interessante. Quando os Bispos se encontram, deveriam suprimir sua opinião pessoal e ter uma longa conversa sobre o que significa ser fiel ao Papa, sobre se seus ensinamentos são magistrais ou não, se seu compromisso de diálogo civil é permanente ou conveniente.

Ainda mais importante, devem perguntar-se como ajudaram a Igreja nos Estados Unidos a chegar a um ponto em que tal oposição organizada ao Papa é tão comum, em que a linguagem usada — por um de seus antigos funcionários — é tão desrespeitosa e feia, em que algumas das mais influentes organizações e órgãos católicos estão nas mãos de jansenistas.

Os Bispos não terão essa discussão, nem em Baltimore, nem em lugar nenhum. Vão seguir adiante. Roma deve observar e analisar os candidatos para o episcopado dos EUA ainda mais de perto.

E o resto de nós, a grande maioria dos católicos nos bancos das igrejas? Nós amamos o Papa e estamos com ele.

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