O que distingue Bergoglio e Ratzinger. Artigo de Gian Enrico Rusconi

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30 Junho 2016

Entre Bergoglio e Ratzinger não há contraste de princípio, mas uma sensibilidade profundamente diferente, que não pode deixar de se refletir um nível doutrinal, também no conceito onipresente de "misericórdia".

A análise é do historiador, filósofo e cientista político italiano Gian Enrico Rusconi, professor emérito da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal La Stampa, 29-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com a troca de afetuosas palavras e de profundos atestados de estima recíproca, o Papa Francisco e o Papa Emérito Ratzinger podem considerar como fechada toda interpretação maliciosa da sua relação?

Francisco, na viagem de volta da Armênia Armênia, no domingo, tinha usado palavras duras e inequívocas. "Há um só papa. O outro, Bento XVI, é um papa emérito, uma figura que antes não existia e à qual ele, com coragem, oração, ciência e também teologia, abriu o caminho".

Não existem dois papas ou uma combinação deles. É uma seca negação da tese defendida tempos antes – não sabemos com que intenção – por Dom Georg Gänswein, notoriamente muito próximo de Ratzinger.

De acordo com o prelado, existiria "de fato 'um ministério petrino' alargado". Um ministério "com um membro ativo e um contemplativo: por isso, Bento não renunciou nem ao seu nome nem à sua batina branca. o apelativo correto para se dirigir a ele ainda hoje é 'Santidade'".

Podia parecer uma sutil tentativa de limitar a posição do Papa Francisco, jogando maliciosamente a carta da contraposição entre o seu ativismo "pastoral" caracterizado por um grande sucesso midiático e a sua suposta fragilidade e inconsistência "teológica".

O Papa Bergoglio, que não é tolo, reagiu, por sua vez, com um argumento duplo. Um diretamente referido à pessoa de Ratzinger, "fiel à sua palavra" de não interferir no agir do seu sucessor. "Ele é muito inteligente e, para mim, é o avô sábio em casa", um avô com um "sadio e alegre senso de humor", reiterou ele nessa terça-feira.

Entrando na substância dos argumentos, é preciso dizer que o Papa Francisco tem uma ideia precisa de "teologia" ("teologia de joelhos", "teologia do povo", "teologia da misericórdia"). Nele, não há insistência nos motivos da "racionalidade da fé" ou da "helenização do cristianismo", com que Ratzinger se confrontava com o mundo moderno. Ele tem os olhos fixos na narrativa evangélica relatada literalmente ao hoje, sem solução de continuidade.

Naturalmente, entre Bergoglio e Ratzinger não há contraste de princípio, mas uma sensibilidade profundamente diferente, que não pode deixar de se refletir um nível doutrinal, também no conceito onipresente de "misericórdia".

A propósito desta última, Ratzinger publicou, no dia 17 de abril, no L'Osservatore Romano, um texto, em forma de entrevista, de interpretação nada fácil. Ele contém uma explícita aprovação da temática da misericórdia bergogliana, mas enquadrada e articulada no contexto mais complexo da "justificação da fé", ampliando o discurso para a questão da presença do mal no mundo.

Ele se move entre duas afirmações: "Diante do mal do mundo, o homem não crê mais que precisa da justificação, mas que Deus deve Se justificar diante dele"; por outro lado, "Deus não pode simplesmente deixar como está a massa do mal que decorre da liberdade que Ele mesmo concedeu. Só Ele, vindo fazer parte do sofrimento do mundo, pode também redimir o mundo".

Segue a doutrina tradicional do pecado, da punição, da expiação, além do perdão de Deus através de Cristo, mas há também um explícito distanciamento das teses (nominalmente atribuídas a Santo Anselmo) da natureza infinita de Deus que exige, por necessidade lógica e metafísica, uma expiação infinita, que Deus mesmo pode garantir apenas por meio do sacrifício do Filho.

Não é este o lugar para seguir as argumentações de Ratzinger, consciente das dificuldades da temática entre "justificação" e "misericórdia". Mas chama a atenção que ele escreva: "Não há dúvida de que, sobre esse ponto, estamos diante de uma profunda evolução do dogma".

É espontâneo se perguntar se a estratégia comunicativa de Bergoglio, nos seus textos sistemáticos e nas suas conversas "de improviso" sobre a misericórdia, não está levando, consciente ou inconscientemente, nessa direção.

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